O cineasta das relações humanas é alvo de documentário e, em entrevista ao iG, fala de suas convicções de vida, filosofia e, claro, sexo

Domingos Oliveira recebe o iG em sua casa, na zona sul do Rio
Selmy Yassuda
Domingos Oliveira recebe o iG em sua casa, na zona sul do Rio

Abre-se a porta e logo se vê uma cama confortável com oito almofadas coloridas no meio da sala. Há também dois sofás à frente de uma estante com etiquetas adesivas que separam “filmes ótimos” (“Nascida ontem”, "O resgate do soldado Ryan”, “Forest Gump”) de “filmes bons” (“Cantando na chuva”, “Ghost”, “Grande Hotel”). Não é naquela cama que Domingos Oliveira vai se sentar para esta entrevista. Mas na cadeira que, na parte de trás, se lê “autor, diretor, ator, poeta, cantor, homem do mundo”. Outras definições sobre sua pessoa viriam a aparecer mais adiante.

Ele surge de suspensórios, camisa branquíssima, sapatos sociais e de bengala em punho. Vem andando lentamente, com dificuldade. Cumprimenta com um sorriso no canto da boca. “Prazer, sou o Domingos. Pelo menos é o que dizem”, diz. A atriz Priscilla Rozembaum, com quem é casado há trinta anos, sai para algum compromisso. Domingos é analisado no documentário que leva seu nome , dirigido por Maria Ribeiro. Autor de dezenas de filmes e peças (“ Todo mundo tem problemas sexuais ”, “Carreiras”, “ Feminices ”...), Domingos se compara a Woody Allen. “Temos identidades parecidas, mas ele é muito mais rico que eu”, diz, jocoso, por vezes chamado de “cineasta das relações humanas”.

Os pensamentos e emoções, ainda que aos 75 anos, parecem de alguém que descobre a vida a cada dia. “Concordo com Freud. Os problemas e soluções estão no sexo. Penso direto em sexo”, afirma. Sua crítica é direcionada às comédias vistas como “neopornochanchada”. E à banalização do sexo, este assunto tão presente em suas obras. O que vem a seguir é uma entrevista que não tenta entender Domingos, mas que revela como este artista se propõe diante de tantos rótulos e definições. “Sou uma barata tonta que corre o tempo todo para todos os lados, atrás de dinheiro, da arte e de mulheres. Desesperadamente. Confusamente. Desbaratinadamente”, diz, mais uma vez, cheio de graça.

Domingos Oliveira, 75 anos
Selmy Yassuda
Domingos Oliveira, 75 anos

iG: A ideia de fazer um filme biográfico é para suprir a necessidade de perpetuar seus pensamentos?
DOMINGOS OLIVEIRA:
A ideia veio da Maria Ribeiro que, por razões dela, achou que sou uma pessoa que vale a pena ser ouvida e reconhecida. Não sei se ela está certa ou errada. Maria tem grande estima por mim, sem orgulho ou vaidade neste meu comentário.

iG: O senhor gosta de ser comparado a Woody Allen ?
DOMINGOS OLIVEIRA:
Acredito que seja isso. Sou o Woody Allen brasileiro. Temos identidades parecidas, mas ele é muito mais rico que eu. Imito ele sempre que posso.

iG: O senhor tem livros de memórias?
DOMINGOS OLIVEIRA:
Sou guardador, organizadíssimo a vida inteira. Tenho uns dezesseis anos de diários, escrevia cem páginas por ano. São diários transformados em agendas, não têm graça, são coisas para mim. Parei de fazer isso. É uma terapia barata e profunda, que recomendo a todos. Diário é coisa para se fazer quando se sente perdido de seus caminhos. Isso mostra quem você é realmente. 

iG: Após tanto escrever, o senhor consegue se autodefinir?
DOMINGOS OLIVEIRA:
Sou uma barata tonta que corre o tempo todo para todos os lados, atrás de dinheiro, da arte e de mulheres. Desesperadamente. Confusamente. Desbaratinadamente.

iG: É verdade que o senhor tem uma pasta chamada “legado” no seu PC?
DOMINGOS OLIVEIRA:
Existe esta pasta, sim. São projetos que não vou ter tempo de fazer em vida. Sempre me senti quinhentos anos atrasado, não paro de ter ideias, por mais que me esforce.

Domingos:
Selmy Yassuda
Domingos: "Sou uma barata tonta que corre o tempo todo para todos os lados"

iG: A idade, enfim, chegou?
DOMINGOS OLIVEIRA:
Com 74 anos você tem discussão, com 73 tem discussão. Com 75, não. Agora você não é mais uma criança, é um adulto de verdade. É um baque. Existe a crise dos 75. É provável que eu morra no ano que vem. Como é provável também que eu viva até os cem, o que pretendo fazer.

iG: Sobre o atual cinema nacional, quem se destaca?
DOMINGOS OLIVEIRA:
O herói do cinema brasileiro se chama Selton Mello. Com “O Palhaço” , cheio de idealismo, ele conseguiu provar que é possível chegar a um milhão de espectadores se fazendo filmes de arte. Quero carregar Selton nos braços em praças públicas. Os distribuidores não sabem disso, porque são homens de negócio. Mas é preciso ter filmes de arte para que se tenha também blockbusters.

Na sala, uma cama de casal compõe a decoração
Selmy Yassuda
Na sala, uma cama de casal compõe a decoração
iG: O senhor gosta das comédias, tendência das produções brasileiras em 2011 ?
DOMINGOS OLIVEIRA:
O que estão fazendo atualmente é puramente pornochanchada. São farsas de comédias sob o ponto de vista da pornografia. Não há nada que mobilize mais o ser humano que o sexo. Mal sexo ou bom sexo, o que move é o sexo. Estes são filmes que tentam dar ao público que ele quer. Me parece este um pecado grave. Você não pode dar ao povo o que ele quer, mas o que ele precisa. O povo não saber o que quer. É preciso indicar os caminhos.

iG: Um conselho para quem tem dinheiro para fazer um filme...
DOMINGOS OLIVEIRA:
Que não repita as mesmas piadas sem graça. “O Palhaço” comprova isso, o público quer outras opções de se fazer rir, de emocionar, outros caminhos para a vida.

iG: O cinema está erotizado?
DOMINGOS OLIVEIRA:
Não diria que há erotização, há brochação. É para o público se achar idiota. Na sociedade atual, principalmente entre os jovens, noto um enorme desprestígio do sexo. No meu tempo, o homem e a mulher iam para a cama e a terra tremia. Hoje você faz sexo e não se envolve, está tudo normal. Os filmes retratam isso. O amor tem menos prestígio.

iG: Falando de sexo, dá para se fazer um paralelo entre o Viagra, nos anos 2000, com a pílula anticoncepcional, na década 1970?
DOMINGOS OLIVEIRA:
O Viagra não se mostrou tão eficiente quanto à pílula, no sentido da liberdade. Começo a vislumbrar de longe que há uma hora que é bom se livrar desta força que é o sexo. Te sobra muito tempo de vida se você se livrar disso, deixa de ser escravo. Infelizmente não é o meu caso. Concordo com Freud. Os problemas e soluções estão no sexo. É a força preponderante que move a natureza. Penso direto em sexo.

iG: É mesmo?
DOMINGOS OLIVEIRA
: Como não posso fazer sexo o tempo inteiro, escrevo peças de teatro e roteiros para cinema. A libido não é só genital. É o desejo. Pode ser deslocado de uma coisa para outra. Estrear uma peça é sensação parecida com a de um gozo.

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