Dores & Amores é nova bomba em Paulínia

Comédia romântica abusa dos clichês e arruína coprodução com Portugal

Marco Tomazzoni |

Depois de As Doze Estrelas , o clima volta a pesar no Festival de Paulínia. Agora, no entanto, não é de comédia involuntária, e sim de desespero. Dores & Amores , produção luso-brasileira exibida na noite de ontem na competição de longas-metragens de ficção, pretendia ser uma comédia romântica, “um filme sobre o amor”, segundo o diretor Ricardo Pinto e Silva ( Querido Estranho ). O resultado, porém, é tão irregular, do elenco à concepção visual, que está mais para tragédia do que qualquer outra coisa.

Divulgação
Chiara Sasso em Dores & Amores
O roteiro começou a partir do livro Dores, Amores e Assemelhados , da talentosa escritora gaúcha Claudia Tajes, mas depois passou pelas mãos de Patrícia Muller – autora lusa de novelas e responsável pela adaptação do livro para o mercado português –, do próprio diretor e também do jornalista Dagomir Marquezi, que incorporou trechos da peça “Intervalos”, de sua autoria. Protagonista, a estrela de musicais Chiara Sasso chegou a dizer que as mudanças constantes chegaram a dificultar seu trabalho, o primeiro no cinema.

Júlia (Sasso) tem quase 30 anos, é diretora de uma agência de modelos e solteira há bastante tempo. Ela é apaixonada por Jonas (Márcio Kieling, péssimo), que não quer saber de compromisso e explora uma doceira portuguesa (Cláudia Vieira) com fetiche por lingeries. Os homens, aliás, não prestam: o elenco masculino em peso (Carlos Casagrande, Jorge Corrula e Kayky Brito, em seu segundo papel de pegador depois de Desenrola ) só quer saber de sexo, para desespero das pobres mulheres. Clichês não faltam, nem preconceitos – se você for angolano ou assessor de imprensa, melhor evitar.

A premissa machista permite uma reviravolta no final, tão abrupto quanto os relacionamentos de Júlia. A trama ainda é entrecortada pela novelinha exagerada “Vidas Sem Rumo”, originalmente da peça de Marquezi, sem muito sentido para o todo, e muitas, muitas vinhetas com visual kitsch para anunciar uma sequência após a outra.

Em conversa tensa com jornalistas, Pinto e Silva afirmou que a ideia era utilizar influências do mundo pop, da geração pós-MTV, e que, assim como em trechos da história, há um “segundo nível de significação”, subtramas e subcategorias que brincam com títulos de filmes e obras clássicas do cinema. Ninguém entendeu.

Tanto ele quanto o elenco se esconderam sob a bandeira da “despretensão”, de que a ideia era fazer entretenimento rasteiro, produto para a “Sessão da Tarde”, mas Dores & Amores é mal resolvido o suficiente para deixar as comédias padrão Globo Filmes com status de obra de arte. Talvez o longa-metragem até encontre certo público, alguém que não se importe com verossimilhança, bom gosto, merchandising e esteja disposto apenas a ver a doceira portuguesa de lingerie. Aí, é só colocar no “mute” e se divertir.

* o repórter viajou a convite do festival

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