Favorito ao Oscar, "O Artista" encanta com homenagem ao cinema

Filme mudo francês, mas hollywoodiano, recupera (ou recicla) clássicos com simplicidade

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Se alguém contasse, ninguém ia acreditar. Um filme mudo, em preto-e-branco, francês, favorito ao Oscar e indicado em dez categorias? Há alguns meses, podia parecer piada, mas hoje trata-se de um fato mais do que consumado. "O Artista" estreia nesta sexta-feira (10) no Brasil como sério candidato aos prêmios principais da Academia, incluindo filme, diretor e ator.

Ricardo Calil: "O Artista" é um filme sobre o cinema do presente

É incrível como o hype em torno de "O Artista" foi crescendo desde a sua estreia no Festival de Cannes , no ano passado, quando foi incluído de última hora na competição e acabou ganhando a Palma de melhor ator para Jean Dujardin, prata da casa. A recepção na França já foi bastante positiva, mas ninguém esperava que, ao atravessar o oceano, as críticas nos Estados Unidos iam ser tão superlativas.

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Jean Dujardin e Bérénice Bejo em "O Artista": convite para túnel do tempo em Hollywood
De certa forma, é compreensível que os norte-americanos tenham abraçado o filme da forma que fizeram: de francês, "O Artista" parece não ter nada. Sim, o diretor ( Michel Hazanavicius ), o produtor e o casal principal de atores são de lá, mas de resto, é um típico produto "made in USA".

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Isso porque a história se passa, e foi filmada, em Los Angeles, com equipe e elenco norte-americanos. Tudo é em inglês, dos cartazes e jornais às cartelas com diálogos, num esforço máximo para reproduzir a cidade e o ambiente da indústria do cinema no final da década de 1920. Um senhor afago em Hollywood.

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Dujardin e Uggie, a arma secreta de "O Artista"
Dujardin, famoso por ter um rosto elástico a la Jim Carrey, interpreta George Valentin, astro carismático de produções mudas de todos os tipos – romances, aventuras de capa e espada, ficções com cientistas malucos, heróis mascarados. Uma mistura de galãs como Errol Flynn e Douglas Fairbanks, de personalidade magnética, que vê seu nome e bigodinho estampados por todos os lados.

Numa pré-estreia de gala, a fã Peppy Miller (Bérénice Bejo, mulher de Hanazavicius) acaba esbarrando com o ator no tapete vermelho. Todo mundo acha graça, a garota não perde o rebolado e tasca um beijo no rosto do ídolo. A foto vai parar na capa da "Variety" e serve para que ela entre no mundo do cinema.

A química entre os dois é instantânea, mas Valentin é casado (e nada feliz). A ele, resta dar um conselho: "Se você quer ser uma atriz, vai precisar de algo que as outras não têm", afirma, colocando uma pinta um pouco acima do lábio de Peppy.

E então o som invade o reino do celuloide. Valentin não se deslumbra, diz que a coisa não vai durar e aposta tudo numa aventura muda – "não sou um boneco, sou um artista", afirma aos jornais. Como numa gangorra, tal qual "Nasce uma Estrela", o astro desce e Peppy sobe para o firmamento de Hollywood.

Originalidade não é o forte de "O Artista", mas convenhamos que seria difícil exigir algo assim de um filme cuja proposta é justamente homenagear a história do cinema – por que mais voltar ao cinema mudo? O diretor Michel Hazanavicius já havia feito algo parecido em seu longa de estreia, "A Classe Americana" (1993), um mashup de cenas de mais de 50 filmes da Warner Bros com nova dublagem.

Em seu projeto mais conhecido, a série de filmes do "Agente 117", paródia do espião 007 estrelada por Dujardin na década passada, Hazanavicius adotava a reciclagem mais uma vez, mas por um viés farsesco, cômico e zombeteiro. Em "O Artista", o cineasta trocou isso pelo carinho às obras clássicas do cinema e fez uma produção de apelo universal.

Verdade que o roteiro, escrito pelo próprio diretor, tem uma sagacidade que os filmes da década de 1920 não tinham. Sua inspiração começa um pouco mais longe, na leveza do musicais de Ernst Lubitsch, nas comédias de Billy Wilder, no carisma de Fred Astaire, e brinca, principalmente, com a consciência de que é mudo.

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Bejo num abraço solitário: puro brilho
Uma dessas piadas está, por exemplo, num pesadelo de George Valentin: o telefone, o copo, a cadeira, uma pena caindo no chão, tudo ganha som, menos a garganta do astro. É uma das cenas de puro brilho do filme, como aquela em que Peppy simula o abraço de seu ídolo dentro de seu casaco; ou quando Valentin, num delírio alcoólico, é atacado por sua própria miniatura, acompanhada de selvagens africanos. Fica impossível segurar o sorriso no rosto.

Essa é uma constante ao longo da projeção. Mesmo mudo e com um pé no dramalhão, "O Artista" tem aqueles ingredientes que ganham a plateia facilmente: cenas de dança e sapateado, um galã de sorriso contagiante, uma mocinha irresistível (segure-se quando Bejo der uma piscadela) e, sua grande arma secreta, o cachorro Uggie.

Favorito ao Coleira de Ouro , o Oscar canino, o cãozinho é uma das estrelas dessa temporada de prêmios e, no filme, protagonista inconteste. Sempre ao lado de Valentin, basta Uggie esconder o focinho entre as patas ou fazer um truque para a plateia derreter. Deslumbramento genuíno, simples, que atravessou décadas intacto.

O elenco secundário tem rostos conhecidos: John Goodman como o bonachão gerente do estúdio, sempre de charuto na boca; James Cromwell como o motorista de fidelidade canina; e Malcolm McDowell, numa participação rápida. Mesmo nas categorias técnicas, também reconhecidas no Oscar, "O Artista" se destaca. Impossível não notar a excelência do figurino, da direção de arte e da trilha sonora, essa sim essencial numa história desprovida de diálogos.

O desafio é levar o público de hoje para assistir a um filme mudo e sem cor. Verdade que o ardiloso executivo Harvey Weinstein, responsável pela comercialização de "O Artista" e conhecido como "senhor Oscar", já conseguiu a proeza de colocá-lo nas manchetes mundo afora e, com isso, abriu espaço para exibi-lo nos multiplexes – não à toa, o filme, de orçamento modesto (US$ 15 milhões), já acumula US$ 50 milhões em arrecadação.

Vá sem medo. Se "O Artista" não reinventa a roda, ao mesmo tempo lembra que o cinema pode conquistar com seus elementos mais básicos. Não é exatamente genial, o que demonstra que a Academia pode premiá-lo por aquela que talvez seja a sua maior característica: a coragem.

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