Festival de Paulínia mostra avanço na seleção

Competição de longas de ficção teve boa qualidade em 2011, embora documentários e curtas ainda tenham deixado a desejar

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

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Nanda Costa e Irandhyr Santos em "Febre do Rato"
Em sua quarta edição, o Festival de Cinema de Paulínia, agora conhecido como Paulínia Festival de Cinema, já mostrou sinais de maturidade. Se anos anteriores a curadoria cometia falhas graves e o público insistia em não comparecer, em 2011 as coisas se assentaram. O Theatro Municipal teve lugares esgotados todos os dias – a começar pela estreia, com "O Palhaço", na última sexta-feira (08) –, sessões extras e a competição, além de não selecionar absurdos, contou com filmes de qualidade altíssima.

Conheça os vencedores do Paulínia Festival de Cinema 2011

O fato da Secretaria Municipal de Cultura ser a responsável por selecionar os filmes para o festival e ao mesmo tempo eleger e repassar recursos aos projetos vencedores dos editais da cidade era um pouco temerário – afinal de contas, quatro dos seis longas de ficção haviam tido apoio do Pólo Cinematográfico local. Felizmente, todos tinham características suficientes que justificassem sua seleção.

Em longa-metragem de ficção, Selton Mello mostrou uma evolução notável como cineasta em “O Palhaço” , seu segundo filme, construindo uma dramaturgia eficiente, com capacidade para triunfar nas bilheterias. Venceu em direção e roteiro, mas, mesmo com todo fuzuê, o prêmio da votação popular acabou nas mãos da comédia “Onde Está a Felicidade?” . A coprodução com a Espanha da atriz e roteirista Bruna Lombardi e do diretor Carlos Alberto Riccelli até faz rir, embora se perda num final constrangedor. A atriz espanhola María Pujalte tem pouco tempo em cena, mas rouba as atenções sempre que aparece. Moacyr Franco, então, nem se fale: aparece apenas uns cinco minutos e protagoniza talvez a melhor piada de “O Palhaço”. Bela escolha do júri.

Puxado por um elenco estelar – Rodrigo Santoro, Débora Falabella e Cauã Reymond, “Meu País” sustenta um drama familiar sem muito brilho, feito em coprodução com a Itália. Já “Os 3” faz um painel interessante sobre os conflitos da juventude e reflete sobre o mundo dos reality shows. Se não é um primor, ao menos deve conseguir se comunicar com o público-alvo. Os dois filmes saíram de mãos vazias.

“Trabalhar Cansa” , representante brasileiro no Festival de Cannes, sustenta uma tensão crescente e mistura relações trabalhistas a elementos fantásticos. Original e competente, foi um pouco ofuscado na premiação de Paulínia e levou apenas o Prêmio Especial do Júri. Todas as láureas foram para o pernambucano “Febre do Rato” , de Cláudio Assis, exibido no último dia do festival. Poético e intenso, o filme abocanhou oito estatuetas, entre eles melhor filme e os merecidíssimos prêmios de atuação para Irandhyr Santos e Nanda Costa.

No campo do documentário, “Rock Brasília – Era de Ouro”, de Vladimir Carvalho, foi a escolha óbvia. Além de recuperar um momento histórico primordial para a cultura brasileira, recupera material de arquivo e entrevista integrantes da Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso. Tudo costurado da maneira clássica e direta do diretor, um veterano do gênero.

“Ela Sonhou que Eu Morri”, de Maíra Bühler e Matias Mariani ganhou o prêmio de direção da categoria. O filme entrevista estrangeiros presos no Brasil. Se as histórias têm conteúdo, a opção por manter a câmera estática, como se os detentos estivessem no confessionário, é um pouco incômoda. “Uma Longa Viagem” , o documentário mais inovador em termos de linguagem, sobre a família da diretora Lúcia Murat, ganhou apenas o prêmio da crítica.

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"Rock Brasília": Renato Russo e o diretor Vladimir Carvalho em entrevista na década de 1980
A competição de documentário ainda teve um ponto alto com “Ibitipoca, Droba pra Lá”, que lembra o universo caboclo de “Terra Deu, Terra Come” ao flagrar histórias de moradores da serra do Ibitipoca, em Minas Gerais, embora a impressão logo se dissipe. Inexplicável foi a seleção de “À Margem do Xingu – Vozes Não Consideradas”, dirigido pelo espanhol Damià Puig. O filme faz um registro necessário das comunidades que serão afetadas pela construção da hidrelétrica de Belo Monte, na Amazônia, mas de bom, só tem a intenção. É um apanhado de depoimentos sem nexo ou narrativa, abaixo até mesmo de trabalhos universitários. A impressão que dá é de que foi selecionado apenas pela presença de um ex-aluno da escola de cinema de Paulínia na equipe. Não por acaso, ganhou a votação popular.

Outro equívoco é “A Cidade Ímã”, de Ronaldo German. Filmado e finalizado inteiramente pelo diretor, lembra uma produção amadora da década de 1990 e poderia facilmente ter 30 ou 40 minutos a menos.

Entre curtas-metragens nacionais e regionais, dos 15 filmes, apenas três (“Tela”, “Qual Queijo Você Quer?”, “Uma Primavera”) eram dignos dos prêmios principais. Para um festival que se gaba de ter recebido centenas de inscrições, é muito pouco.

Isso prova que, apesar de ter acertado em longas-metragens de ficção, Paulínia ainda dá umas derrapadas na curadoria. Se a ideia é mesmo se consolidar como o melhor festival de cinema do país, em sintonia com a importância que o pólo cinematográfico já adquiriu para a produção do setor, a qualidade precisa ser colocada em primeiro lugar – até mesmo no filme de encerramento, já que “Assalto ao Banco Central” deixou muito a desejar. De resto, foi um sucesso, da excelente exibição no Theatro Municipal à presença maciça do público.

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