Em "Febre do Rato", diretor Cláudio Assis enfoca poesia e sexo

Espírito libertário contamina do início ao fim o longa-metragem, filmado em preto-e-branco por Walter Carvalho

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

A competição de longas-metragens de ficção do Paulínia Festival de Cinema 2011, na noite de quarta-feira (13), terminou brilhando mais do que nunca. Contaminado pelo espírito poético e arrebatador de "Febre do Rato", o diretor pernambucano Cláudio Assis convidou a equipe do filme a se deixar levar pela "dança do cinema" no palco do Theatro Municipal. Um ou outro até ensaiou alguns passos, mas Assis não sossegou. Emocionado, agradeceu a todos e foi, um a um, distribuindo beijos na boca. Sobrou até para os apresentadores Marina Person e Rubens Ewald Filho. A plateia veio abaixo.

Divulgação
Irandhyr Santos, o Poeta de "Febre do Rato"
Pouco antes, o diretor havia defendido um "cinema sem concessões". "Febre do Rato" leva essa ideia à risca. Se em seus dois filmes anteriores, "Baixio das Bestas" (2006) e "Amarelo Manga" (2002), Cláudio Assis tinha provocado impacto pelo que se chamou até de espetáculo do grotesco, agora a arte e a liberdade total são os regentes. Saem a violência gratuita e os conflitos, entram a força da poesia, da paixão e do sexo.

"Quero que me julguem por minha arte", defende Cláudio Assis em entrevista

Inspirado em Zizo, famoso no circuito underground de Recife, Irandhyr Santos ( "Tropa de Elite 2" , “Viajo porque preciso, volto porque te amo” , "Quincas Berro D'água" , "Olhos Azuis" ) encarna o Poeta, anarquista e agitador cultural. Ele edita o jornal "Febre do Rato", um tipo de fanzine que casa poesias e colagens, desenhos, tudo feito manualmente – a tal febre é uma gíria para loucura.

Zizo parece em transe pelos versos que escreve e declama, seja para os amigos, seja nas ruas da cidade, por onde passeia, agarrado ao microfone, no teto de um carro velho equipado com caixas de som. "Sou fornecedor de sonhos, disseminador de cores", grita. Mais do que um personagem, o Poeta serve como uma ideia ambulante, um planfleto de intenções perdido no tempo.

Ele funciona como porta-voz de uma pequena família de desajustados na periferia, as vizinhas bêbadas em busca de uma transa, um coveiro (Matheus Nachtergaele) casado com um travesti (Tânia Granussi), um traficante (Juliano Cazarré) que vive com três amigos (Mariana Nunes, o pianista Vitor Araújo e Hugo Gila) numa fábrica abandonada. Levam uma vida sem limites, movida a álcool, drogas e sexo despudorado. "A minha alma é exagerada", conta o Poeta. Ele se transforma quando conhece Eneida (Nanda Costa), numa relação conflituada de inspiração e desejo.

Divulgação/Agência Foto
O diretor Cláudio Assis faz fila e beija a atriz Maria Gladys em Paulínia
Visceral, "Febre do Rato" fica mais intenso pelo modo como Assis dirige as cenas. Em geral, a opção é por longos planos-sequência, filmados com câmera na mão ou por uma visão aérea, de cima para baixo, marca registrada do diretor desde o curta "Texas Hotel" (1999). Sem cortes, os diálogos deliciosos do roteirista Hilton Lacerda, com ajuda de Xico Sá, e os versos do Poeta ficam ainda mais potentes, verdadeiros. A fotografia em preto-e-branco esplendorosa de Walter Carvalho só torna o filme uma experiência sensorial completa.

"Febre do Rato", portanto, se sente. É um cinema sem meias palavras, ligado no 220, muito, muito corajoso. Em determinado momento, o Poeta lidera um grupo de entusiastas nus da poesia em frente à Assembleia Legislativa, no Dia da Independência. Em outro, Eneida urina em cena, com uma festa de São João fervendo no fundo do quadro. O elenco se entrega não a uma história, mas a um sentimento libertário, anárquico, dionisíaco.

A descrição parece pouco palpável e, em certa medida, se assemelha ao que Júlio Bressane tenta fazer desde o Cinema Marginal, no início da década de 1970 – que tinha, aliás, a atriz Maria Gladys, presente no filme, como um de seus expoentes, ao lado de Helena Ignez. Mas mesmo com as altas doses de poesia visual, em "Febre do Rato" a comunicação com o público é mais direta, vibrante.

Isso porque Assis, focando no cotidiano, busca apagar as fronteiras entre tesão e arte. Para ele, é tudo a mesma coisa, emoções que dialogam, aparentadas. Em defesa disso, não se esconde atrás de nada e os personagens se alimentam disso, desnudos em frente às câmeras. "Febre do Rato" serve como uma celebração, tão extrema que pode até parecer agressiva. Não é. Resta aceitar ou declinar o convite.

* O repórter viajou a convite do festival

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