Em novo filme, Júlio Bressane se aproxima de história pessoal

"Rua Aperana 52", mais recente trabalho do diretor, tem estreia mundial no Festival de Roterdã

Valor Online |

Divulgação
O cineasta Julio Bressane
O carioca Júlio Bressane passou a vida inteira fazendo filmes sobre fatos e personagens de inspiração histórica ou literária - sempre acrescentando experiências de linguagem ao longo do caminho. Uma trajetória, portanto, dedicada a recriar e reinterpretar mundos alheios, exteriores à sua própria existência.

Com "Rua Aperana 52", o mais recente longa-metragem do diretor, que fará sua estreia mundial no 41º Festival de Roterdã (25 de janeiro a 5 de fevereiro), pela primeira vez o autor de "Sermões - A História de Antônio Vieira" (1989) se aproxima de sua história pessoal.

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A partir de fotos e filmes caseiros, realizados entre 1905 e 2009, o filme refaz o percurso sentimental e geográfico de uma casa que durante décadas esteve associada à família do realizador. "É um filme de invenção da paisagem", resume Bressane, de Paris, onde passa uma temporada.

O título refere-se a uma esquina do Leblon, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, onde a propriedade, a primeira da rua, fora erguida, entre 1912 e 1914. O nome Aperana foi herdado dos índios pré-coloniais que viviam na região. Significa "caminho errado", expressão usada para designar a trilha aberta ao pé do morro Dois Irmãos que levava ao topo da formação, onde havia fontes de água, frutas e animais.

A ocupação do bairro, intensificada ao longo do século 20, transformou não só o endereço como a paisagem a sua volta. Fotos do álbum de família e filmes caseiros feitos por Bressane ainda jovem, com a câmera de 16mm presenteada pela mãe, no final dos anos 50, fornecem elementos para refletir sobre essa mutação topográfica.

Em Roterdã, o filme de Bressane será exibido dentro da mostra Spectrum, dedicada a trabalhos de mestres do cinema experimental. "Em se tratando da construção, esse filme não tem nada de autobiográfico", adverte o diretor de 65 anos.

"Claro que existem sentimentos, sensações e paixões impregnados em todas as fotos usadas em 'Rua Aperana 52', mas o mais importante é o exercício de montagem feito com eles, com o qual eu trabalhei a ideia da construção da paisagem. Nas fotos, o elemento humano às vezes é o menos essencial. Nelas, você sempre vê, em segundo plano, ou à distância, ou até mesmo no centro da imagem, a construção de um mundo ao pé da montanha. O padre Antônio Vieira já dizia que as pedras costumam falar e responder. É isso que acontece no meu filme, a paisagem fala e responde alguma coisa", elabora Bressane, que esta semana irá à Itália acompanhar uma retrospectiva de seus 25 filmes, a serem exibidos pela RAI, a rede de televisão estatal.

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