"Desenrola" quer conquistar adolescentes

Filme exibido em Paulínia luta pela classificação etária baixa para levar jovens para dentro dos cinemas

Marco Tomazzoni |

Divulgação
Olívia Torres e Lucas Salles em "Desenrola": casal improvável
Se antes o cinema brasileiro era carente de produções para o público adolescente, 2010 parece ser o ano em que todos vão chegar ao mesmo tempo nas telas. Depois de "As Melhores Coisas do Mundo", "Os Famosos e os Duendes da Morte" e "Antes que o Mundo Acabe", agora é a vez de "Desenrola", exibido ontem na competição do Festival de Paulínia. Baseado em uma websérie, o filme é o mais despretensioso e ensolarado de todos, mostrando uma garota de 16 anos e seu conflito com a virgindade no Rio de Janeiro.

A diretora Rosane Svartman ("Mais Uma Vez Amor", "Como Ser Solteiro") escreveu o roteiro com Juliana Lins sempre de olho na realidade da história – foram feitas leituras em escolas cariocas e até em São Paulo, para evitar que o filme fosse regionalizado demais, em busca dos temas mais interessantes e do rumo que os personagens deveriam tomar. Além disso, o site oficial serviu, segundo a realizadora, para centralizar as colaborações dos internautas – a música-tema foi criada de forma conjunta e até cenas eram colocadas online para ver a opinião do público-alvo.

Público-alvo que não tem o costume de assistir a filmes brasileiros, o que por si só já é um desafio. O jovem, aliás, é o principal consumidor de cinema no Brasil. “Todo mundo quer conquistar esse público, de escolas a fabricantes de tênis”, afirma a produtora Clélia Bessa. Daí também vem a luta para conseguir uma classificação etária condizente: o sexo é um dos assuntos principais de "Desenrola", seja pela virgindade ou gravidez. As drogas, porém, presentes em qualquer colégio, ficaram de fora do roteiro para o filme escapar da censura.

Mesmo assim, o primeiro trailer foi classificado pelo Ministério da Justiça para maiores de 14 anos, o que forçou o lançamento de uma nova versão. “A classificação etária é muito importante”, frisa o diretor da Downtown, Bruno Wainer, distribuidor do longa. “Se deixássemos o trailer como estava, ele não poderia ser exibido antes de filmes do público-alvo. Há uma histeria, um rigor excessivo com o material destinado a jovens.”

Malhação e exagero

Em "Desenrola " (gíria para “desembucha”, “conta tudo”), Priscila, interpretada por Olívia Torres, é fascinada por Rafa (Kayky Brito), surfista, bonitão e mais velho, que nem lhe dá bola. “Às vezes parece que estou no cinema. Fico vendo a vida do Rafa e ele nem sabe que estou aqui”, ela reclama. Quando os dois finalmente ficam juntos, a virgindade de Priscila vem à tona e o surfista se manda. É o mote para a discussão sobre a primeira vez virar o tema principal do filme.

E ela até tem conteúdo, mas "Desenrola", na angústia de ser jovem e autêntico, acaba pesando a mão na trilha sonora, na direção de arte, no figurino. Tudo é colorido, pop demais, e fica a impressão de que se está num longo episódio de "Malhação " com participações especiais – Pedro Bial, Claudia Ohana, Marcelo Novaes, Letícia Spiller e Juliana Paes são alguns dos nomes que passeiam pelo elenco. Numa tentativa de também agradar às outras gerações, Priscila acha uma fita K7 da mãe e passa a ouvir músicas da década de 1980, como do grupo britânico Simple Minds, que depois ganha um espaço quase inexplicável na história.

As coisas melhoram com o outro protagonista. Lucas Salles interpreta Boca, o palhaço do colégio, que se apaixona por Priscila e traça um plano para conquistá-la. São dele e do amigo Amaral (Vitor Thiré, bisneto de Tônia Carrero e neto de Cecil Thiré) as melhores cenas do filme, e não é por nada que os dois personagens vão ganhar um programa no canal Multishow a partir de novembro. Há doses generosas de humor rasteiro, que devem divertir o bendito público-alvo do filme. O problema continua sendo levá-lo ao cinema.

* o repórter viajou a convite do festival

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