Charlize Theron, forte o suficiente para jogar pesado

Atriz protagoniza "Jovens Adultos", que estreia nesta semana no Brasil

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A atriz Charlize Theron
Pode haver mulheres mais bonitas do que Charlize Theron em Hollywood, embora seja difícil pensar imediatamente em alguma que possa estar à altura dela e ainda mais difícil pensar em uma que dependa menos de sua aparência.

Theron, cujo novo filme "Jovens Adultos" , dirigido por Jason Reitman, estreia nesta sexta-feira (dia 6) no Brasil, é uma verdadeira estrela - com um glamour semelhante ao de Marilyn Monroe - e ainda assim ela cumpre seu papel como se fosse uma atriz típica. Entre um filme e outro, raramente mantém a mesma aparência, e não apenas naqueles em que se transformou de maneira mais óbvia. Para representar a serial killer Aileen Wuornos em "Monster" (2003), por exemplo, ela ganhou 18 quilos, raspou as sobrancelhas e usou uma prótese dentária.

Um exemplo melhor é "No Vale das Sombras" (2007), no qual ela interpreta uma detetive policial objetiva. Seu cabelo castanho (sua cor natural, ao que parece, não é o loiro platinado que se tornou sua marca registrada) permanece preso, ela usa pouca maquiagem e demora um pouco para que a audiência perceba que se trata de Theron.

Em "Jovens Adultos", Theron é Mavis Gary, uma das protagonistas mais detestáveis a chegar ao cinema nos últimos anos. O filme não é como "Monster", mas a personagem é monstruosa à sua maneira e em alguns aspectos ainda menos simpáticos do que Wuornos. Ela é uma escritora divorciada de pouco sucesso entre jovens adultos que, ao saber que seu antigo namorado (Patrick Wilson) e sua esposa acabaram de ter um bebê, decide voltar para a sua cidade natal em Minnesota, acabar com o casamento e reconquistá-lo. A personagem é linda e sabe disso, mas no decorrer do filme sua aparência parece se tornar apenas outro emblema de sua superficialidade e auto-estima.

O roteiro é de Diablo Cody (vencedora de um Oscar por "Juno"), que disse recentemente ter ficado surpresa que o filme tenha sido feito quase exatamente como ela escreveu no clima atual, sem nenhum retoque hollywoodiano. "Eu acho que as pessoas não mudam muito", disse. "Eu acho que quero acreditar que muitas pessoas têm um lado que é como Mavis. Eu tenho. Eu penso nas experiências que eu tive ou coisas que eu perdi e ainda me sinto amarga."

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Charlize Theron está em 'Jovens Adultos', filme que estreia no Brasil


Durante o chá em um hotel em Nova York em novembro, Theron perguntou a si mesma: "Será que sou louca por fazer este filme? Eu achei o material arriscado desde o começo, mas sou muito grata pela oportunidade".

O que mais a atraiu ao projeto, acrescentou, foi a oportunidade de trabalhar com Reitman. "Estou escolhendo diretores", disse ela. "Eu estou trabalhando nesta profissão há 17 anos, e depois de todo esse tempo você começa a entender com o quê pode contribuir. Eu cheguei a um ponto em que não quero contribuir com apenas o que já tenho. Eu quero trabalhar com alguém que possa me levar a um nível ao qual eu não posso chegar sozinha e eu não acho que isso é possível com qualquer diretor. Jason é uma das poucas pessoas incrivelmente talentosas desse mercado que podem fazer você criar coisas que você não poderia fazer sozinho."

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Charlize Theron em 'Monster'
A natureza exata da colaboração entre Reitman e Theron é um pouco misteriosa. Ele odeia ensaios ainda mais do que ela, e a maioria das cenas do filme foi filmada em apenas uma ou duas tomadas. Tudo o que Reitman fez para preparar Theron para o papel foi enviar-lhe as primeiras temporadas de "The Hills", "My Super Sweet 16" e "Laguna Beach" - séries veiculadas na MTV americana.

"Foi uma alegria", disse ele sobre o filme. "Eu sei que todo diretor diz isso, mas é verdade. É maravilhoso quando um ator e um diretor fazem exatamente o mesmo filme. Ela e eu estávamos tão unidos em nossa visão de Mavis Gary que foi realmente uma alegria."

Perto do fim de "Jovens Adultos" há uma cena em que uma Mavis embriagada perde o controle em uma festa de uma forma que é quase embaraçosa demais para se assistir. "É uma grande lição de atuação", disse Reitman sobre o desempenho de Theron. "Essa cena não foi regravada. Uma câmera de mão segue de dentro da casa para o exterior durante cinco minutos consecutivos de atuação, e todos na equipe estavam ali, sentados com as mãos sobre o rosto. Eu senti isso poucas vezes na minha carreira. Nesses momentos, você sente que não está mais fazendo um filme. Você já está na plateia, assistindo."

