Chico Buarque dribla tietagem na Flip e engrena belo debate com Hatoum

PARATY ¿ Só de entrar na Tenda dos Autores, já dava para perceber que algo estava diferente. A quantidade de fotógrafos na beira do palco, os cinegrafistas amontoados ao fundo e a ausência de qualquer lugar vago na plateia denunciavam: Chico Buarque estava para chegar. A maior estrela da sétima edição da Flip participou nesta sexta-feira (03) da última conferência do dia, ¿Sequências brasileiras¿, e ao contrário do que se imaginava, a presença do astro não ofuscou nem um pouco seu companheiro de mesa, Milton Hatoum, apesar da constelação de flashes que pipocou entre as cadeiras quando o compositor adentrou o recinto. Mediados pelo professor Samuel Titan Jr., os dois protagonizaram um brilhante painel sobre suas últimas obras, publicadas neste ano.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

AE

"Escrever é muito chato", brincou Chico, em noite bem-humorada na Flip

O curioso, e que inspirou a reunião do par em Paraty, são as similaridades entre os trabalhos os livros. Tanto Órfãos do Eldorado, de Hatoum, e Leite Derramado, de Chico, são narrados por velhos centenários, atordoados por personagens femininas envolventes e marcantes. As coincidências são tão fortes que Chico confessou ter pensado, ao ler a novela de Hatoum: Diabo, esse cara copiou meu livro! E ainda lançou mais rápido, em março, brincou. Mais tarde, bem à vontade, voltou à carga: Imaginação não existe, tudo já estava no Google. No meu e no seu.

Encomendado por uma editora escocesa, Órfãos do Eldorado começou através de uma história que Hatoum vivenciou na infância e ficou latejando na memória. Já havia escrito metade do livro quando percebeu que se encaminhava para um épico de 200 páginas, embora seu limite fosse de 25 mil palavras. Como resultado, precisou parar tudo, repensar o narrador e a narrativa para concluir o projeto. Foi uma angústia, tinha só um ano para acabar. Nunca mais faço encomenda, nem de bilhete.

Acostumado às estruturas mais robustas de seus romances anteriores ¿ Cinzas do Norte, Dois Irmãos ¿, o escritor precisou acomodar em pouco espaço uma trama que trabalha com o mito amazonense do Eldorado, a cidade encantada, e se desenrola por mais de um século, desde a Guerra da Cabanagem, na década de 1830. Foi um exercício de concisão escrever uma novela. Juntar tanta coisa foi como transformar toda uma construção amazônica em uma palmeira nua.

Das pesquisas para ambientar o livro, se preocupou em não se basear pura e simplesmente nas lendas da região, onde nasceu. O objetivo, segundo Hatoum, era partir do popular para chegar à sua própria história. A ideia era escrever um relato em que o mito se transformasse em uma narrativa de ficção, realista. Quando o mito começa a perder sua crença, aí torna-se ficção.

Chico disse não saber exatamente quando o velho Eulálio, de Leite Derramado, surgiu. Contou que, ao contrário dos escritores, quando termina um romance não quer mais saber de literatura. Como haviam se passado seis anos desde Budapeste, teve que reaprender como se escreve um livro e começou, curiosamente, lendo sobre barcos e as crônicas verídicas de um certo navio francês que viajava pela costa brasileira. O estalo se deu quando ouviu uma música sua que julgava esquecida, Velho Francisco, regravada por Monica Salmaso. Naquela letra de um velho contando histórias, com memória remota, encontrei meu narrador.

A partir daí, chegou ao enredo, no qual um aristocrata decrépito em uma casa de hospital relembra, em um vai-e-vem de imagens confusas, as glórias da família, em berço de ouro desde os tempos do Império, e a derrocada emocional e financeira depois de seu casamento na juventude. Tão enxuto quanto o livro de Hatoum, Leite Derramado foi até motivo de piada para Chico. Escrever é muito chato. Sem a fonte grande e o espaçamento, seria um livro honestamente com 150 páginas. Se tirasse tudo que o sujeito repete, então, ficaria com 20.

O trânsito fácil com as décadas passadas ¿ a ação da história se passa boa parte em 1929 ¿ se deve, mais do que à pesquisa, ao próprio passado de Chico e à convivência com seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda. Com a idade, a gente começa a ter intimidade com o passado, lembranças claras. E como filho de historiador, lembro das coisas que ele falava. Papai gostava muito de fofoca e conversava com os amigos essas histórias que não estão nos livros.

Respondendo às perguntas do plateia, o compositor não conseguiu fugir do assunto e sim, falou de música, mas para falar que quando escreve, não mexe com nada disso nem ouve coisa alguma. Não vejo ligações maiores entre letra das músicas com literatura, apesar de preciso ver se as frases são cantaroláveis em algum lugar da minha cabeça. Ao mesmo tempo, confessou que não consegue ver uma hierarquia de qual arte é mais importante. Não sei se Guimarães Rosa é mais importante do que João Gilberto, e não sei se algum dia vou saber.

AE

Cercado por seguranças, o escritor e compositor Chico Buarque deixa a sessão de autógrafos

Cercado por seguranças, Chico Buarque deixa sessão de autógrafos após o debate

Neste sábado, a programação começa com o debate sobre música com o crítico do New York Times Alex Ross, segue para o aguardo encontro entre os franceses Sophie Calle e Grégoire Bouillier e traz ainda dois dos principais convidados desta Flip: Gay Talese e António Lobo Antunes. O quarto dia em Paraty promete. Veja a agenda:

- 10h, Mesa 11: "O dissonante século XX"
Alex Ross
Mediação: Arthur Dapieve

- 11h45, Mesa 12: "Entre quatro paredes"
Sophie Calle
Grégoire Bouillier
Mediação: Angel Gurría-Quintana

- 15h, Mesa 13: "Segredos de família"
Anne Enright
James Salter
Mediação: Liz Calder

- 17h, Mesa 14: "Fama e anonimato"
Gay Talese
Mediação: Mario Sergio Conti

- 19h, Mesa 15: "Escrever é preciso"
António Lobo Antunes
Mediação: Humberto Werneck

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