Eduardo Coutinho capta o poder emotivo da música em "As Canções"

Em documenário, pessoas dão depoimentos sobre músicas que foram importantes em suas vidas

Valor Online |

Divulgação
Cena do documentário "As Canções"
"Alguma música já marcou sua vida? Cante e conte sua história". Durante dois meses, a equipe do cineasta Eduardo Coutinho percorreu as ruas do Rio de Janeiro com um cartaz fazendo a convocação. Foi quase uma peneira de futebol: 237 pessoas passaram por uma entrevista, das quais 42 tiveram o depoimento gravado. Ao final, apenas 18 pessoas, entre 22 e 82 anos, foram escolhidas. O resultado está no filme "As Canções", que estreia nos cinemas na sexta (dia 9).

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Poderia ser mais um desses shows de calouros que existem aos montes na televisão. Mas, mesmo quem não está habituado às obras de Coutinho, percebe que a intenção é outra. Como em "Jogo de Cena" (2007), os participantes dão seus depoimentos, em que respondem à convocação do cartaz, em um palco, sentados, sem firulas. E é dessa maneira que eles cantam, sem acompanhamento musical. Músicas com Roberto Carlos ("Não se Esqueça de Mim", "Olha") são recorrentes.

Nas histórias de vida, canções surgem como trilha sonora de momentos trágicos, determinantes, em que os tropeços do amor estão presentes de uma forma ou outra. Para uma das entrevistadas, "Retrato em Branco e Preto" (Tom Jobim/Chico Buarque), dos versos "Já conheço os passos dessa estrada/Sei que não vai dar em nada", é a música que definiu desde o começo sua relação de décadas com um parceiro.

A premissa de "As Canções" é das mais simples possíveis - o próprio trailer brinca: "Breve num chuveiro perto de você". Produção após produção, Coutinho vai despindo seu cinema de artifícios, como se buscasse o essencial das coisas. Desde "Cabra Marcado para Morrer" (1984), obra que o consagrou e é um dos marcos da abertura política no Brasil, o diretor, atualmente com 78 anos, tem ajudado a alargar e redefinir os conceitos de documentário e ficção.

"As Canções" é o caminho natural de uma busca artística que tenta entender a memória e passagem do tempo, com seus reflexos, nos entrevistados. Mais do que indivíduos que dão depoimentos, Coutinho registra a própria vida em si. O procedimento se repete neste novo filme. Em vez de ilustrar os depoimentos com imagens, a câmera nunca se desvia dos personagens - as imagens do que está sendo dito surgem na cabeça do espectador.

George Magaraia
Eduardo Coutinho
As elipses de anos ou décadas de histórias individuais são ditadas mais pelo entrevistado do que pela edição do diretor. São pequenos balanços de vida, existências resumidas em minutos, reinterpretações. Música, por si só e qualquer que seja, é uma espécie de marcador. Possui esse poder nato de trazer imediatamente à mente um momento específico. Serve como trilha sonora da vida. Tem um apelo coletivo, mas seus significados são extremamente individuais. Para cada receptor de uma mesma música, uma memória afetiva específica.

No filme, um jovem canta uma música que compôs como espécie de pedido de desculpas para o pai, morto em um acidente. Em outro depoimento, uma mulher viúva relembra como, durante décadas, uma música criada pelo marido ("Dó-ré-mi") era cantada diariamente. Com suas limitações, já que não são cantores profissionais, os entrevistados de "As Canções" se expõem. Ao escolher a música que mudou suas vidas, tocam nas próprias feridas e, não poucas vezes, choram.

Não é surpresa, portanto, a popularidade de Roberto Carlos - no filme e no imaginário brasileiro. A música popular é democrática. Apenas ela une rapidamente as mais diferentes classe sociais, das mais diferentes bagagens culturais. Todos entendem as mensagens coletivas e imediatas de canções, principalmente aquelas que versam sobre os extremos dos amores feridos ou da alegria. É a sensação de "aquele cantor entende o que eu estou passando".

Com "As Canções", Eduardo Coutinho cria um efeito que nem o mais sofisticado 3D é capaz de reproduzir: a música e seus efeitos psicológicos se materializam, tornando-se visíveis.

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