Catherine Deneuve estrela "Potiche", uma comédia feminista

Adorável, filme de François Ozon também acha graça na esquerda, política e capitalismo

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Em "Potiche: Esposa Troféu", Catherine Deneuve incorpora ascensão do poder da mulher nos anos 1970
Um dos mais prolíficos diretores do cinema francês e quiçá mundial, lançando em média um longa-metragem por ano desde 1997, François Ozon é também versátil. Do drama deslavado ao fantástico, sem esquecer o suspense e boas doses de ironia, produziu belezas como "Gotas D'Água em Pedras Escaldantes", "Swimming Pool - À Beira da Piscina", "O Tempo que Resta" e "Ricky". Mas em "Potiche - Esposa Troféu", que entra em cartaz no país nesta quinta-feira (22), o gênero da vez é outro: a comédia. No caso, quase escrachada.

Mas a fórmula do diretor não é tão simples. Adaptado do teatro, assim como "8 Mulheres", "Potiche" tem reflexão e crítica correndo fortes em suas veias, de forma explícita ou nem tanto. O personagem de Catherine Deneuve, que esteve recentemente no Brasil para divulgar o filme , é quem serve de catalizador para os conflitos que explodem na tela. Casada com um industriário tirano e mulherengo (Fabrice Luchini) no fim da década de 1970, Suzanne Pujol serve de bibelô no relacionamento – ela é apenas um enfeite em casa, sem poder de opinião.

Sua rotina de afazeres domésticos e caminhadas idílicas – seus encontros com esquilos são narrados em versos num caderninho de anotações – é interrompida quando o marido sofre um ataque cardíaco e precisa ficar longe da fábrica de guarda-chuvas da família, que enfrenta uma séria ameaça de greve. Madame Pujol acaba substituindo-o na presidência e, com simplicidade e postura de mãezona, provoca uma revolução na companhia.

Revolução, aliás, é a palavra de ordem em "Potiche". A ascensão do feminismo dá o tom do filme, que abre espaço para fazer graça com os clichês do mundo sindical e da esquerda, evidencia a lógica do capitalismo selvagem e lança um olhar ácido para a política. O clima, apesar disso, não é nada sério, longe disso. As atuações estão sempre um ou dois tons acima do normal e a direção de arte, exagerada e gritante, como que para dizer a todo momento que uma farsa está sendo encenada. Os números musicais, rumo ao final, quase fazem a balança pesar demais e desandar a receita. Quase.

Isso porque Catherine Deneuve, perto dos 70 anos, está lá, feito fortaleza, para segurar a bronca e carregar o filme praticamente nas costas. Brilhando muito mais do que os outros, ela torna adorável a experiência de se assistir a uma parábola feminista em pleno século 21. Ninguém melhor do que Deneuve para incorporar o poder da mulher, em especial em "Potiche", em que começa servil e submissa, contraponto a sua persona na vida real. O espectador ganha de bônus mais uma performance irretocável de Gérard Depardieu, no papel de um deputado e caso antigo da protagonista.

O roteiro ainda procura ganhar umas risadas na base do "nada é o que parece" e em geral acerta o alvo. Ozon arriscou mais vez e, feito ilusionista, tirou do chapéu uma comédia retrô, engajada e autoconsciente, tudo ao mesmo tempo. Aqui, a diversão é garantida.

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