Culpa assombra personagens de "Submarino"

Drama do dinamarquês Thomas Vinterberg, exibido em Berlim, retoma tema da família

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Depois de um respiro com a comédia "Quando um Homem Volta para Casa" (2007), o dinamarquês Thomas Vinterberg voltou ao território que mais conhece, o drama. Não o drama político de "Querida Wendy" (2005) ou o drama romântico de "Dogma do Amor" (2003), mas uma abordagem mais crua, que se assemelha à sua obra mais conhecida e impactante, "Festa de Família" (1998), pontapé inicial do movimento Dogma. A família também serve de núcleo de "Submarino", em cartaz em circuito limitado no Brasil, mas a opção dessa vez é por um viés social, flagrando uma parcela marginalizada de Copenhague.

Exibida em competição no ano passado no Festival de Berlim , a história é baseada no livro de mesmo nome e começa com um acidente traumático para dois irmãos negligenciados pela mãe alcoólatra. A morte do caçula, com ecos de "Trainspotting" (96), assombra a dupla por toda a vida – já adultos, aquele fantasma está presente como nunca.

Divulgação
Os irmãos que protagonizam "Submarino", de Thomas Vinterberg: fantasma do passado
Nick (Jakob Cedergren), o mais velho, acaba de deixar a prisão e vive no que parece ser um abrigo do governo. Passa os dias calado, cenho frazido, a culpa pesando nas costas, conformado com um destino medíocre e solitário. Sua rotina se resume a ir na academia, caminhar pelas calçadas geladas da cidade e beber cerveja atrás de cerveja. Eventualmente usufrui dos favores sexuais de uma vizinha carente e, quando encontra o ex-cunhado que parece não bater muito bem, as coisas tomam outro rumo.

Corta para a segunda parte do filme, independente da primeira, dedicada ao outro irmão (Peter Plaugborg), cujo nome não se sabe – mensagem nem tão cifrada de sua personalidade pouco louvável. Viúvo, ele cuida sozinho do filho pequeno, enquanto lida com um vício pesado em heroína. É uma forma de escapar da realidade e, também, de torná-lo vilão aos olhos do espectador. A venda da droga surge como um modo ilusório e fantasioso de garantir o futuro da criança. Mergulha-se, então, no civilizado submundo nórdico, bem distante da realidade sul-americana.

A narrativa, enfim, une suas pontas e "Submarino" deixa claro que a trajetória daquela família fragmentada tinha como objetivo sublimar o passado, ou seja, nada diferente do que se esperava. A falta de surpresa é compensada pela força da história, concentrada no elenco e no drama intenso dos personagens. Nisso, Vinterberg pouco interfere – faz uma direção econômica, com movimentos de câmera discretos e trilha sonora basicamente inexistente.

É um trabalho simples, portanto, mas não como os do Dogma, cujos preceitos fundamentalistas se perderam nos anos noventa. Mesmo assim, comprova a disposição de Vinterberg por temas inquientantes. Não dá para reclamar.

Assista abaixo ao trailer de "Submarino" (legendas em inglês):

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