Em seu primeiro filme europeu, Kiarostami surpreende com sutileza

Diretor iraniano rodou "Cópia Fiel" na Itália, com Juliette Binoche como protagonista

Ricardo Calil, colunista do iG |

Divulgação
Juliette Binoche em "Cópia Fiel"; trabalho da atriz foi reconhecido no Festival de Cannes
Em uma visita à Toscana para lançar seu novo livro, no qual defende a importância das cópias de grandes obras de arte, o escritor inglês James (William Shimmel) é ciceroneado pela francesa Elle (Juliette Binoche), dona de uma galeria de arte. Ela o leva em um passeio de carro para conhecer a região e começa a questioná-lo sobre os conceitos do livro, enquanto nasce um clima de sedução entre os dois.

Com esse ponto de partida, ninguém poderia dizer que “Cópia Fiel” é um filme de Abbas Kiarostami, o mestre iraniano de longas como “Close-up” (1990) e “Através das Oliveiras” (1994). Primeiro, pelos motivos óbvios: em vez do Irã, há a Itália como locação; no lugar de atores amadores, estrelas como Binoche e Shimmel (mais conhecido como cantor de ópera); o idioma farsi substituído pelo inglês, francês e italiano. Mas a mudança essencial está no tom naturalista das interpretações, no realismo da narrativa – o que contrasta com a obra anterior de Kiarostami, baseada na tensão permanente entre o real e o encenado.

A princípio, parece que o cineasta está brincando – nesta sua primeira grande produção fora do Irã – de fazer uma espécie de comédia romântica madura, uma versão intelectualizada de “Antes do Amanhecer” (1995), o simpático filme de Richard Linklater sobre a fugaz paixão entre um turista americano e uma francesa numa viagem pela Europa. Mas é apenas uma impressão passageira deixada por “Cópia Fiel”. No fundo, Kiarostami permanece fiel a si mesmo, às obsessões centrais de sua obra.

A partir da metade da projeção, “Cópia Fiel” começa a tomar um rumo inesperado, mas de forma suave, quase imperceptível. A proprietária de um café acredita que James e Elle formam um velho casal – e, daí em diante, os dois passam a se comportar como se fossem realmente um. Ali Kiarostami planta no espectador a semente da dúvida: seriam eles desconhecidos que começam a interpretar um casal ou seriam eles um casal que no começo do filme fingiam ser desconhecidos? É claro que essa pergunta está colada nos questionamentos estéticos do livro de James e nas conversas entre o escritor e a galerista: uma cópia fiel de uma grande obra de arte é menos “autêntica” do que o original, que por sua vez “imita” a realidade?

Em “Cópia Fiel”, e em toda a sua obra anterior, Kiarostami responde: não há uma só resposta. Ou antes, cada pessoa terá a sua. Porque uma obra de arte – e, no fundo, a realidade – é sempre filtrada pela subjetividade de quem a observa – ou a vive. Assim como um filme de Kiarostami só se completa com o olhar do espectador.

Quando parecia que o cineasta iraniano iria nos entregar uma comédia romântica inofensiva, ele nos oferece mais um filme absolutamente moderno, um caleidoscópio apontado para a realidade com dezenas de cores, texturas, nuances. Mas, e aí mora a beleza do filme, ele nunca chama atenção para a “profundidade” de seus temas, nem para a discreta precisão de seu estilo. Longe da sua terra, longe da sua língua, o mestre continua em plena forma. E é justo reconhecer que desta vez ele é ajudado por uma atriz – sim, madame Binoche – em estado de graça.

Assista ao trailer de "Cópia Fiel":

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