Clint Eastwood faz retrato psicológico de criador do FBI em "J. Edgar"

Cinebiografia relaciona conflitos pessoais de J. Edgard Hoover e seu polêmico legado à frente de uma das instituições mais poderosas dos EUA

Luísa Pécora, iG São Paulo |

Uma frase dita pelo diretor Clint Eastwood para justificar seu interesse pelo roteiro de “Os Imperdoáveis”, lançado em 1992 e considerado sua obra-prima, também oferece um bom resumo de seu novo filme, “J. Edgar”, que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (27): “Gostei do fato de os mocinhos não serem totalmente bons e os bandidos não serem totalmente maus”, explicou, em entrevista ao jornalista norte-americano Richard Schickel . “Todos têm seus defeitos, sua lógica e uma justificativa para o que fazem.”

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Leonardo DiCaprio em "J. Edgar": julgamento do personagem fica a cargo do espectador
Não é difícil imaginar o que atraiu Eastwood na cinebiografia de J. Edgard Hoover, o polêmico criador do FBI, a polícia federal norte-americana, e uma das personalidades mais importantes do século 20. Hoover é um típico personagem do diretor: um homem durão, solitário, marcado pelo passado e difícil de ser classificado apenas como bom ou mau.

Retratado em mais de uma dezena de produções para a TV e o cinema – a mais recente “Inimigos Públicos”, de Michael Mann –, Hoover ganha um retrato psicológico nas mãos de Eastwood e do roteirista Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por “Milk – A Voz da Igualdade”), que humanizam o personagem e deixam que o público, não o filme, julgue seu legado.

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Armie Hammer e Leonardo DiCaprio em "J. Edgar", o casal que nunca assumiu sua relação em público
É o próprio Hoover, interpretado pelo competente Leonardo DiCaprio, quem narra seus quase 50 anos à frente do FBI, ditando suas memórias a jovens agentes enquanto flashbacks recuperam investigações e acontecimentos de sua trajetória.

Apesar de o roteiro apostar em um bem elaborado vai-e-vem entre passado e presente, a estrutura do filme é basicamente linear. A história começa em 1919, quando Hoover, aos 24 anos e funcionário do Departamento de Justiça, insiste na necessidade de organizar e modernizar a busca por “subversivos”, e termina com sua morte em 1972, vítima de um ataque cardíaco.

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Neste intervalo, o filme mostra o papel fundamental de Hoover no fortalecimento do sistema de segurança dos Estados Unidos e como as brigas que comprou com políticos e a Justiça norte-americana transformaram o FBI na potência de hoje. Mas Eastwood e Black também escancaram as repetidas vezes em que o diretor da agência cometeu irregularidades e abusou do poder para solucionar casos, prejudicar inimigos e se manter no cargo durante os mandatos de oito presidentes.

A caça às bruxas de Hoover se mostra relevante e atual devido aos paralelos com a cultura de medo e paranoia que invadiu os EUA após os ataques de 11 de Setembro de 2001. A guerra ao terror declarada pelo então presidente George W. Bush (2001-2009) levou o país a discutir até que ponto era permitido passar por cima das liberdades individuais para garantir a segurança, um debate que também está em “J. Edgar”.

Troque os comunistas de Hoover pelos terroristas islâmicos de Bush e alguns diálogos soarão familiares: “Os crimes que estamos investigando não são crimes, são ideias”, diz um agente responsável por fichar suspeitos de “subversão”; “Às vezes é preciso violar uma regra para manter seu país seguro”, afirma Hoover, justificando ações polêmicas.

Fosse dirigido por um democrata notório de Hollywood – George Clooney, por exemplo –, talvez “J. Edgar” pudesse ser visto com um filme interessado em fazer campanha política. Mas Eastwood, um republicano que costuma assumir posições liberais em relação aos direitos sociais, concentra-se em mostrar como a vida pessoal de Hoover interferiu em sua trajetória profissional, como seus próprios dilemas e conflitos internos o levaram aos exageros e à tirania enquanto ocupava um dos cargos mais importantes do país.

nullHá poucas informações oficiais sobre Hoover (“um homem misterioso”, segundo definiu Eastwood ao jornal Le Monde), mas em “J. Edgar” ele é um homem reprimido e controlado desde a infância pela mãe, Anna (Judi Dench), de quem nunca deixou de depender emocionalmente e cuja figura se tornou quase uma obsessão. Hoover é, principalmente, um homem que luta contra a própria sexualidade, incapaz de admitir e viver uma história de amor com Clyde Tolson (Armie Hammer, de “A Rede Social”), o agente que esteve ao seu lado durante décadas - no FBI, em viagens e em eventos sociais - e herdou sua herança.

Os rumores sobre o casal nunca foram confirmados, mas “J. Edgar” trabalha com a ideia de que, mesmo se não houve um relacionamento formal, sem dúvida houve amor. Os laços entre Hoover e Tolson são mostrados de forma sutil, porém clara e direta, como uma questão fundamental para a compreensão do personagem.

O tema não deixa de ser surpreendente na filmografia de Eastwood, 81 anos, que se consagrou na tela grande como o ícone do macho norte-americano (embora personagens homossexuais tenham aparecido em filmes como “Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal”, de 1997). Inserida na obra recente do diretor, “J. Edgar” parece ser mais um passo de Eastwood em direção à desconstrução da própria imagem e à melhor compreensão da complexidade humana.

É uma pena que, desta vez, a identificação entre público e personagem não seja tão arrebatadora como em “Sobre Meninos e Lobos”, “Menina de Ouro” ou “Gran Torino”, talvez pelo fato de Hoover ser uma figura muito norte-americana e sem o mesmo carisma e apelo de Nelson Mandela, biografado por Eastwood em “Invictus”.

A péssima maquiagem usada para envelhecer os atores também atrapalha a história, funcionando como um poderoso corta-clima para o público e prejudicando principalmente a atuação de Hammer, impossível de ser levado a sério na versão idosa. As falhas tiram parte da força de “J. Edgar”, ignorado pelo Oscar 2012 , mas uma coisa é certa: mesmo um Clint menor ainda é um filme e tanto.

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