Entrevista: Guel Arraes

Diretor fala sobre a adaptação aos cinemas de "O Bem Amado", sucesso na TV nos anos 70

Valmir Moratelli, enviado especial a Olinda (PE) |

Divulgação
Guel Arraes no palco do Cine PE, o festival de cinema de Pernambuco
Ele não gosta de dar entrevistas, é arredio, evita até conversar por celular. Guel Arraes é, sim, uma pessoa difícil. Mas a dificuldade em convencê-lo a um papo acaba quando se está diante dele. Logo abre um sorriso, fala pausadamente, com calma, como que pensando em cada palavra que vai captando de sua mente.

Aos 46 anos, Guel Arraes é um dos responsáveis por atrair às salas dos cinemas um grande público disposto a ver uma produção nacional. Na televisão, inovou com a linguagem de humor ao dirigir “Armação Ilimitada”, de 1986, e “TV Pirata”, dois anos depois. No cinema, tem filmes que ultrapassam facilmente a marca do milhão de expectadores, como “O Auto da Compadecida” (2000), “Lisbela e o Prisioneiro” (2003), “Os Normais – o Filme” (2003) e “O Coronel e o Lobisomen” (2005). Agora, Guel se prepara para lançar o seu mais caro filme já feito. Ao custo de 8 milhões de reais, altas cifras para padrões nacionais, estreia “O Bem Amado” no dia 23 de julho.

Filho do ex-governador pernambucano Miguel Arraes, Guel é o diretor do longa baseado na peça de Dias Gomes – já adaptada para televisão e teatro, escrita originalmente em 1962. A saga do prefeito da cidade de Sucupira, o lendário Odorico Paraguaçu, interpretado agora por Marco Nanini, tende a uma sátira política. Pode-se falar que é uma rara exceção na safra de filmes nacionais que ganham repercussão, seja de crítica seja de público. Para ele, as comparações entre diferentes versões de uma mesma história são limitadas. “Quando o texto foi escrito, Odorico já era um personagem arcaico. Os coronéis tiveram seu auge nos anos 30. Hoje então podemos dizer que ele é o arcaico do arcaico. Muita coisa mudou”, diz.

Conhecedor da política
“O meu conhecimento sobre política é apenas como observador, até mesmo pela minha origem de família de políticos. Quando a novela esteve no ar, na TV, os principais personagens políticos do país eram os militares. E eles nem eram citados por Dias Gomes, nem poderia fazê-lo. Os tempos são outros agora”.

Comparação TV x cinema
“Não tive esta preocupação com a versão original. Na verdade, quando me criticam dizendo que faço televisão no cinema, nem ligo. Podem continuar falando (risos). Falam que faço TV como se fosse um xingamento. Pois fiz em TV algumas coisas até mais ousadas do que no cinema. O programa ‘Cena Aberta’, de 2003, era tão experimental, que eu me perguntava como é que me deixavam fazer aquele programa. Assim como ousamos ao fazer ‘Lisbela e o Prisioneiro’, com uma proposta para ser mesmo um filme popular”

Coronelismo arcaico
“Quando foi escrito, em 1962, Odorico já era um personagem arcaico. Os coronéis tiveram seu auge nos anos 30. Hoje então podemos dizer que ele é o arcaico do arcaico. Muita coisa mudou. A esquerda já chegou ao poder, não é mais aquela utopia insólita que se faz de coitadinha. Está na roda, para ser discutida e criticada também.”

Desafio
“O grande desafio foi fazer uma sátira política. Não há filmes no país sobre a sátira do poder. Precisava responder a esta gozação que se faz aos políticos. Jornal só traz o lado do drama, eu queria um outro tipo de reflexão, a partir da comédia. É uma comédia com reflexão sociológica.”

Personagem atemporal
“Personagem bom tem releitura em diferentes épocas. São ricos porque apresentam elementos que o assemelham a diversos aspectos. Quero, com ele (Odorico Paraguaçu), poder criticar tanto a esquerda quanto a direita, sem ter uma mensagem unilateral.”

De volta à TV
“Já existe um acordo com a TV Globo, para exibir o filme em forma de microssérie, em quatro capítulos, ainda sem data prevista, muito provavelmente no ano que vem. Faremos agora o caminho de retorno, de volta à televisão.”

* O repórter viajou a convite da organização do Festival.

    Leia tudo sobre: festivalolindaguel arraeso bem amado

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG