Discurso antiguerra de filme israelense é destaque no Festival de Veneza

VENEZA ¿ O israelense Samuel Maoz surpreendeu no Festival de Cinema de Veneza com Lebanon, uma realista e impressionante história sobre a primeira guerra do Líbano baseada em suas próprias lembranças como soldado.

EFE |

Destaque da mostra competitiva do evento, "Lebanon" possui um discurso antibelicista com o qual Maoz tentou acabar de vez com os demônios criados por sua participação na guerra em 1982, quando tinha apenas 20 anos.

Quase 30 anos se passaram, e este foi o tempo que o cineasta demorou para poder enfrentar suas lembranças por meio do cinema.

"Precisava da distância para usar esses sentimentos, essas lembranças, como diretor", diz o israelense.

"No filme está parte de minha mais profunda e dolorosa memória", afirmou Maoz em entrevista coletiva na qual explicou que a história foi construída sobre suas lembranças, sem dar aos fatos uma exatidão histórica.

A história se passa no Líbano, mas poderia se desenvolver em qualquer conflito. Os protagonistas são um grupo de rapazes na casa dos 20 anos de idade e sem nenhuma experiência militar, aterrorizados pelo que estão vivendo e se perguntam a cada segundo o que fazem ali.

"Algo assim é impossível de entender", disse Maoz, ao argumentar que não se trata de ser a favor ou contra a guerra.

Para ele, devido a sua experiência, os sentimentos contra a guerra não aparecem quando se está em combate. "Você enfrenta a morte, e o que sai é o instinto de sobrevivência. Não há tempo para pensar se a guerra é certa ou não".

Um dos elementos mais originais do filme é o fato de que a história transcorre na maior parte do tempo dentro do tanque dividido pelos protagonistas. O exterior é visto através das frestas usadas para atirar ou ver o caminho a seguir.

"O conceito de que o filme se passasse dentro do tanque foi criado em minha mente com a intenção de usar minhas lembranças subjetivas, era uma forma de filtrar minhas lembranças", afirmou o diretor.

Segundo o cineasta, seu objetivo não era fazer com que o público entendesse seus sentimentos, mas os sentisse, entrando no tanque para se identificar com os personagens.

O filme atinge essa meta ao transmitir a angústia, o temor e a dor dos jovens. Além disso, a estupenda interpretação de todos os atores dá aos seus personagens um realismo próximo ao de um documentário.

Um deles, Michael Moshonov, declarou que todos trabalharam muito com o diretor para entender não só os personagens, mas a situação na qual se encontravam. Isso, segundo ele, fez com que todos se transformassem em um grupo muito unido, o que se refletiu na tela.

O resultado é uma magnífica interpretação coletiva com a qual Maoz construiu um relato claustrofóbico e aterrador, no qual a câmera e o tanque se transformam em personagens do filme.

"Lebanon" chega a Veneza um ano depois do sucesso de "Valsa com Bashir", um filme de animação israelense que, também baseado nas lembranças de seu diretor como soldado, narrava o horror do massacre de palestinos em Sabra e Shatila, no Líbano, também em 1982.

A mostra competitiva também exibiu hoje a produção francesa "36 Vues du Pic Saint Loup", do veterano Jacques Rivette, que conta a história do trauma de Kate (Jane Birkin) e a vida do circo de seu pai, ao qual ela se volta a integrar após 15 anos de ausência e depois da morte de seu criador.

Além disso, houve a exibição de "Ahasin Wetei" ("Entre Dois Mundos"), um filme do Sri Lanka no qual a mistura de realidade e sonho forma uma história dificilmente compreensível na qual as paisagens mostradas são o único ponto de interesse.

(Reportagem de Alicia García de Francisco)

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