Cinco Vezes Favela é autêntico retrato do Rio

Vida nos morros cariocas é registrada em episódios do longa-metragem, exibido no Festival de Paulínia

Marco Tomazzoni |

Divulgação
A pipa é estrela de um dos episódios de Cinco Vezes Favela - Agora Por Nós Mesmos
Quase cinquenta anos depois, um dos projetos mais importantes do cinema brasileiro volta à baila reformulado. Cinco Vezes Favela (1962), filme fundamental do Cinema Novo, inspirou um novo longa-metragem de episódios, Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos , exibido fora de concurso em Cannes e ontem, na competição do Festival de Paulínia. Como o próprio nome sugere, no lugar de diretores engajados do Centro Popular de Cultura (CPC), na década de 1960, entraram profissionais das próprias comunidades cariocas, sob orientação de Cacá Diegues, envolvido no original. O resultado transpira autenticidade.

Ao contrário do original, com forte ar de denúncia, quase documental, aqui a maioria das histórias é repleta de alegria e bom humor. As dificuldades do dia-a-dia no morro estão lá, mas não há pena, ainda bem: o jeitinho brasileiro se encarrega de fazer aquele drible, sempre com dignidade exemplar. Como o ator Gregório Duvivier lembrou em conversa com a imprensa, "a pobreza não é melancólica: é trágica ou alegre". No episódio Arroz com Feijão (dirigido por Rodrigo Felha e Cacau Amaral), dois garotos querem arranjar dinheiro para comprar de um hilário Ruy Guerra, em participação especial, um frango para o aniversário do pai de um deles.

Deixa Voar (Cadu Barcellos) retrata como atravessar uma ponte que une dois bairros diferentes pode ser perigoso, e a importância que tem uma pipa para os jovens. Acende a Luz (Luciana Bezerra), talvez o melhor, mergulha fundo no senso de comunidade que permeia todo o filme e faz dele o protagonista ao mostrar um grupo de vizinhos sem luz na véspera do Natal.

Divulgação
Cacá Diegues e as atrizes Roberta Rodrigues e Cíntia Rosa apresentam o filme no festival
A felicidade fica um pouco de lado em Fonte de Renda (Manaíra Carneiro e Wagner Novais), sobre um rapaz que consegue passar no vestibular para a faculdade de Direito, mas, sem dinheiro para custear os estudos, apela para o tráfico. O mundo das drogas aparece com violência ainda maior em Concerto para Violino . Três amigos de infância se vêem em mundos completamente diferentes – um é traficante, outro policial e fechando o triângulo, uma violinista – quando estoura a guerra pelo comando do morro.

Tecnicamente, o filme é um primor, embebido na estética televisiva que todo mundo conhece de Cidade de Deus e da série Cidade dos Homens . "A proposta era dar melhor a condição possível para o filme que se queria realizar, era fundamental tirar essa ideia de gueto", afirma a produtora Renata Almeida Magalhães. Alguém até poderia voltar a perguntar o porquê do cinema brasileiro insistir em retratar a vida de uma favela, mas nesse caso os sete diretores vieram dessa realidade – da mesma forma, também ia existir quem questionasse o fato de eles fazerem o contrário.

E não se pode falar de lugar-comum, porque os roteiros, escritos em oficinas nas comunidades – com certa ingenuidade, há de se dizer –, buscam vieses diferentes do que se vê por aí, com a esperança como característica central. Oficinas, aliás, que levaram 150 amadores para o set, entre técnicos e elenco. Um trabalho de qualidade, portanto, com importância social inegável, que estreia em breve: graças a uma parceria com a Sony e RioFilme, o filme consegue espaço no circuito exibidor e chega às telas do país em 27 de agosto.

* o repórter viajou a convite do festival

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG