"Faço filmes como um estudante", afirma Coppola

Em São Paulo para promover "Tetro", cineasta se diz livre para experimentar

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Agnews
Francis Ford Coppola durante coletiva de imprensa em São Paulo, na tarde desta quarta-feira
Aos 71 anos, Francis Ford Coppola parece aliviado. O diretor da trilogia "O Poderoso Chefão" e de "Apocalypse Now", só para citar duas pérolas sagradas do cinema mundial, está de bem com a vida e livre para fazer o que quiser. No Brasil para promover seu último filme, o independente "Tetro", com estreia prevista para o próximo dia 10, o cineasta norte-americano se mostrou à vontade numa conversa com a imprensa na tarde de hoje, em São Paulo. Se no início disse estar "sonolento", na sequência ignorou apelos dos assessores e continuou respondendo a perguntas dos jornalistas. Longe da indústria hollywoodiana, produz seus projetos com dinheiro do próprio bolso, sem qualquer compromisso com os grandes estúdios. "Tomei a decisão de fazer filmes como se fosse um estudante", garantiu.

Isso significa, de forma direta, que Coppola não se importa mais com bilheteria ou crítica: quer coisas diferentes. Segundo ele, desde que o cinema se tornou um negócio o espaço para experimentações diminuiu cada vez mais, pois o lucro passou a ser o objetivo final. Para o diretor, erros dão origem a novas ideias, mas a indústria não gosta de se arriscar. Essas preocupações, porém, não o incomodam mais. "Fui muito bem-sucedido quando jovem. Mesmo com pouco tempo, sempre procurei trabalhar em roteiros de projetos menores. Por isso, hoje estou tendo uma carreira de iniciante, graças à indústria do vinho, que permite financiá-la."

Isso mesmo, vinho. Coppola é dono de vinícolas na Califórnia e detém ainda uma marca de massas e molhos. O empreendimento permite que ele mesmo possa financiar seus longas, todos de baixo orçamento, rápidos e com equipe pequena. As dores de cabeça e cobrança, tão comuns no mundo do cinema, terminaram. "É um sonho poder acordar de manhã com vontade de fazer um filme sobre isso ou aquilo e conseguir", explicou. "Não faço filmes para ser famoso nem por dinheiro. Faço para aprender sobre cinema e sobre mim mesmo. Com a idade, descobri que um dos maiores prazeres da vida é aprender. Se você come muito, fica gordo. Se corre atrás de belas garotas, deixa sua mulher furiosa. Aprender é não só uma alegria, mas faz bem para você."

Coppola mergulhou em projetos pessoais. Veio a Buenos Aires porque queria viajar a algum lugar da América Latina. "Cortázar, Bolaño, Vargas Llosa, Jorge Amado... A grande literatura do século é da América Latina. Pensei que se viesse para cá, o talento dessas pessoas de alguma forma pudesse me influenciar", explicou. Saiu da Argentina com o roteiro de "Tetro", a história dramática de um garoto que vai atrás do irmão, um escritor frustrado, na capital portenha. O tom exagerado e operístico que o filme às vezes adota não é gratuito. "O cinema é filho do teatro e, antes disso, da ópera, com seus cenários grandiosos, dança. Strauss e Mahler, por exemplo, eram mais ou menos cineastas."

O drama de "Tetro", que envolve ainda opressão paterna e competição entre irmãos, ajudou que o diretor refletisse sobre sua própria família. "As famílias têm problemas e às vezes não conseguimos entendê-los. Eu, por exemplo, tenho um irmão cinco anos mais velho e sempre quis ser como ele. O filme talvez me explicasse isso, já que aprendemos tanto sobre o tema que trabalhamos ou sobre nós mesmos." Coppola elogiou o trabalho da filha, Sofia ("Encontros e Desencontros" e do inédito "Um Lugar Qualquer", ganhador do Leão de Ouro em Veneza) e falou da origem de um dos momentos impactantes de "Tetro", quando o pai fala para o filho que "só há lugar para um gênio" na família. "A frase não foi dita por mim nem para mim, embora seja muito dolorosa."

O diretor fez pouco caso do 3D como futuro do cinema e falou de seu próximo projeto, "Twixt Now and Sunrise", o terceiro independente, depois de "Velha Juventude" e "Tetro", concluído há poucos dias. O filme é estrelado por Val Kilmer, que, assim como Vincent Gallo, estrela de "Tetro", tem fama de difícil. Ele negou qualquer incidente com os dois e garantiu nunca ter tido problemas com elenco. "Quando o ator tem má reputação, não importa se por drogas ou bebida, a razão por trás disso é uma só: medo. Se ele se sentir apoiado pelo diretor, o trabalho vira um prazer."

Assista ao trailer de "Tetro":

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