Em "Bróder", violência e miséria não definem os personagens

Filme questiona como construir uma ética nas relações pessoais que sobreviva às adversidades materiais

Ricardo Calil, colunista do iG |

Divulgação
Jonathan Haagensen e Sílvio Guindade, em cena de "Bróder"
Nunca fiz a estatística. Mas, como responsável por um blog de cinema há mais de cinco anos ( Olha Só, aqui no iG ), posso afirmar com relativa segurança que a queixa mais frequente dos leitores poderia ser resumida à seguinte pergunta: “Por que os filmes brasileiros precisam mostrar tanta violência e miséria?”.

Bem ou mal formulada, com ou sem sentido, a questão se cristalizou no imaginário dos espectadores - da mesma forma que no auge da pornochanchada se associavam filmes brasileiros com sacanagem, pouca vergonha.

Dentro da chamada fase de “retomada” do cinema nacional, o momento que sedimentou essa questão foi o começo da década passada, graças principalmente a dois fenômenos cinematográficos: “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles, e “Carandiru” (2003), de Hector Babenco. Independentemente de suas muitas virtudes, eram dois filmes em que as palavras “violência” e “miséria” surgem mesmo como um binômio, impossíveis de serem dissociadas.

Várias produções que vieram a seguir reforçavam na cabeça dos espectadores essa imagem chapada do cinema brasileiro, mesmo que tivessem outras nuances sobre a questão. Até o primeiro “Tropa de Elite” (2007) - um filme que mostrava a violência pelo olhar de um policial e que apontava o dedo tanto para criminosos favelados quanto consumidores de drogas de classe média - acabou entrando nesse pacote genérico.

Mas, de um ano para cá, me parece que existe uma tentativa de dissociar as palavras “violência” e “miséria”, de romper com a tentativa de glamourização da violência ou de criminalização da miséria. E, nesse sentido, como na década passada, dois filmes se destacam sobre os outros, por suas propostas: “5 X Favela – Agora por Nós Mesmos”, de um coletivo de realizadores do Rio de Janeiro, e “Bróder”, de Jefferson De, que acaba de estrear nacionalmente .

Ao retratarem respectivamente a favela carioca e a periferia paulistana, nenhum deles pode ser acusado de varrer a violência para debaixo do tapete. Ela está presente de forma direta ou indireta nos dois filmes. Mas nunca define os personagens. A violência é apenas um dado entre muitos para compor as relações entre as pessoas nesses universos. E essa é evidentemente uma afirmação política dos diretores de “5 X Favela - Agora por Nós Mesmos” e “Bróder”.

Neste último, a palavra fundamental não é miséria, e sim ética. Ou mais especificamente: como construir uma ética nas relações pessoais que sobreviva às adversidades materiais, aos desarranjos afetivos, aos chamados da violência? É essa a questão que se coloca aos três amigos de infância que se reencontram: Macu (Caio Blat), aquele que ficou no Capão Redondo e se aproximou do crime; Jaiminho (Jonathan Haagensen), que virou jogador de futebol de sucesso; e Pibe (Silvio Guindane), o trabalhador que não consegue sustentar a família. Quando a violência eclode na bela sequência final, ela surge não como catarse, mas como a afirmação definitiva (e mais uma vez política) de uma ética da amizade.

Não deve ser coincidência o fato de que tanto “5 X Favela” quanto “Bróder” tragam um olhar “de dentro” para os universos que retratam. O primeiro foi feito por jovens diretores da favela do Vidigal, e seu subtítulo (“Agora por Nós Mesmos”) marca essa diferença em relação ao “5 X Favela” original, de 1961, feito por cinemanovistas de classe média. Já “Broder” foi dirigido por um cineasta negro que nasceu no Taubaté, zona leste de São Paulo, e estudou na USP, mas que conhece o mundo do preconceito literalmente na pele.

Infelizmente, por questões de mercado, “5 X Favela - Agora por Nós Mesmos” e “Bróder” não terão chance de causar o mesmo impacto que “Cidade de Deus” e “Carandiru”. Mas a semente está plantada. Se o Brasil realmente mudou nos últimos dez anos, se houve realmente o surgimento de uma nova classe média saída da pobreza, é natural que nosso cinema também mude, que cineastas com outra formação cresçam e apareçam.

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