Ninguém Sabe Nada de Gatos Persas mostra força da música censurada" / Ninguém Sabe Nada de Gatos Persas mostra força da música censurada" /

Cultura subterrânea emerge em filme iraniano

Feito com dificuldade, Ninguém Sabe Nada de Gatos Persas mostra força da música censurada

Sandra Silva, especial para o iG |

Divulgação
O cineasta iraniano Bahman Ghobadi
Quem mora em São Paulo e gosta de cinema deve ter pelo menos um filme iraniano na cabeça. A partir da década de 90, não só cresceu o número de filmes do Irã exibidos na capital mas também a participação em festivais internacionais, com a conquista de prêmios. No entanto, o florescimento deste cinema tem sido ofuscado pela explosão da censura e excesso de burocracia no Irã. Até o final de maio o diretor Jafar Panahi estava na prisão. Ele só foi libertado, após ter iniciado greve de fome e ter pago fiança de 160 mil euros, depois de 80 dias na cadeia. Panahi é diretor de O Balão Branco (1995) e Fora do Jogo (2006), filme que levou o Urso de Prata no Festival Internacional de Berlim.

O diretor Bahman Ghobadi - Ninguém Sabe Nada de Gatos Persas (2009), ganhador do Prêmio Especial Um Certo Olhar no Festival de Cannes, também premiado pela crítica na categoria Melhor Filme Estrangeiro da 33ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - também sofre com a censura do país. Já foi preso e enfrentrou depressão. Vive entre Iraque, Europa e Estados Unidos e mostra apreensão diante da atual cena do cinema iraniano.

“A situação do Irã mudou muito nos últimos oito anos. Fazer cinema hoje no Irã é exaustivo. O governo obriga cineastas a obterem muitas autorizações que são negadas. Para se fazer cinema é necessário uma infraestrutura muito grande que não permitem mais”, afirmou Ghobadi durante lançamento em circuito comercial de Ninguém Sabe Nada de Gatos Persas em Barcelona (Espanha), pela Alta Films.

Ele argumenta que as inúmeras permissões e autorizações exigidas, e depois negadas pelo governo iraniano, impossibilitando o trabalho de músicos e cineastas, são pretexto para que não haja espaço para se refletir sobre a realidade. “É um jogo político e uma grande mentira. Os filhos dos burocratas iranianos são músicos também e fazem essa música clandestina. O grande problema do Irã de hoje não é a bomba atômica, é a falta de direitos humanos. Fiz esse filme, apesar de todas as dificuldades porque analiso que fazer cinema no Irã é uma oportunidade de abrir janelas para uma outra realidade.”

Sem conseguir as aprovações necessárias, Ghobadi filmou Ninguém Sabe Nada de Gatos Persas clandestinamente em Teerã, com uma pequena câmera e uma moto. E saiu do país com parte do elenco principal horas depois do término das gravações, deixando para trás cópia considerada ilegal do filme.

Enquanto o cinema estremece, a música subterrânea com muitas em letras em inglês e ritmos ocidentais (rock, indie e até rap) avança. E o filme Ninguém Sabe Nada de Gatos Persas fala justamente desse universo musical, já que os animais domésticos não podem circular pelas ruas do Irã. “Foi a vivência que me convidou a fazer esse filme. Eu não tinha um plano prévio, nenhuma ideia preconcebida. Apenas estava com depressão e me refugiei na música. Conheci esses grupos musicais e suas vidas. A história de Ashkan Koshanejad e Negar Shaghaghi (o casal de músicos protagonista) é real e eles interpretam a eles mesmos no filme. Eu os conheci quando iam sair do país e os pedi para filmar a história. Foram apenas 18 dias de filmagens antes da viagem do grupo à Europa.”

Segundo Ghobadi, até mesmo a música folclórica é alvo de perseguição. “Tenho um amigo que gravou um CD de música tradicional fora do Irã com o próprio dinheiro mas foi censurado no país porque havia as palavras ‘fruto do teu corpo’ na letra, consideradas incitação ao pecado”, afirma Ghobadi, que durante suas experiências na cena musical moderninha também gravou CD.

Ao comparar música e cinema no Irã de hoje, Ghobadi acredita que fazer música é mais fácil do que fazer cinema. “Esses músicos de bandas clandestinas fazem parte da geração de artistas que está saindo do país para morar na França, Holanda e Estados Unidos mas que ainda tem uma conexão muito grande com o Irã. Eles vão ajudar aos músicos que ficaram.”

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