"Comer, Rezar, Amar" é conto de fadas feminista

Julia Roberts parte em busca de si mesma na adaptação do best-seller

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Julia Roberts espairecendo na Itália, durante o ano sabático de "Comer, Rezar, Amar"
Aos 30 e poucos anos, a escritora norte-americana Elizabeth Gilbert, repórter de um prestigiado caderno de viagens em Nova York, largou o trabalho, o marido e as expectativas de se tornar uma futura mãe de família para embarcar numa viagem de autodescoberta pelo mundo. A experiência deu origem ao livro "Comer, Rezar, Amar", best-seller com mais de quatro milhões de cópias vendidas, e inspirou o filme estrelado por Julia Roberts, que estreia nesta sexta-feira (1º) em todo o país.

Não é difícil imaginar o apelo que a história tenha junto ao público feminino e a pessoas ávidas por uma mudança brusca em suas vidas. Nessa fantasia, nada de preocupações, compromissos ou dilemas amorosos: apenas liberdade e a chance de explorar novas culturas e o seu eu interior. Nenhuma novidade até aqui, é verdade, mas "Comer, Rezar, Amar" tem o trunfo de reunir um pacote literário completo, adaptado ao pé da letra pelo diretor Ryan Murphy (das séries "Glee" e "Nip/Tuck"). O filme, veja só, é ao mesmo tempo guia de viagem, bíblia de autoajuda e romance clássico. Três pelo preço de um.

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O ator Javier Bardem: brasileiro fajuto
Depois de um divórcio dolorido e um caso com um ator bem mais novo e riponga (James Franco), Julia "Gilbert" Roberts parte para a Itália, o início de sua peregrinação de um ano e o primeiro verbo da lista (comer). Em Roma, aluga um apartamento, aprende italiano e repete todo clichê sobre o país incluído no guia ou revista mais próximo: a mesa farta, as ruas antigas e estreitas, a profusão de motos, sorvete, os gestos para acentuar a fala. A imprensa italiana odiou a falta de originalidade. Não acrescenta muito, mas a bela fotografia de Robert Richardson (ganhador do Oscar por "O Aviador") ao menos torna o passeio turístico agradável.

Um retiro espiritual trabalhoso na Índia é o meio do caminho, que tem sua parte final na ilha de Bali, na Indonésia. Lá, ela conhece Felipe (Javier Bardem, com português péssimo; veja aqui o brasileiro que ele interpreta ) e encara o dilema de, talvez, voltar a um relacionamento. O "amar" do título é embalado ao som de João e Bebel Gilberto, em um desfecho previsível e pouco recomendado para diabéticos. Ao longo da jornada, lições de vida não faltam: a procura de um deus, o bem-estar consigo mesmo, perdão, caridade, autoestima.

Em meio a uma longa turnê para promover o filme, dono de um orçamento de US$ 60 milhões, Roberts – bastante competente em cena – falou que o papel “mudou sua vida", tanto que se converteu ao hinduísmo no processo. Tudo muito bonito, mas não deixa de ser flagrante que, além de paciência e disposição, dinheiro também entra na conta de quem pretende partir em busca de si mesmo.

Parente engajada da turma de Sarah Jessica Parker em “Sex in the City”, a personagem se emancipa do destino que a sociedade, imagina-se, vinha lhe ditando em uma viagem de conto de fadas que qualquer mulher, em crise ou não, gostaria de fazer. Se há alguns (poucos) obstáculos pelo caminho, renda para ficar quatro meses em cada país sem fazer nada não é um deles. E por aí “Comer, Rezar, Amar” perde sua força. Tudo é perfeito demais, dos cenários irrepreensíveis aos amigos saídos de um desenho dos Ursinhos Carinhosos, dentro do estereótipo de cada país. Sobram os conflitos de Liz Gilbert, comuns a muita gente. Embarca nessa quem quer, ou precisa.

Plasticamente, não há com o que se incomodar, nem mesmo com a longa duração (134 minutos) – tirando um ou outro exagero, as lamúrias da jornalista descem como um diário de viagem místico, colorido e não muito original. Vá de mente aberta, sabendo que há coisa melhor nas páginas de algum outro lugar.

Assista ao trailer de "Comer, Rezar, Amar":

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