Dez personagens marcantes dos faroestes

Uma lista com ícones de um gênero famoso por grandes papéis e interpretações

Ricardo Calil, colunista do iG |

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Cena do faroeste "Bravura Indômita": gênero é responsável por grandes papéis e interpretações
Com o papel do delegado federal Rooster Cogburn em “Bravura Indômita” , dos irmãos Coen, Jeff Bridges conseguiu uma proeza: sobreviveu à comparação com John Wayne, que havia feito o mesmo papel no filme original de 1969. Wayne, não custa lembrar, é o ator-símbolo do faroeste e ganhou seu único Oscar por esse trabalho.

Na verdade, Bridges fez mais que sobreviver: sua interpretação é mais rica e cheia de nuances que a de Wayne. Seu Rooster Cogburn poderia muito bem estar no panteão dos personagens mais marcantes da história do western. Gênero com regras bem estritas, o faroeste sempre foi, por outro lado, generoso em grandes papéis e interpretações, como você poderá ver na galeria abaixo.

Will Kane (Gary Cooper), em “Matar ou Morrer” (1952)

O delegado Will Kane é o protótipo do herói de faroeste: íntegro, destemido e rápido no gatilho. Qualidades que Cooper incorporou como poucos atores no cinema. Ainda que hesite a princípio, ele decide enfrentar o fora-da-lei Frank Miller e não desiste nem quando descobre que terá que abater uma gangue inteira sozinho. Dirigido por Fred Zinnemann, “Matar ou Morrer” é um faroeste psicológico clássico, mas com um plus moderno: a trama se passa em tempo real.

Vienna (Joan Crawford), em “Johnny Guitar” (1954)

O faroeste sempre foi baseado na rivalidade ou na camaradagem masculina. Por isso, sobrou pouco espaço para grandes personagens femininos no gênero. Um dos grandes destaques da galeria de outsiders criada pelo diretor Nicholas Ray, Vienna é uma bela exceção. Mais durona que o mais durão dos caubóis, ela é a dona de um saloon que enfrenta rancheiros que pretendem desapropriá-la para que uma ferrovia passe por seu terreno. “Eu nunca vi uma mulher que fosse tão homem. Ela pensa como um, age como um e às vezes me faz sentir como se eu mesmo não fosse”, diz um de seus empregados. Ainda assim, a Vienna não desiste de sua feminilidade. Que o diga Johnny Guitar, o ex-amante que nunca conseguiu esquecê-la.

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John Wayne em "Rastros de Ódio": por trás do herói um homem cheio de preconceitos, dilemas e obstinação
Ethan Edwards (John Wayne), em “Rastros de Ódio” (1956)

John Wayne poderia estar nesta lista com mais uma dezena de personagens, do Ringo Kid de “No Tempo das Diligências” (1939) ao Cole Thornton de “El Dorado” (1966). Mas, se fosse necessário escolher um único grande personagem de Wayne, teria que ser o Ethan Edwards de “Rastros de Ódio” - filme que marca não apenas o ápice da colaboração do ator com o diretor John Ford, como o do próprio faroeste. A princípio, Edwards parece um herói clássico do gênero: um corajoso veterano da Guerra Civil que vai atrás da sobrinha capturada por índios. Mas suas falhas – um certo racismo contra índios, uma queda pela mulher do irmão, uma obstinação que beira a mania – o tornam um personagem muito mais complexo. E inesquecível também.

Dude (Dean Martin), em “Onde Começa o Inferno” (1959)

John Wayne é o protagonista deste grande faroeste de Howard Hawks, mas quem rouba a cena é Dean Martin. Mais conhecido como escada para o comediante Jerry Lewis, ele se revela aqui um belo ator dramático no papel de um ex-pistoleiro bêbado e abandonado pela mulher. Ele vai se regenerar ajudando o xerife interpretado por Wayne a enfrentar um bando de pistoleiros que quer livrar um assassino da forca. Martin está perfeito como Dude, mas é preciso dizer que ele tinha conhecimento de causa, já que o uísque era seu esporte favorito na vida real.

