Em Brasília, "Transeuntes" compensa lentidão com beleza

Estreia de Eryk Rocha na ficção segue idoso pelo Rio; curta sobre Angeli é bem recebido

Marco Tomazzoni, enviado a Brasília |

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"Transeunte": uma vida vazia no Rio
Exibido na noite de quinta-feira na competição do 43º Festival de Brasília, “Transeuntes”, de Eryk Rocha, continua a saga do filho de Glauber pelo cinema de autor, para o bem e para o mal, como já havia deixado claro em seus três documentários (“Rocha que Voa”, “Intervalo Clandestino”, “Pachamama” ). Ele traz um olhar muito próprio, em preto e branco, para Expedito (Fernando Bezerra), aposentado de 65 anos, viúvo, sem filhos. Basicamente, Expedito vagueia sem rumo pela ruas do Rio de Janeiro, acompanhado por um radinho de pilha.

Consulta médicos, vai em bares, espia obras da janela do prédio, torce pelo Mengão, ouve fragmentos de conversas. Ele só observa, como seus olhos em primeiro plano tratam de explicar desde cedo. O espectador vai junto nessa vida lenta, vazia, quase sem sentido. Nessa mesma velocidade, Expedito – em um belo trabalho de Bezerra, aposta para o prêmio de melhor ator – encontra gosto nas pequenas coisas e segue rumo à redenção.

Produzido por Walter Salles e sua Videofilmes, “Transeuntes” exige bastante paciência, talvez até demais. Realista, quase documental, a câmera é generosa, tem curiosidade e fascinação pelo mundo a sua volta, mergulhado na cultura popular, mas parece preocupada demais com estilo e se revela letárgica. Quem não está preparado para esse ritmo ou desiste (os corredores do cinema, cheios de gente sentada no chão, rapidinho ficaram vazios) ou dorme (era só olhar para os lados e ver a quantidade de gente ressonando nas poltronas). 

A grande trilha sonora e música de Fernando Catatau, líder da banda Cidadão Instigado, ajudam a manter a cabeça erguida e a beleza do conjunto, ao chegar no final, compensa. Difícil é aguentar até lá. O público, educado e antenado, aplaudiu em quantidade.

Quem roubou os holofotes da segunda noite de competição foi o curta documental “Angeli 24 Horas”, de Beth Formaggini. Através de entrevistas e tiras do cartunista, se descobre a obsessão e tensão que Angeli sofre diariamente, em cima da prancheta, para fugir do óbvio e radicalizar cada vez mais seu trabalho.

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"Angeli 24 Horas": cartunista narra luta para fugir do óbvio no dia-a-dia

Foi por isso, garante, que ele aposentou figuras queridas pelo público, como os Skrotinhos e Rê Bordosa. Escrúpulos e cobrança própria, que também o impediram, ao contrário do que aconselhou o amigo Mauricio de Sousa, de lançar bonecos dos personagens. “Não ia me sentir bem. Só se a gente apertasse a Rê Bordosa e ela vomitasse vodca”, sugeriu.

Auxiliado por projeções na parede, em uma bela solução visual, Angeli explica tiras, fala de suas influências (mais músicos do que artistas), enaltece Laerte (“olhando ele trabalhar, aprendi a entortar o final de uma história”) e da satisfação de um trabalho bem feito (“às vezes em um pequeno traço e uma palavra, você consegue fazer alguém pensar”). A engajada plateia do festival, que lota o Cine Brasília todas as noites, aplaudiu com força.

* O repórter viajou a convite do festival

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