Uma palavra que sempre aparece quando as pessoas falam sobre Theron é "forte". "Ela é tão estável, tão forte", disse Reitman. "A primeira vez que eu a conheci, tive um certo medo, para ser honesto." Patti Jenkins, que dirigiu "Monster", disse: "Eu podia ver através da beleza e eu sabia que ela era forte. Senti uma mulher muito poderosa."

Fora das telas Theron, 36, é simples, muitas vezes comum em sua escolha de vocabulário, mas pouco grande ou formidável. "Eu realmente não entendo a 'celebridade'", explicou. "Se eu tiver de falar em público, eu tenho um pequeno derrame." Ela sugere que toda a força que tem vem de sua mãe, Gerta, que atualmente vive a poucos minutos de Theron, em Los Angeles. "Eu tive uma base forte e valores", disse. "E minha mãe deixou bem claro que nada disso tem relação com a minha aparência".

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Charlize Theron em 'No Vale das Sombras'
Theron cresceu em Benoni, uma cidade na África do Sul não muito longe de Johanesburgo, onde seus pais eram donos de uma empresa de construção de estradas. Quando adolescente, sua mãe atirou e matou seu pai, Charles, um violento alcoólatra. (Ela nunca foi processada.) E embora Theron fosse apenas uma criança, Gerta a encorajou a deixar o país para perseguir seu sonho de se tornar bailarina.

"Era isso. Isso era tudo o que eu queria fazer. Foi só anos mais tarde que eu percebi que amava a dança porque através dela estava atuando. Eu não era tecnicamente excelente, mas consegui papéis principais porque quando eu morro, eu morro, e quando eu fico louca, eu fico louca."

Theron foi boa o suficiente para ser contratada pela companhia Joffrey Ballet de Nova York, mas era provavelmente alta demais para ser bailarina e com o tempo isso se tornou perceptível. Aos 19 anos, ela estava cheia de machucados. "Eu tinha os joelhos de uma mulher polonesa de 89 anos de idade", disse.

Foi Gerta quem sugeriu que ela tentasse a sorte em Hollywood, embora Theron confesse agora que nenhuma delas tinha a menor ideia de como a indústria funcionava. "Foi ingenuidade pura", lembrou. "Foi perto do Natal, estávamos sentadas no meu apartamento sem janelas e lá fora fazia -50ºC e eu estava comendo 4 litros de sorvete por dia, porque estava deprimida. Então minha mãe disse: 'Bem, e que tal atuar?' Sua filosofia sempre foi a de seguir com a vida. Ela é contra varrer tudo para debaixo do tapete, mas acredita que varrer metade já ajuda".

Em seus primeiros filmes, Theron interpretou principalmente loiras, doces e de pernas compridas. Em "Celebridades" (1998), de Woody Allen, seu personagem é apropriadamente chamado Supermodelo. Ela conseguia atuar se o papel exigisse, como em "Regras da Vida" (1999) - e, milagrosamente, ela se livrou de seu sotaque africano -, mas nada sugere o tipo de desempenho que ela teve em "Monster", que lhe valeu o Oscar de melhor atriz em 2004 e provou ser um divisor de águas em sua carreira.

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A atriz Charlize Theron


Jenkins disse que contratou Theron depois de assistir seu trabalho em "Advogado do Diabo" (1997), no qual ela interpretou a mulher de Keanu Reeves. "Não foi uma escolha óbvia ou rápida porque não há ninguém como Aileen, mas senti em Charlize uma bravura real e um talento presente", lembrou. "Não é o que você esperaria de uma mulher tão bonita, que parece uma modelo".

Theron disse que hesitou antes de aceitar o papel, acrescentando: "Eu não tinha certeza se seria capaz. Eu estava esperando há 10 anos por uma oportunidade como essa, mas foi preciso uma louca como Patti Jenkins para dizer: 'Você pode fazer isso'. Ela realmente abalou minha essência."

Como fez o que fez naquele filme ou em outros posteriores é algo sobre o que Theron prefere não pensar muito. "Eu não quero soar pretensiosa", disse ela, "mas quando um pintor pinta, ele sabe como faz? Há muito sobre atuar que eu não entendo."

Ela chegou a flertar com o Método, explicou, mas desistiu porque ele a deixava fisicamente mal: "Eu não gosto de viver no tumulto, no drama, na escuridão e na feiúra o tempo todo. Eu não tinha vida e eu entrei em uma depressão enorme. Pensei que se era isso o necessário para ser uma boa atriz, então eu não queria ser uma."

Levou algum tempo para que ela percebesse que poderia usar sua compreensão inata das pessoas e de suas vidas interiores. Muitas coisas ruins aconteceram com ela, explicou, usando uma expressão mais colorida. "Para mim é fácil acessar estes sentimentos", disse, "mas eu não preciso de vivê-los."

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