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Cinco Vezes Favela vence Paulínia

Filme coletivo levou sete prêmios e Leite e Ferro foi eleito melhor documentário

Marco Tomazzoni |

A terceira edição do Festival de Paulínia foi arrebatada por Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos na noite desta quinta-feira (22), durante a cerimônia de encerramento, que contou com a pre-estreia de 400 contra 1 . O longa-metragem de episódios, dirigido por cineastas provenientes de comunidades de morros do Rio de Janeiro, levou sete troféus Menina de Ouro, incluindo o prêmio de melhor filme pelo júri, no valor de R$ 150 mil, e do público. Leite e Ferro , de Cláudia Priscilla, venceu nas categorias de melhor documentário e direção de documentário. Bróder , de Jeferson De, conquistou o prêmio da crítica.

Realizado a partir de oficinas com jovens interessados em fazer cinema, Cinco Vezes Favela contou com a orientação de Cacá Diegues e da produtora Renata de Almeida. O longa embolsou R$ 250 mil por todos os prêmios que recebeu, de um total de R$ 650 mil distribuído pelo festival na premiação. “Estou entrando para a história de Cidade de Deus, bairro onde nasci, que só via cantores e jogadores de futebol se darem bem. Agora tem também atores e diretores de cinema”, comemorou Rodrigo Felha, um dos cineastas do episódio Arroz com Feijão .

Malu de Bicicleta , baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, recebeu três importantes prêmios da noite: melhor direção de ficção (Flávio Tambellini), ator (Marcelo Serrado) e atriz (Fernanda de Freitas). “Dedico esse prêmio ao cinema brasileiro, a todos nós que temos esse sonho”, disse Tambellini no microfone. Muito emocionada, às lágrimas, Fernanda ofereceu o prêmio aos pais (que tiravam fotos na beira do palco).

O documentário Lixo Extraordinário , aplaudido de pé ontem, durante sua exibição, recebeu o prêmio especial do júri e do público, feito que já havia conseguido nos festivais de Sundance e Berlim. Presidente da associação dos catadores de Jardim Gramacho, aterro onde o artista Vik Muniz desenvolveu seu projeto de criação de obras de arte a partir do lixo, Tião mais uma vez chorou em Paulínia. “Ser premiado lá fora e não aqui dentro ia ser um vazio muito grande. O reconhecimento de seu público, que vive no seu país, fala sua língua, é o prêmio mais importante.”

Na competição de curtas, Eu Não Quero Voltar Sozinho , de Daniel Ribeiro ( Café com Leite ), foi o grande vencedor, com quatro prêmios, incluindo os do júri, do público e da crítica. A história aborda um garoto cego que descobre estar gostando de um colega de escola. “É meio irônico, esse filme é gay e estou levando um monte de meninas para casa”, brincou o diretor, se referindo ao nome do troféu, além de agradecer o espaço nobre para o formato curta-metragem. “A experiência de dividir o filme com vocês numa tela desse tamanho não tem Youtube que resolva.”

Derrapadas comprometem credibilidade

A consagração de Cinco Vezes Favela confirma uma tendência descoberta no festival, um novo tipo de cinema em ascensão no país. Como Jeferson De declarou durante debate de Bróder , que enfoca a periferia de São Paulo, uma “revolução irreversível está em curso” no Brasil, na qual realizadores que não produziam conteúdo audiovisual passam agora para trás das câmeras. As periferias finalmente conseguem se expressar, e demonstram talento e qualidade, com grande apelo popular.

Em seu terceiro ano, Paulínia vai ficando pé no calendário dos festivais brasileiros com uma infra-estrutura que impressiona. Os espaços de convivência, o material gráfico, os estúdios do pólo cinematográfico novos em folha, tudo reflete a pujança de recursos da prefeitura. Até o público compareceu em bom número, lotando quase todos os dias o Theatro Municipal e seus mais de mil assentos. Só os debates dos filmes em competição, no dia seguinte a que foram exibidos, não tiveram muito sucesso – os jornalistas eram maioria absoluta, apesar da ideia ser boa.

O grande porém, e que compromete todo o resto, é a curadoria. A seleção de curtas-metragens – Ensolarado , Eu Não Quero Voltar Sozinho – e de documentários – Leite e Ferro , Uma Noite em 67 (grande esquecido da premiação) – conseguiu pontos altíssimos, mas a lista de concorrentes a longa de ficção teve derrapadas imperdoáveis. Não há motivo que justifique a escalação de As Doze Estrelas e Dores & Amores , dois exemplos do que de pior pode ser feito com dinheiro público a partir de editais.

O diretor do festival, Ivan Melo, havia afirmado que não queria que o evento fosse reconhecido através de celebridades, mas sim pela qualidade dos filmes na programação. Desse jeito, vai ser difícil construir uma credibilidade e levar Paulínia a sério. Ainda bem que o júri ignorou solenemente as duas produções.

Veja a lista de completa dos premiados no Festival de Paulínia 2010:

Filmes de longa-metragem
Melhor filme de ficção: Cinco Vezes Favela
Melhor documentário: Leite e Ferro
Melhor diretor (ficção): Flávio Tambellini, por Malu de Bicicleta
Melhor diretor (documentário): Cláudia Priscilla, por Leite e Ferro
Melhor ator: Marcelo Serrado, por Malu de Bicicleta
Melhor atriz: Fernanda de Freitas, por Malu de Bicicleta
Melhor ator coadjuvante: Márcio Vito, por Cinco Vezes Favela
Melhor atriz coadjuvante: Dila Guerra, por Cinco Vezes Favela
Melhor roteiro: Cinco Vezes Favela , por Rafael Dragaud
Melhor fotografia: Bróder , por Gustavo Hadba
Melhor montagem: Cinco Vezes Favela , por Quito Ribeiro
Melhor som: Bróder , por Miriam Biderman e Ricardo Reis
Melhor direção de arte: Bróder , por Alessandra Maestro
Melhor trilha sonora: Cinco Vezes Favela , por Guto Graça Mello
Melhor figurino: Desenrola , por Marcia Tacsir
Prêmio Especial do Júri: Lixo Extraordinário

Filme de curta-metragem – nacional
Melhor filme: Eu Não Quero Voltar Sozinho , de Daniel Ribeiro
Melhor direção: Tempestade , de César Cabral
Melhor roteiro: Eu Não Quero Voltar Sozinho , de Daniel Ribeiro

Filme de curta-metragem – regional
Melhor filme: Depois do Almoço , de Rodrigo Diaz Diaz
Melhor direção: Um Lugar Comum , de Jonas Brandão
Melhor roteiro: Depois do Almoço , de Elzemann Neves

Júri Popular
Melhor longa de ficção: Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos
Melhor documentário: Lixo Extraordinário , de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley
Melhor curta metragem nacional: Eu Não Quero Voltar Sozinho , de Daniel Ribeiro
Melhor curta-metragem regional: Meu Avô e Eu , de Caue Nunes

Prêmio da Crítica
Melhor longa-metragem: Bróder , de Jeferson De
Melhor curta-metragem: Eu Não Quero Voltar Sozinho , de Daniel Ribeiro

* o repórter viajou a convite do festival

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