Em "Transeunte", Eryk Rocha experimenta linguagem

Filme se vale do som para retratar a jornada de um homem solitário no Rio de Janeiro

Reuters |

Em sua primeira ficção, "Transeunte", o cineasta Eryk Rocha faz de um delicado trabalho de som, combinado com a atuação contida do protagonista, Fernando Bezerra, e o despojamento narrativo, um filme que merece ser descoberto.

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O ator Fernando Bezerra é Expedito, personagem principal do filme experimental "Transeunte", de Eryk Rocha
Expedito (Bezerra) é uma figura solitária cuja vida grita silenciosamente no desespero de não ser vivida em vão. Ele acaba de se aposentar e perdeu a mãe, com quem sempre viveu. Solteiro e sem filhos, é na sobrinha (Bia Morelli), que o visita no aniversário, que ele tem o único vínculo com outra pessoa. Aqueles que cruzam seu caminho são apenas isso: desconhecidos.

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A jornada do homem solitário no filme, roteirizado por Eryk e Manuela Dias, é um périplo que se fecha onde começou. Às vezes, o que importa não é onde se chega, mas a jornada em si. E esse é o caso de "Transeunte", no qual o protagonista muda um pouco a cada novo contato aleatório em seu caminho: uma mãe que leva o filho para comer num bar ou uma pessoa que canta numa roda de samba.

De todos eles, um parece ressoar mais forte no personagem: um casal que discute por conta da mãe do rapaz, cuja briga termina com ela dizendo "você deveria ter se casado com sua mãe".

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Durante a jornada de "Transeunte", o protagonista muda um pouco a cada novo contato aleatório
A câmera de Eryk capta com sensibilidade essa vida tão interiorizada para a qual qualquer contato com o mundo exterior pode significar uma ruptura. São descobertas - muitas delas tardias - que representam para o personagem as possibilidades daquilo que ainda está por vir.

Não há uma sensação de desperdício, nem da busca do tempo perdido. O que Expedito transmite é a urgência - mas, de certa forma, nada muito apressado - de viver o seu tempo. Aos poucos, o personagem parece se encontrar no mundo, criando uma nova rotina, estabelecendo seu novo caminho - sem a mãe e sem seu emprego.

A fotografia, assinada por Miguel Vassy, é em preto e branco, o que transforma a história de Expedito em atemporal. O centro do Rio de Janeiro e seus transeuntes - dentre os quais o personagem é mais um - é um personagem central. Mas o longa passa longe do Rio cartão postal. A cidade que aqui vemos é aquela quase esquecida. Um lugar é especial para o filme, um bar próximo à Praça Tiradentes.

Já o desenho de som, de Edson Secco, é uma força invisível e, ainda assim, muito presente no filme. Tal qual o espanhol "Na Cidade de Silvia", o som representa mais do que o ruído, é a materialização dos pensamentos, desejos e anseios. É a forma de expressão mais pungente dos personagens centrais ou meros transeuntes, cujo ruído dos passos é a marca mais forte que fica. Assim, "Transeunte" é um filme que se vale do som para lidar com as possibilidades da linguagem cinematográfica.

O longa recebeu três troféus no Festival de Brasília de 2010 : prêmio da crítica, ator e som.

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