Cláudia Ohana: 'Quero que gostem de mim, sou carente'

Atriz é protagonista de 'Novela das 8', filme ambientado no auge da febre disco e do fenômeno 'Dancing Days'

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Para toda uma geração, Cláudia Ohana é uma atriz de TV conhecida por seu trabalho em novelas e um ensaio "cabeludo" para a revista Playboy. Nem sempre foi assim. Na década de 1980, Ohana fez nada menos do que 13 filmes, boa parte deles com seu marido à epoca, o diretor Ruy Guerra. Mais de 20 anos depois, ela volta a protagonizar um longa-metragem, o abrangente "A Novela das 8" , que estreia nesta sexta-feira (30) em São Paulo e no Rio de Janeiro.

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Claudia Ohana em "A Novela das 8": doméstica em fuga no Rio de Janeiro

Situado no auge da febre disco e do fenômeno "Dancin' Days", o filme traz a atriz como a empregada de uma garota de programa (Vanessa Giácomo). Ela precisa fugir com a patroa depois da morte de um cliente. A trama gira em torno da oposição à ditadura, da caça aos dissidentes do regime militar e até do despertar sexual de um adolescente gay, numa mistura de histórias que procura homenagear a telenovela.

Gênero que tomou conta da carreira de Ohana desde "Vamp", um sucesso estrondoso há 20 anos e que marcou época. Antes disso, porém, ela era conhecida do público por filmes como "Ópera do Malandro", "Menino do Rio", "Beijo na Boca", "Luzia Homem" e "Erendira", este último um sucesso de crítica que disputou a Palma de Ouro de Cannes em 1984 e serviu como um trampolim para a atriz tentar uma carreira internacional.

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Apesar de seu desapego ao passado, como faz questão de ressaltar, Claudia Ohana lembrou em entrevista ao iG seus trabalhos no cinema, a carreira no exterior, o sonho de um dirigir um longa-metragem, o envelhecimento e sua relação com a crítica. "Quero que gostem de mim, sou uma carente", afirma.

AgNews
Cláudia Ohana durante entrevista em São Paulo
iG: "A Novela das 8" é o seu retorno a um papel principal no cinema desde o final da década de 1980. Por que demorou tanto tempo?
Cláudia Ohana:
Depois de "Vamp", entrei na televisão e nunca mais saí. Acho que os convites que me fizeram não eram tão diferentes, ou me chamaram e não pude fazer porque estava em alguma novela. Depois, com a retomada, já era outro tipo de cinema, um cinema meio documental... Não sei. Também fiz muito teatro, mas infelizmente não fiz mais cinema.

iG: Curioso porque até então você só fazia cinema.
Cláudia Ohana:
Eu não fazia mais nada, me dediquei muito ao cinema. Minha mãe [a montadora Nazareth Ohana] trabalhava em cinema, então nasci nisso, conhecia todo mundo, era meio turma. Aí comecei a fazer cinema fora também: depois de "Erendira" (83, filmado no México), comecei a me dedicar melhor à carreira internacional. Me lembro muito do Ruy [Guerra, cineasta com quem ficou casada entre 1981-1984], que falava, "Cláudia, você precisa ser conhecida no seu país". Eu não queria fazer uma novela, ficar nove meses presa a isso, não era o meu objetivo de vida. Mas fiz a primeira ["Amor com Amor Se Paga", 84], me dei mal, achei que não estava bem, e só depois de "Vamp" comecei a amar televisão. Mas eu nem acho que fazia bem: funcionava naquele papel, eu canto e tudo, mas todo mundo era muito canastra... (risos). Brincadeira.

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Cláudia Ohana em "Erendira" (84), de Ruy Guerra
iG: Como foi a sua experiência internacional?
Cláudia Ohana:
Primeiro fui chamada para fazer "Tieta" com a [diretora] Lina Wertmüller. Viajei para a Itália, aprendi italiano nessa época, mas o projeto não deu certo. Tinha dito não a "Erendira" por causa de "Tieta", mas daí fui ao México e deu tudo certo. Gabriel García Márquez ganhou o prêmio Nobel e foi uma coisa atrás da outra [o filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes]. "Erendira" foi um sucesso nos Estados Unidos e abriu portas à beça pra mim. Até hoje faço testes em Los Angeles para filmes por causa dele.

iG: Você tem um agente nos Estados Unidos?
Cláudia Ohana:
Não, tenho agente só em Paris.

iG: Ainda surgem muitos convites?
Cláudia Ohana:
Muitos, não. Duas profissionais de “casting” americanas gostaram muito de mim, uma da Universal e outra da Warner, então volta e meia faço testes. Fiz um filme francês ("Les Longs Manteaux", 86), outro em inglês com o Christopher Lambert, na Sardenha, chamado "Priceless Beauty" ("Desejo de Amar", 88). Morei na França, fiz um seriado francês. Investi bastante em mim nessa época, principalmente idiomas: aprendi italiano, inglês, francês, espanhol. A vida foi me levando, não que eu tivesse dito, "Ai, agora quer ser uma atriz internacional". Fui investindo naquilo que me aparecia. Todo mundo sonha em fazer um filme lá fora, assim como sonho em fazer um personagem maravilhoso numa novela ou dirigir um filme.

iG: Você já dirigiu um curta-metragem, "Embrulho para Presente" (2006).
Cláudia Ohana:
Sim, e espero dirigir outro agora. Já tem roteiro, escrevi com mais duas pessoas. Está andando, mas ainda é só projeto. É um pouco cinema de borda, chamo de "cinema mingau", que não vai no foco, fica na beiradinha. É um thriller, mas um cinema de mingau (risos). Sempre pensei em dirigir um longa, mas é duro, ter que produzir e tudo mais. Vamos ver. Mas não penso "vou dirigir": quando penso em escrever alguma coisa, penso em roteiro.

