Cinema do Equador desponta com foco em imigração e ajuda do governo

Experiências de imigrantes latinos inspiraram filmes atualmente em cartaz no país

BBC Brasil |

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O ator Peky Andino em "Prometeu Deportado"
Menos conhecido do que os seus vizinhos da Argentina, do Brasil e do México, o cinema equatoriano começou a despontar em 2010 com ajuda do governo e focalizando um tema comum: a imigração. O fenômeno é tratado em três filmes em cartaz no país, que contam histórias de imigrantes equatorianos que tentam viver em países europeus ou nos Estados Unidos. No entanto, trazem pontos de vistas diferentes sobre a situação que atinge 3 milhões de equatorianos – ou 22% da população do Equador, segundo dados do governo.

Em parte, os filmes são baseados em experiências dos próprios diretores e produtores. O filme "Prometeu Deportado", de Fernando Mieles, começa com um avião do Equador chega à Europa. Na fila de passaportes, os equatorianos são detidos, interrogados e revistados. Por fim, têm seus passaportes confiscados e são levados a uma sala de espera.

Uma situação semelhante foi vivida pelo diretor do filme em 1993, quando estava a caminho de Portugal para participar de um workshop de roteiristas. Na Espanha, após um exaustivo interrogatório, Mieles foi deportado porque não tinha uma passagem de volta para seu país.

Mieles disse à BBC que colocou no processo de filmagem elementos da situação que viveu. Segundo ele, não há fontes de luz natural na sala de espera para onde os passageiros equatorianos são levados para transmitir a sensação que teve de aprisionamento e confusão.

"A única impressão que você tem em uma situação dessas é a de que você não é uma pessoa, e sim um número em um passaporte", diz. "Se seu passaporte desaparece, você pode desaparecer também."

Mundo paralelo

O fenômeno da imigração em larga escala no Equador teve início após uma grave crise financeira que atingiu o país no final dos anos 1990, quando milhares de equatorianos foram tentar a sorte em países como Estados Unidos, Espanha e Itália. A imigração continua sendo um fator importante no país, mas o fenômeno só começou a ser debatido de forma mais ampla no Equador recentemente, e o sucesso dos três filmes é um reflexo disso.

Em termos de estilo, os filmes se contrastam. "Rabia" é um thriller que conta a história de um imigrante latino-americano que trabalha em uma construção na Espanha e mata seu chefe durante uma briga. Com medo, o personagem se esconde na mansão em que sua namorada trabalha como empregada doméstica, sem que ela saiba.

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"Rabia" retrata equatorianos na Europa
O filme já ganhou diversos prêmios e seu diretor, Sebastian Cordero, diz que o personagem retratado vive nas sombras, em paralelo a outra sociedade. "Algo que sempre chama minha atenção na Europa e nos Estados Unidos é que você tem dois mundos co-existindo. Na Espanha, por exemplo, há cidadãos de primeira classe e um mundo quase invisível em paralelo a este."

Histórias trágicas

Já "Zuquillo Express", de Carl West, é uma comédia, uma adaptação de uma série de TV popular no país, em que quatro personagens tentam chegar aos Estados Unidos pela fronteira com o México com ajuda de um coiote, como são chamados os contrabandistas especializado em conduzir pessoas na travessia ilegal entre os países.

Apesar de ser tratado no filme com bom humor, o assunto ganhou contornos trágicos após o massacre de 72 imigrantes ilegais – que estavam a caminho dos Estados Unidos – no México em agosto de 2010, entre eles vários equatorianos.

Segundo a repórter da BBC em Quito Irene Caselli, o crescimento dos filmes sobre imigração no Equador se deve também a incentivos financeiros que o governo de Rafael Correa dá, desde 2007, a produções sobre o tema. Correa criou a Secretaria Nacional de Migrantes (Senami), que iniciou uma campanha chamada "Somos Todos Imigrantes", que, por sua vez, ajudou a financiar filmes como "Prometeu Deportado".

A diretora da Senami, Lorena Escudero, diz que o cinema tem um papel crucial na promoção do diálogo sobre o tema imigração. "O fenômeno da migração é tão profundamente humano que, para melhorar a situação destas pessoas, não podemos abordá-lo somente do ponto de vista político", diz. "Precisamos falar sobre quem faz parte dele e o cinema nos ajuda a fazer isso."

O produtor de "Prometeu Deportado", Oderay Game, diz que a imigração é o acontecimento sociológico, cultural, emocional e econômico mais importante do Equador nos últimos 15 anos. "Não temos falado muito disso, mas é uma realidade. Em determinado momento, a Sérvia estava fazendo filmes sobre a guerra e a Colômbia, sobre violência. Chegou a hora de falarmos sobre a imigração aqui."

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