"Corações Sujos" retrata terror na colônia japonesa

Vicente Amorim adapta livro de Fernando Morais sobre perseguição a imigrantes que não acreditavam na derrota do Japão na 2ª Guerra

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

Uma produção de época grandiloquente abriu o Paulínia Festival de Cinema 2011 na noite de quinta-feira (08). Exibido fora de competição, "Corações Sujos", de Vicente Amorim, volta até o Brasil pós-Segunda Guerra para contar como a derrota do Japão repercutiu na colônia de imigrantes brasileira, a maior do mundo, reprimida pelo governo. Lágrimas, orgulho e terrorismo imperam na história, interpretada em japonês por um elenco majoritamente de lá.

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Eiji Okuda e Tsuyoshi Ihara em cena de "Corações Sujos": filme nacional com elenco majoritariamente japonês
É um território pouco explorado no cinema nacional, ainda mais com excelência técnica, em que Amorim prova desenvoltura. Escolado por "Um Homem Bom" (2008), no qual Viggo Mortensen testemunhava a ascensão do nazismo na década de 1930, e pelo lirismo de "O Caminho das Nuvens" (2003), o diretor continuou dando vazão a um cinema clássico hollywoodiano, de planos abertos e drama à flor da pele.

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Violência funciona como veículo para extravasar vergonha e frustração após a derrota do Japão
Numa cidade não-definida do interior brasileiro, repleta de plantações de algodão, Takahashi (Tsuyoshi Ihara, de "Cartas de Iwo Jima") trabalha como fotógrafo, fazendo retratos com um painel ao fundo em que o cliente pode escolher o Monte Fuji ou uma floresta tropical, referência clara ao exotismo brasileiro. Mas a grande maioria dos imigrantes quer mesmo é posar com o símbolo do Japão, já que, mesmo longe de casa, a ideia é manter os costumes e a fé no imperador inabalados.

Takahashi é casado com a professora Miyuki (Takako Tokiwa), que dribla a proibição do governo de montar uma escola japonesa. Por lei – Eduardo Moscovis vive um policial sem grande importância –, ninguém da comunidade pode se reunir, ouvir rádio ou ler jornal, um resquício da época da guerra. Mesmo por causa disso, ninguém sabe ao certo se o conflito terminou, o que alimenta a teoria de que o Japão dobrou os Estados Unidos e saiu vencedor.

Surge aí o Shindo Renmei, grupo paramilitar que se reúne na clandestinidade para punir aqueles que não acreditam na derrota do Japão, os "corações sujos", o que deu origem ao livro de Fernando Morais , a matriz do roteiro. Um patriotismo exacerbado e delirante, com apoio de panfletos e discursos inflamados do líder Watanabe (Eiji Okuda), serve como justificativa para matar quem não louvasse o imperador. No fundo, todos desconfiam da verdade, mas a violência, como sempre, funciona como veículo para extravasar vergonha e frustração, base do extremismo.

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A série de crimes que se sucede dita a escalada de tensão do filme e a metamorfose de Takahashi, de cidadão pacato a fundamentalista assassino. Aí Amorim afrouxa as rédeas – o conflito do personagem não convence e o exagero enfraquece as cenas. A ânsia de mostrar o horror da perseguição aos corações sujos é pontuada por uma certa afetação visual (sangue espirrando no espelho, imagens desfocadas) e por uma trilha sonora estrondosa. A música aumenta em todo e qualquer momento dramático, retumbando nas caixas de som e sublinhando o que não precisava. No caso do compositor Akihiko Matsumoto, alguém precisava dizer que menos é mais.

De modo geral, no entanto, Vicente Amorim se sai bem melhor do que Tizuka Yamasaki ("Gaijin"), por exemplo, e constrói momentos interessantes. Miyuki, mulher do protagonista, quase não tem falas e mantém uma relação apaixonada e silenciosa com ele. A atriz se comunica basicamente pelo olhar, um minimalismo que poderia ter servido de lição para o resto do filme. O coronel Watanabe compartilha a mesma vivacidade, embora bem mais verborrágica – triunfo de Eiji Okuda, franzino e intenso, um Ian McKellen japonês.

* O repórter viajou a convite do festival

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