Dentro e fora de competição, política domina edição 2009 do Festival de Veneza

VENEZA ¿ Se o Festival de Cannes foi da violência, a competição deste 66º Festival de Veneza é da política, que voltou a ficar na moda no cinema. A seleção do diretor artístico Marco Müller até agora, quando faltam três dias e meio para o final, enfatizou essa vertente.

Mariane Morisawa, enviada especial a Veneza |

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"Baarìa": financiada pela produtora
do primeiro-ministro Silvio Berlusconi

Desde a abertura foi assim. Baarìa , de Giuseppe Tornatore, em princípio é a história de uma família e do amor de Peppino (Francesco Scianna) e Mannina (Margareth Madé). Mas, na verdade, o filme é panorama da política ¿ e da esquerda ¿ italiana desde o início do século 20. O assunto também é tema de Il Grande Sogno , de Michele Placido, sobre os sonhos revolucionários de mudar o mundo de 1968. Em ambos, além da situação política mundial, pesa também a situação local, onde Silvio Berlusconi gera forte oposição. Curiosamente, ambos os longas são financiados pela produtora do primeiro-ministro italiano.

Os norte-americanos também optaram pelo tema. Até Todd Solondz, que normalmente faz comentários ácidos sobre as famílias e a sociedade americana em geral, aparece mais politizado em Life During Wartime . Uma das personagens é pró-Israel, enquanto sua irmã é pró-Palestina. Survival of the Dead , de George A. Romero, traz uma visão pessimista sobre o ser humano. Os zumbis são criaturas inocentes, enquanto os protagonistas são odiosos, expondo a dificuldade humana de lidar com as diferenças. Já A Estrada , de John Hillcoat, exibe um mundo pós-apocaliptico, mas tem um final esperançoso.

Michael Moore, claro, é o mais ácido de todos. Com Capitalism: A Love Story , ele detona o capitalismo que ganhou força com o governo George W. Bush e aproveita para atirar no ex-presidente americano. Werner Herzog está mais interessado de tratar da obsessão dos protagonistas de The Bad Lieutenant e My Son, My Son, What Have Ye Done? , do que fazer um comentário político sobre a sociedade ou o governo norte-americanos, mas alguma coisa escapa.

AFP

O presidente venezuelano Hugo Chávez e Michael Moore: acidez e comentário político

Até os representantes dos Estados Unidos exibidos fora de competição ¿ The Men Who Stare at Goats , de Grant Heslov, sobre uma unidade das Forças Armadas meio hippie, chamada de Exército da Nova Terra, O Desinformante! , de Steven Soderbergh, sobre um alto executivo que enrola o FBI, e principalmente South of the Border , de Oliver Stone, defesa sem nuanças do presidente venezuelano Hugo Chávez ¿ vão por esta linha.

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O francês "Persécution": peixe fora
d'água na competição de Veneza

A situação atual do Irã é o tema de Women Without Men , da estreante Shirin Neshat, apesar de a trama se passar em 1953. Foi nessa data que o governo democraticamente eleito foi derrubado com ajuda dos Estados Unidos e do Reino Unido, o xá voltou ao poder e abriu-se caminho para a Revolução Islâmica do aiatolá Khomeini, que resultaria no governo nada democrático de Mahmoud Ahmadinejad. Lebanon, do israelense Samuel Maoz, faz retrato sem meios tons da guerra, no caso, da Guerra do Líbano em 1982. E até o folhetinesco Prince of Tears , apesar de carregar no melodrama sobre um casal, mostra a perseguição aos comunistas e injustiças cometidas pelo caminho em Taiwan. 

As grandes exceções são os filmes de língua francesa, tirando White Material, de Claire Denis, que fala da influência da colonização europeia na África e suas constantes guerras civis. São peixes fora dágua Persécution , história de amor difícil de Patrice Chéreau, 36 Vues Du Pic Saint Loup , trama de Jacques Rivette sobre um reencontro de uma mulher consigo mesma, ao voltar para o circo fundado por seu pai após sua morte, e Lourdes , da austríaca Jessica Hausner, mas falado em francês, sobre fé e milagre.

Difícil saber como o júri presidido por Ang Lee vai se comportar. O diretor é conhecido pelos dramas humanos, como O Segredo de Brokeback Mountain, O Banquete de Casamento e Razão e Sensibilidade, normalmente comentários sobre o preconceito e a quebra de convenções sociais. Os outros participantes são o diretor russo Sergey Vladimirovic Bodrov, a atriz francesa Sandrine Bonnaire, o cineasta americano Joe Dante, o cantor italiano Luciano Ligabue, o diretor indiano Anurag Kashyap e a cineasta italiana Liliana Cavani.

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