Com George Clooney, 'Os Descendentes' emociona com drama familiar

Favorito ao Oscar de ator, astro protagoniza seu melhor papel em filme de Alexander Payne

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

O diretor Alexander Payne é um queridinho da crítica norte-americana. Em 20 anos de estrada, produziu pouco – cinco longas-metragens, o último deles, "Sideways", em 2004 –, mas com qualidade, impacto e humor próprio. No caso de "Os Descendentes", que estreia nesta sexta-feira (27) no Brasil, não foi diferente.

Divulgação
Shailene Woodley, George Clooney, Amara Miller e Nick Krause, a família de "Os Descendentes"
Exibido pela primeira vez em setembro, no Festival de Toronto , foi saudado de cara como um dos melhores do ano. Venceu dois prêmios importantes no Globo de Ouro (melhor filme e ator dramáticos) e chega no Oscar 2012 não só com cinco indicações, mas como o único com cacife de, quem sabe, impedir a vitória de "O Artista".

Tanto barulho, menos mal, não é em vão. "Os Descendentes" prova ser o trabalho mais maduro de Payne, no qual o cineasta e roteirista depura o estilo que construiu ao longo da carreira. O olhar crítico e ácido com que encara as convenções e a sociedade desce o início ("Cidadã Ruth" e "Eleição", os primeiros, são justamente os mais contundentes) foi domado, não esquecido, em favor do drama de seus personagens, sempre tão bem construídos. Aqui, importa o mergulho na família em frangalhos de Matt King, ninguém menos do que George Clooney.

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Um advogado pacato no Havaí, King se vê jogado no comando da família quando sua mulher sofre um acidente de esqui aquático e entra em coma profundo. Ausente do dia-a-dia, o pai "reserva" precisa aprender a lidar com as duas filhas, a precoce caçula de 10 anos e a rebelde adolescente Alex (Amara Miller e Shailene Woodley, ambas excelentes), em meio a um clima de morte eminente.

Não é só isso. Matt é o representante da numerosa família King num negócio milionário de venda de terras-virgens, alvo de investidores. Atender à pressão dos primos e da comunidade havaiana se junta à rotina do advogado, que explode com a revelação de que sua mulher o traía de modo não muito discreto.

Com os conflitos estabelecidos, "Os Descendentes" acompanha o amadurecimento dos personagens com carinho, precisão e ritmo intocável. Além disso, talvez emocione com naturalidade ainda maior do que "Confissões de Schmidt" e "Sideways", que já mostravam o talento de Payne para machucar corações, compensado pelo dom na mesma medida para o humor (a cargo, desta vez, do namorado sem noção da filha mais velha).

Há quem se queixe de uma certa obviedade do desfecho. Se ela existe, não ofende a inteligência de ninguém e a evolução da trama, deliciosa e comovente, segura a projeção.

Um dos trunfos é a ambientação exótica no Havaí, mostrado em generosas tomadas abertas e na trilha sonora típica. O arquipélago no Pacífico com ares de paraíso tropical é desmistificado logo nos primeiros minutos.

"Só porque moramos no Havaí não significa que evitamos a vida", diz o personagem de Clooney, amargurado: "o paraíso pode ir para aquele lugar".

O ator encabeça o filme com força inédita na carreira. Desprovido dos cacoetes que marcam a maior parte de seus papéis, Clooney aparece contido, apoiando a interpretação nas pequenas coisas, nos silêncios, no olhar, como já havia experimentado em "Um Homem Misterioso" . Não é difícil dizer que é seu melhor trabalho, e que provavelmente lhe renderá um segundo Oscar.

Rapidamente se tornando um dos grandes nomes do cinema norte-americano – atua, escreve e dirige muito bem –, Clooney ajuda "Os Descendentes" a transcender uma simples história de um pai e suas filhas: reflete sobre o passado, família, valores, sobre a vida. Bem mais do que Hollywood em geral oferece.

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