Documentário sobre Zé Celso une intimidade e carreira

Concebido como perfil, longa não separa o que se passa dentro e fora do palco

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Vida e arte se misturam. Como se pudessem ser, de fato, uma coisa só. Concebido como um perfil de José Celso Martinez Corrêa, o documentário "Evoé! Retrato de Um Antropófago" captura um percurso que não concebe separações entre o que se passa dentro e fora do palco. Dirigido por Tadeu Jungle e Elaine Cesar, o filme que chega às salas no dia 22 consumiu mais de quatro anos entre gravações e pesquisas. E elegeu o encenador do Teatro Oficina como narrador de sua própria história.

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José Celso Martinez Corrêa em foto de 2008
Nessa estrutura, o foco não recai sobre a intimidade ou a trajetória artística de Zé Celso. Mas sobre aquilo que poderia ser visto como um amálgama dessas duas categorias. Criado a partir da série "Iconoclássicos", organizada pelo Itaú Cultural, o filme não elenca datas nem oferece muitas informações sobre os outros personagens que fizeram parte dessa trajetória. "Optamos por uma estrutura fragmentária. Não citamos nomes, datas", observa Tadeu Jungle. Será assim que figuras como Pascoal da Conceição, Maria Alice Vergueiro, Bete Coelho e até mesmo Silvio Santos atravessam a tela de relance, sem merecer legendas ou explicações.

Condutor absoluto da câmera, Zé Celso oferece uma espécie de súmula de seu pensamento: costura política, cultura, religião, drogas, amor. Em meio a tudo isso, lança pistas de como se tornou quem é. "Durante muito tempo eu fui um chato, um oprimido", comenta. "Só vivia reclamando". Além de defender visões pouco ortodoxas sobre a história recente do País. "A revolução recente mais importante do Brasil não foi a guerrilha armada. Foi o desbunde."

Ao longo de décadas, Zé Celso acumulou um extenso acervo sobre si mesmo. Programas de TV, imagens de suas peças, gravações que ele fez de episódios corriqueiros, quase banais. "Desde 1983, ele tem uma câmera dentro de casa, registrando tudo", comenta Elaine Cesar. A esse material de arquivo somaram-se entrevistas realizadas em algumas locações estratégicas: a Grécia, o sertão da Bahia, a praia de Alagoas onde o Bispo Sardinha foi devorado, o bairro paulistano do Bexiga. São lugares que ajudam a desvendar uma intrincada personalidade, além de evocar referências marcantes na sua obra, caso de Oswald de Andrade, Euclides da Cunha e do deus Dionísio. "Além disso, quando você faz essas viagens, também se abre para o imprevisto", considera Jungle.

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Com Zé Celso, aliás, o imprevisível parece ser a regra. Em uma cena, gravada no mítico anfiteatro de Epidauro, ele demonstra sua incapacidade de seguir roteiros ou regras preestabelecidas. "Como não tínhamos autorização para gravar, o combinado é que ele apenas se deixasse filmar por uma câmera escondida", lembra Jungle. Zé Celso, porém, insiste em cantar. E acaba expulso do espaço por um segurança. Em outra passagem, dependura-se sobre um penhasco e recusa-se a sair de lá. "Eu sou louco, sou palhaço, sou livre", lembra o diretor do Oficina, aos 74 anos.

Tantas idiossincrasias ajudam a compor um retrato que escapa da reverência. Não é possível negar quão fascinantes podem ser algumas das ideias do protagonista. Nem tampouco compactuar com todas as suas posições. Fica evidente que o homem que defende o afeto pelo outro como valor máximo só faz aquilo que quer. "Ele não é irreverente, é consequente", considera Jungle.

As cenas nos fazem chegar mais perto desse homem que fez de si mesmo um personagem. De seu discurso escapam contradições, imperfeições. Lampejos de claridade e escuridão, afeição e truculência. "Durante a minha vida inteira, eu nunca fiz nada que eu não gostasse", declara Zé Celso. "E isso me deu muito trabalho."

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