iG: O Ruy teve uma importância grande nesse aprendizado em fazer cinema?
Cláudia Ohana:
Acho que mais minha mãe. O Ruy tem um papel importantíssimo na minha vida, somos super-unidos, temos uma filha [a atriz Dandara Guerra] e muitos trabalhos juntos. Mas tudo é cinema. Somos que nem família de médico, sabe? Todo mundo na mesa comendo e falando de cinema. Minha filha está trabalhando como assistente de direção, dirigiu um curta. A Janaína, outra filha do Ruy [do casamento com Leila Diniz], também é diretora. Todas nós respiramos cinema.

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Cláudia Ohana em cena de "Novela das 8"

iG: Justamente por isso, você se sente instigada a fazer TV hoje em dia?
Cláudia Ohana:
A televisão tem uma resposta muito imediata, dependendo se é um bom personagem. Ela também te dá a oportunidade de brincar, fica entre o cinema e o teatro. E é rápida, tem cenas que você faz bem, outras mal, pode jogar muita coisa fora. Depois você vai para a rua e vê a resposta do público. E a televisão é feminina, os grandes papéis são femininos – Manoel Carlos, Gilberto Braga. No cinema, não.

iG: Como foi a sua experiência fora da Globo, no SBT, em 2003?
Cláudia Ohana:
Foi uma experência legal, mas não tinha muita infra, como a Globo tem. A Globo tem uma vontade de ganhar no Ibope que é muito legal. Estão realmente buscando qualidade, como em "Cordel Encantado".

iG: Como essa briga por Ibope chega no ator?
Cláudia Ohana:
Não é uma cobrança explícita, mas através do diretor, dos atores. Primeiro chega na forma do personagem. Sabe "Corrida Maluca"? Reúnem-se os atores, os personagens... Você sabe que o seu não é enorme, mas quando é dada a largada, sai tipo cavalo, querendo ganhar seu espaço. Coisa que o filme não tem, porque a novela é uma obra aberta, não se sabe como vai acabar. Aí às vezes o personagem diminui e você fala, "ninguém gosta de mim", ou aumenta e seu ego vai lá para cima (risos). E quando a novela vai dando certo, o clima é outro, fica muito bom.

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Ney Latorraca e Cláudia Ohana em "Vamp"
iG: Alguns dos seus filmes foram bem recebidos, outros nem tanto. Como é a sua relação a crítica?
Cláudia Ohana:
Acho que sempre fui bem recebida. Poucas vezes me ofenderam. Lembro na "Ópera do Malandro", quando falaram que eu cantava mal. Pensava, "meu Deus, só estão implicando, eu canto bem à beça" (risos). Mas aí fui para a França, onde tinha passado "Erendira" e "Les longs manteaux", falaram muito bem de mim. Baixam o ego aqui e levantam lá. Mas eu gosto de boa crítica. Quero que gostem de mim, sou uma carente (risos).

iG: Você gosta de se ver na tela?
Cláudia Ohana:
Depende. Em filme, gosto. Na TV, só vejo sozinha. Entrevista, só depois que alguém me fala que estou bem. E depois não revejo. Nem nada meu do passado, não tenho a menor vontade. E acho tétrico as pessoas ficarem vendo. Não tenho nem foto antiga em casa. Sou desapegada do passado.

iG: Curiosamente a maior parte do seu trabalho no cinema está no passado.
Cláudia Ohana:
É outra história. Claro que tenho um pôster imenso de "Erendira" na minha casa. É lindo, mas pô, tem anos! Por que ficar vendo? Só quando se faz mudança, né, a gente fica vendo fotos dos álbuns. Mas o ator ficar vendo seus próprios filmes? Isso é "Crepúsculo dos Deuses" [filme de Billy Wilder que trata de uma atriz decadente na passagem do cinema mudo para o falado].

iG: É interessante você falar da passagem do tempo porque você não esconde as marcas de expressão no rosto, não tem a pele esticada. Já pensou em fazer plástica?
Cláudia Ohana:
Já pensei em fazer, sim, mas meu Narciso não chega a tanto. Eu ainda gosto de mim. Acho que tenho algumas coisas – estou mais velha, com rugas, inchada nos olhos, sei lá – que poderia arrumar. É muito difícil para uma mulher muito bonita envelhecer. Acho que o complicado é perder o poder da beleza e juventude, e claramente há um poder. O público pode ser muito cruel com o envelhecimento. Vi "Comer, Rezar, Amar" e uma mulher do meu lado ficava falando, "olha a Julia Roberts está velha, cheia de ruga". Então não se pode envelhecer, o público odeia. Principalmente mulher.

iG: Você desde o início embarcou na ideia do diretor Odilon Rocha, de tentar homenagear a telenovela em "A Novela das 8"?
Claudia Ohana:
É um folhetim. Mas o que me atraiu na história foi o personagem e poder voltar àquela época. Tem muito também da minha mãe, acho, que morreu nesse ano, 1978. Eu tinha 15 anos e comecei fazendo figuração justamente em "Dancin' Days". E voltar a fazer cinema, mas com uma interpretação sutil. A maioria dos personagens que já fiz são muito fortes: vampira ("Vamp"), caminhoneira ("A Favorita"), vaqueira (o filme "Luzia Homem")... E eu desse tamanhozinho. Esse novo personagem tinha uma interpretação miúda.

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