Ransom Stoddard (James Stewart), em “O Homem que Matou o Facínora” (1962)

Este foi o faroeste que celebrizou a frase “Quando a lenda é mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda”. Ransom Stoddard (James Stewart) é o sujeito que se beneficia da lenda. Pacato advogado que não acredita na violência, ele é levado a desafiar o bandido Liberty Valence (Lee Marvin) para um duelo e recebe uma ajuda inesperada do caubói Tom Doniphon (John Wayne). Mestre do faroeste, o diretor John Ford usa essa história para lembrar que o Oeste não é apenas um local e uma ideia, mas também um mito americano cuidadosamente construído. Os três atores principais estão brilhantes, mas Stewart tem o personagem com mais nuances e mais tempo na tela – e por isso garante seu lugar aqui.

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Clint Eastwood no papel que o consagrou: o pistoleitro sem nome da famosa "trilogia dos dólares"
Pistoleiro sem nome (Clint Eastwood), em “Por uns Dólares a Mais” (1965)

O pistoleiro sem nome apareceu pela primeira vez em “Por um Punhado de Dólares” (1964), o seminal western-spaghetti do italiano Sergio Leone. Mas ele se mostra em sua melhor forma aqui neste segundo filme, o melhor da “trilogia dos dólares”. O personagem é quase uma caricatura – e isso não é uma crítica, pelo contrário – de caubói do Velho Oeste. Ou seja, um personagem mítico reduzido a seus traços essenciais: silencioso, solitário, áspero. Tão básico que nem de um nome ele precisa. E Clint foi um achado de Leone para encarnar essas qualidades: está tudo lá no rosto impassível do cara. Como John Wayne, o ator poderia estar aqui por um punhado de personagens. Mas o pistoleiro sem nome é onde tudo começa.

Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford), em “Butch Cassidy” (1969)

Há várias duplas marcantes na história do faroeste. Mas nenhuma como Butch Cassidy e Sundance Kid. Os lendários ladrões que dividem o trabalho, o dinheiro e o amor de uma mulher inspiraram uma leveza e um romantismo raros para um faroeste. Newman faz um tipo mais malandro, e Redford mais sisudo. Ambos estão igualmente bem, talvez no auge de suas carreiras. Um faroeste que pode ser apreciado até pelas mulheres, com momentos de delicadeza incomuns para o gênero, como a famosa cena da bicicleta ao som de “Raindrops Keep Fallin' on My Head”.

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William Holden é "Meu Ódio Será Sua Herança": filme troca a valentia do faroeste por violência e ganância
Pike Bishop (William Holden), em “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969)

Sam Peckinpah dirige este faroeste crepuscular, que anuncia o fim do Velho Oeste, com suas cenas violentíssimas filmadas em câmera lenta e personagens que trocaram os cavalos por carrões e pistolas por metralhadoras. Envelhecido e acima do peso, o ex-galã Holden encarna essa decadência, interpretando o líder de um bando de pistoleiros que enfrenta um grupo de caçadores de recompensas. Não há mais heróis, não há mais a valentia e a ética do faroeste. Só violência, ganância e instinto de sobrevivência.

Little Bill Dagget (Gene Hackman), em “Os Imperdoáveis” (1992)

Com “Os Imperdoáveis”, Clint Eastwood conseguiu não apenas provar de uma vez por todas que era um cineasta de ponta, como ainda ressuscitar sozinho um gênero moribundo. Os personagens de Clint, de Morgan Freeman e até de Richard Harris poderiam figurar numa lista de melhores do faroeste. Mas quem rouba a cena é Gene Hackman como um xerife que é mais cruel e corrupto que os bandidos e pistoleiros que passam por sua cidade. “Os Imperdoáveis” pode ser visto um acerto de contas entre Eastwood e o pistoleiro sem nome, em que o diretor desconstrói a antiga glorificação da violência no gênero que ajudou a celebrizar.

Anton Chigurh (Javier Bardem), em “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007)

Se vários filmes vinham apontando para o fim do faroeste clássico, este dirigido pelos irmãos Coen é o que joga a última pá de cal. E Anton Chigurh é o emissário da morte. Não se trata de mais de um vilão de western, mas de um psicopata que poderia ter saído de um filme de terror. E o mais incrível é que Bardem consegue transformar esse personagem desprovido de humanidade em um ser carismático.

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