"Deixe-me Entrar" maquia filme de vampiro sueco

Apenas dois anos depois do original, Hollywood privilegia horror explícito e investe em efeitos especiais

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Kodi Smit-McPhee e a ensaguentada Chloe Moretz, os protagonistas da versão norte-americana
Matt Reeves estava hesitante ao ser convidado para dirigir a adaptação norte-americana de "Deixa Ela Entrar" ("Let the Right One In"). Aguardado depois de comandar o sucesso "Cloverfield - Monstro", ele não entendia por que refilmar a aventura de vampiros sueca que conquistou público e crítica mundial em 2008. Depois de conversar com John Ajvide Lindqvist, roteirista e autor do livro que inspirou o original, Reeves resolveu assumir a tarefa. O resultado é "Deixe-me Entrar" ("Let Me In"), que estreia nesta semana (28) no Brasil. A leve alteração no título reflete o espírito do remake: maquiagem para contar basicamente a mesma coisa.

Maquiagem que tem nuances próprias, tipicamente hollywoodianas, mas o esqueleto permanece idêntico. Os nomes dos personagens foram trocados e a história realocada dos arredores de Estocolmo para a cidade de Los Alamos, nos Estados Unidos da década de 1980, época em que o presidente Ronald Reagan proferiu o famoso discurso no qual chamou a União Soviética de "império do mal".

Na refilmagem, Owen (Oskar, no original) é um garoto perseguido pelos colegas de colégio, com problemas sérios de bullying. Solitário, ele desenvolve um espírito violento. Sua rotina muda com a chegada de Abby (Eli) no condomínio. A garota chama atenção pelo comportamento estranho, como andar com poucas roupas e descalça na neve, mas os dois acabam se aproximando. Owen mal sabe que Abby, na verdade, é uma vampira que usa os serviços de seu pai (Richard Jenkins) para matar e viver de sangue. Os papéis ficaram a cargo de Kodi Smit-McPhee ("A Estrada") e Chloe Moretz ("Kick-Ass"), em ascenção na Hollywood mirim.

Divulgação
As estrelas mirins do sueco "Deixa Ela Entrar"
Se "Deixa Ela Entrar" permitia a discussão de que a trama de vampiros era só pano de fundo para contar a aproximação de dois desajustados sociais, a versão de Hollywood é sem dúvida um filme de gênero. Nem podia ser diferente: "Deixe-me Entrar" é o primeiro projeto da ressurreição do Hammer Films, estúdio britânico que se tornou sinônimo de filmes de horror nas décadas de 1960 e 1970, produzindo, por exemplo, a famosa cinessérie de Drácula protagonizada por Christopher Lee. A ligação com a franquia, portanto, já pressupunha um posicionamento narrativo claro e muita sanguinolência.

A imigração para os EUA representou também um orçamento inflado. Enquanto a produção sueca custou apenas US$ 4 milhões, o remake gastou cinco vezes mais, US$ 20 milhões. Isso representou um aumento considerável nas cenas de efeitos especiais e, portanto, uma revolução estética. O que o filme original tinha de real e sugestivo ficou explícito. Quando ataca, a vampira se transforma: ganha movimentos animalescos, amparados por boa dose de CGI, e tem o rosto angelical transformado por maquiagem e grunhidos.

Há diversos detalhes alterados no roteiro, mas a maioria sem maior impacto. Os mais importantes, no entanto, dizem respeito ao "pai" de Abby e a um núcleo secundário de personagens. No filme sueco, sabe-se pouco do acompanhante da vampira, obediente e servil. Já Jenkins, com o rosto coberto por um sinistro saco de lixo, demonstra cansaço da tarefa de caçar vítimas e, ao longo da história, o espectador ganha pistas de sua origem. Desfaz-se, portanto, a aura de mistério (que, aliás, é bem diferente e menos assustador do que o apresentado no livro).

O mais impressionante, porém, são os vizinhos do condomínio onde Owen/Oskar vive. Originalmente, eram suecos de meia-idade fãs de uma mesa de bar. Um, por exemplo, solteirão rodeado de gatos e outro, desempregado convicto. Na versão norte-americana, Owen se transforma em voyeur da vizinhança e espia os moradores do conjunto habitacional, convertidos num atleta amador bombado e numa vizinha gostosona. Muito melhor, sem dúvida, de se mostrar na telona do cinema. Além disso, um detetive foi criado para adicionar tensão policial à trama.

São só amostras de uma "enxugada" na história, que excluiu ainda menções a alcoolismo, eutanásia e até uma discussão sobre o sexo de Abby/Eli. Reeves já declarou, é verdade, ter se inspirado em sua própria infância para reescrever o roteiro. As mudanças não invalidam a refilmagem, que continua uma ótima história, mas apenas para quem não foi apresentado ao original, mais profundo, interessante e sombrio.

A única justificativa de uma empreitada dessas, e das alterações, seria apresentar a obra para um público maior. O erro dos produtores foi ter confiado no público. "Deixe-me Entrar" fracassou nas bilheterias, faturando apenas US$ 12 milhões nos Estados Unidos. Era de se esperar que fosse assim. As conservadoras plateias norte-americanas dificilmente assistiriam a um filme para adultos estrelado por crianças, ainda mais crianças violentas e sanguinárias. Azar o deles – seja "Deixa Ela Entrar" ou "Deixe-me Entrar", é um dos roteiros mais inovadores e instigantes a chegar às telas nos últimos tempos. Na dúvida, prevalece a máxima: prefira o original. Compare os dois nos trailers abaixo.

"Deixa Ela Entrar":

"Deixe-me Entrar":

    Leia tudo sobre: deixa-me entrardeixa ela entrarmatt reeveshollywood

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG