Coppola resvala no drama familiar "Tetro"

Diretor usa cinema como divã e perde o rumo no longa filmado na Argentina

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Alden Ehrenreich e Vincent Gallo, os irmãos complicados em "Tetro"
Distante há mais de uma década dos estúdios e quase duas do sucesso, quando fez dinheiro com "Drácula de Bram Stoker" (1992), Francis Ford Coppola, aos 72 anos, se sente livre de amarras do público e da crítica. Sem dever nada para ninguém, faturando alto com as vinícolas que mantém na Califórnia, o diretor de "Apocalypse Now" e da trilogia "O Poderoso Chefão" financia sem problemas projetos modestos – ao contrário do passado, em que chegava a hipotecar a própria casa para viabilizar orçamentos milionários – e faz o que bem entende. Como disse em visita recente ao Brasil , filma "como um estudante", querendo aprender mais sobre o cinema e si mesmo. Com estreia nesta sexta-feira (10), "Tetro" leva essa ideia a sério: serve tanto como um flerte com o mundo artístico quanto como um mergulho na família Coppola.

As semelhanças do roteiro com a vida real são assumidas. Seduzido pela aura de mistério da literatura latino-americana (e pelos baixos custos de produção na região), Coppola desembarcou para uma temporada em Buenos Aires e concebeu a história de uma família oprimida pela figura paterna, um maestro de sucesso (vivido pelo ator austríaco Klaus Maria Brandauer), e a competição entre ele e seu irmão. Não por acaso, o pai de Coppola era músico e o diretor sempre sentiu que o pai o comparava ao irmão, um escritor que não teve a mesma sorte na carreira. O cinema como divã, portanto.

Daí chega-se ao jovem Bennie, interpretado pelo expressivo Alden Ehrenreich. Com 18 anos incompletos e jeito indefeso, o garoto consegue trabalho num cruzeiro e embarca para a América do Sul atrás do irmão, o excêntrico Tetro (Vincent Gallo), há anos exilado na capital argentina, longe do pai autoritário e à vontade para escrever. Visivelmente perturbado, Tetro não fica nada feliz com a visita – Bennie representa um passado que ele havia deixado para trás, inclusive o próprio nome. Ninguém melhor do que Gallo, famoso por seu comportamento bizarro nos sets, entrevistas e palcos (ele também é cantor) para personificar uma figura antissocial, irascível e com um quê psicótico.

Filmado num belo preto e branco, "Tetro" começa com o pé direito. O drama familiar prende a atenção e deixa o público ávido por desvendar as raízes dos irmãos, o conteúdo do misterioso livro de Tetro e a espiral de loucura que uniu o escritor e Miranda (Maribel Verdú, de "O Labirinto do Fauno" e "E Tua Mãe Também", excelente). É um prazer poder admirar a obra de alguém que sabe filmar como Coppola – ele não perdeu o jeito, isso é fato, e conduz a história com mão de ferro. O fascínio por Buenos Aires e pela rotina portenha se revela no giro pelos cafés, nas conversas com os coadjuvantes (Rodrigo De la Serna, Leticia Brédice, Mike Amigorena), nas caminhadas por La Boca.

Há uma subtrama teatral: Tetro ganha uns trocos como iluminador e tem experiência indeterminada no ramo. As peças em que ele trabalha são uma espécie de farsa, com figurinos exagerados, mulheres seminuas e humor duvidoso. Uma brincadeira com o teatro, é evidente, mas que de repente começa a se levar a sério e perde a razão de ser. Quem paga o pato é Carmen Maura, grande atriz espanhola, no papel de uma crítica inexplicável, surreal.

Surreal também é o flerte com a ópera. Em sequências coloridas – assim como os flashbacks, esses esmaecidos, numa boa solução visual –, as passagens trágicas da vida de Tetro são reencenadas no palco, com dança e cenários grandiosos. O tom, mais uma vez, é de exagero, que acaba transpassando para a história e põe tudo a perder. Ao final, "Tetro" não parece o mesmo filme que se viu no início, padecendo de falhas como o primeiro projeto independente de Coppola, "Velha Juventude" (2007).

O clima absurdo que toma conta do roteiro talvez fosse uma tentativa do diretor de incorporar o realismo fantástico que ele tanto admira na literatura do continente, ou só uma forma de radicalizar, experimentar com o cinema, que Coppola afirma ser um de seus objetivos hoje. É o primeiro longa-metragem completamente autoral do cineasta desde o clássico "A Conversação" (1974), em que ele ficou responsável pela produção, direção e roteiro, e por isso mesmo esperava-se mais. Dessa postura de autor, fica a decepção e o sentimento de que um certo egocentrismo desequilibrou a balança para o simbolismo desmedido. Coppola ainda sabe como se faz, mas é difícil embarcar na viagem que é "Tetro".

Assista ao trailer de "Tetro":

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