Cláudio Torres usa comédia romântica para garantir bilheteria

Diretor de "O Homem do Futuro" fala das concessões para se dar bem no mercado e da reciclagem da ficção científica

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Cláudio Torres virou um especialista em comédias românticas. Depois de fazer "A Mulher do Meu Amigo" (2008) e se dar bem com a "A Mulher Invisível" (2009), o diretor, filho dos atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres, achou no gênero sua galinha dos ovos de ouro. O novo fruto dessa obsessão é "O Homem do Futuro" , mistura de comédia com ficção científica, que entrou em cartaz neste final de semana no Brasil. Se a história não tem grandes ambições autorais – ele mesmo admite reciclar sucessos hollywoodianos –, ao menos tem um destino claro: o público, sua "cachaça".

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Cláudio Torres dirige Wagner Moura em "O Homem do Futuro": "O segredo foi filmar muito rápido", diz cineasta
Tudo começou com "Redentor", de 2004, longa de estreia do cineasta. A história com pitadas surrealistas estrelada por Pedro Cardoso foi bem recebida pela crítica, ganhou prêmios e foi assistida por "apenas" 290 mil pessoas nos cinemas, total de espectadores acima da média da grande maioria dos filmes brasileiros, mas aquém dos projetos com perspectivas comerciais.

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"Foi frustrante", contou Torres ao iG . "'Redentor' é um bom filme, interessante, mas um filme só paga seu custo de exibição se ultrapassar 700 mil espectadores. A partir disso, começa a ter algum lucro. Fica mais difícil arrumar dinheiro pro próximo filme se teu último não atingiu 600, 700 mil pessoas."

O diretor explicou existirem três vias para o cinema nacional: os filmes de olho no mercado estrangeiro, mirando festivais prestigiosos, como Cannes e Veneza ; as produções que agradam tanto brasileiros quanto gringos, caso de "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite" , bastante raras; e aquele caminho que identifica como sua praia, o mercado exclusivamente nacional.

"Miro no público brasileiro. Tento fazer com que a equação dê certo aqui, consiga atingir seu público, se pague e gere um outro filme. A comédia romântica é um gênero que dá certo no mundo inteiro, não só aqui. Os estúdios no Brasil compram a comédia romântica de você, os exibidores ficam felizes de ter uma para exibir e o público gosta porque tem o que fazer no final de semana."

Para isso, Torres reconhece que é preciso fazer algumas concessões. O final feliz, por exemplo, e uma trama amorosa são essenciais para que não haja rejeição do espectador. "Do contrário, são coisas que afastam público. Entenda: são importantes os filmes em que todos os personagens são sórdidos, em que o final é trágico. São importantíssimos. Só não estou a fim de fazer eles agora."

Ficção científica nacional

O modo de contornar a mesmice, segundo ele, foi colocar um "tempero fantástico" nos roteiros. "O cinema precisa ser um pouco pessoal pra dizer alguma coisa", admitiu. No caso de "A Mulher Invisível", foi a personagem de Luana Piovani . Em "O Homem do Futuro", a viagem no tempo.

O fato do Brasil não ter uma tradição de filmes de ficção científica não incomodou o diretor. Na opinião do Torres, o País tem, isso sim, predileção pelo que é estranho. "Acho que temos uma tradição de realismo fantástico. Tivemos novelas como 'Saramandaia', 'Roque Santeiro', mesmo 'Quincas Berro D'agua' , de Jorge Amado, o candomblé... Mas a ficção científico é um gosto pessoal mesmo. Sou fã desde garotinho, um mau hábito que prosseguiu na vida adulta [risos]."

O diretor disse ter certeza que tecnicamente os desafios do gênero eram possíveis, mesmo com um orçamento nem tão folgado (R$ 8 milhões). Nisso pesou a experiência da Conspiração Filmes, produtora da qual Torres é sócio, que, nos trabalhos com publicidade, ampliou bastante seu setor de efeitos especiais.

"Era só não abusar muito [dos efeitos], escolher cirurgicamente o momento", disse. "O segredo foi filmar muito rápido, seis semanas, sem desperdício. O roteiro que eu fiz foi o que a gente filmou, não joguei cena fora. Acho que fomos bastante objetivos, confiando que aquilo era pano de fundo para essa história existencial, romântica, dramática, chame como quiser, acontecer."

Reciclagem consciente

Ao longo da exibição de "O Homem do Futuro", se tem certeza de que a trama pegou emprestado muitos elementos de filmes do passado, como "De Volta para o Futuro", "Carrie, a Estranha" e "O Exterminador do Futuro". Torres afirmou ter consciência disso ao longo das filmagens. "Lógico, são homenagens", comentou. "Acontece isso em todas as artes – Rafael copiava Michelangelo; Brian de Palma, Hitchcock. Isso não é um problema. Alguém já disse que só existem dez histórias no mundo, só muda a maneira como se conta."

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Na seara da reciclagem consciente "O Homem do Futuro" é a série "O Túnel do Tempo", diz diretor
Nessa seara da reciclagem consciente, Torres foi ainda mais longe. "Descobri que estou refilmando meus seriados da infância. 'Mulher Invisível' é 'Jeannie é um Gênio', 'Homem do Futuro' é 'O Túnel do Tempo' e agora vou fazer 'A Feiticeira'." O diretor se refere a "As Bruxas", seu próximo projeto nos cinemas. A história envolve uma família de feiticeiras, interpretadas pela mãe do cineasta (Fernanda Montenegro), sua irmã (Fernanda Torres) e sua esposa (Maria Luísa Mendonça).

Com filmagens previstas para o final de 2012, o longa-metragem se situa em duas épocas – 1538 e os dias atuais – e pretende abordar o "caos feminino" que se passa na cabeça de uma mulher, quando uma das bruxas se casa com um sujeito. É um retorno, claro, à comédia romântica. "Acho que ainda não esgotei o gênero", opinou Torres.

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