"De Pernas pro Ar" faz graça com sexo

Promessa para as bilheterias no verão, filme com Ingrid Guimarães e Maria Paula é, apesar de tudo, moralista

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Festa na loja: "De Pernas pro Ar" tem os mesmos roteiristas da série de TV "Sob Nova Direção"
Não é mistério nenhum que a comédia se estabeleceu, ao lado das produções espíritas, como garantia de bom público no cinema brasileiro. "Se Eu Fosse Você", "Divã", sucessos moderados ("O Bem Amado", "Quincas Berro D'Água") e surpresas ("Muita Calma Nessa Hora") foram bem nas bilheterias e firmaram o gênero no mercado. Janeiro ainda se consolidou como favorável para estreias nacionais e pronto, está aí a plataforma para o sucesso de "De Pernas pro Ar", que entra em cartaz nesta sexta-feira (31), véspera de réveillon, depois de uma semana em pré-estreia.

Querida pelos telespectadores, a presença de Ingrid Guimarães no papel principal também dá gás para o lançamento, que supera 300 cópias. A recepção até agora nas exibições tem sido excelente, e não é preciso pensar muito para saber por quê. Ingrid interpra Alice, workaholic do mundo corporativo que não dá muita bola para a família. O marido (Bruno Garcia, que exagerou na câmera de bronzeamento) resolve dar um tempo, desperta a suspeita de que tem uma amante e, na sequência, Alice perde o emprego por confundir uma caixa da inofensiva Minhoquinha Feliz com brinquedos sexuais (consolos, chicotes e vibradores).

A piada pode não ser genial, mas funciona. É a primeira de uma série de referências rasteiras ao mundo das sex shops, onde a personagem de Ingrid vai parar, assessorada pela vizinha e sócia Marcela (Maria Paula, em seu primeiro trabalho longe da trupe Casseta e Planeta). A princípio, parece que o filme dirigido por Roberto Santucci ("Bellini e a Esfinge") vai se desvencilhar do bom mocismo reinante na dramaturgia mainstream e adentrar o politicamente incorreto, iluminar os becos escuros da internet e espiar por trás das portas.

Frígida, engomadinha, quase puritana, Alice descobre esse novo mundo com um misto de choque e prazer. "Às vezes penso que o mundo é uma grande suruba e eu não fui convidada", lamenta. Mas a coisa muda de figura quando ela tem seu primeiro orgasmo com um coelho de pelúcia turbinado e passa, então, a espalhar essa alegria Brasil afora distribuindo bottons onde se lê "Goze agora", lema de seu novo empreendimento de produtos eróticos.

Tirando uma ou outra brincadeira mais apimentada e gags nonsense – caso de uma velhinha montada num touro mecânico com formato de pênis –, "De Pernas pro Ar", porém, se revela moralista. Mesmo com um enredo desses, os valores da moral e da família se mantêm acima de tudo, como a mudança de título já dava a entender (inicialmente, o filme se chamaria "Sex Delícia", nome da sex shop). Talvez por isso mesmo as plateias estejam aceitando tão bem a história e a censura tenha ficado em apenas 14 anos. "Não é um filme de piadas. É um filme universal, sobre o que estamos vivendo hoje", explicou Santucci em entrevista. Quem esperava, no entanto, coragem ou profundidade fica de mãos abanando.

Não se discute o talento de Ingrid Guimarães. Humorista habilidosa ( assista a um vídeo em que ela finge orgasmos ), a atriz brilha nas cenas em que tem maior tempo e liberdade em frente às câmeras – aí aflora a experiência de stand-up que ela adquiriu na longa temporada da peça "Cócegas" e o resultado é hilário (como na sequência da calcinha vibratória). Apesar do texto ter sido escrito pelos mesmos roteiristas que a acompanharam na série "Sob Nova Direção", a sensação é de que ela está amarrada e podia ter rendido bem mais. Culpa da trama incrivelmente careta, refém das situações absurdas, sem investir nos diálogos, como fazem as boas comédias.

Os coadjuvantes são competentes. Denise Weinberg convence como a mãe liberal, Antônio Pedro, como seu parceiro e comparsa, e Cristina Pereira, sumida das telas, transforma uma empregada com poucas falas num personagem engraçadíssimo. Maria Paula faz o de sempre: sorri, mostra suas pernas compridas, voz grave e pose sensual; nem precisava mais. Já Flávia Alessandra e Marcos Pasquim (que, depois de "Amor por Acaso" , se especializa em participações especiais vergonhosas) aparecem brevemente.

"De Pernas pro Ar" tem o mérito de não apelar para o humor de baixo calão, e só isso já é uma vitória. A julgar pelo desempenho apenas nos três dias do fraco feriadão de Natal – 120 mil espectadores, pouco atrás de "Crônicas de Nárnia" e "Tron", ambos com muito mais cópias –, a vitória vai acontecer também nas bilheterias.

Assista ao trailer de "De Pernas pro Ar":

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