Catálogo argentino reúne filmes desde a ditadura até democracia

Organizações humanitárias reuniram 450 obras para estimular a "reflexão e análise" da cinematografia do país

EFE |

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Cena de "A História Oficial", de Luis Puenzo, vencedor do Oscar de 1985 que integra o catálogo
Organizações humanitárias argentinas apresentarão na próxima semana um catálogo de 450 filmes para a "reflexão e análise" da cinematografia desde os tempos da ditadura (1976-1983) até a democracia atual.

Entre outras "pérolas", o catálogo inclui um filme de propaganda só divulgado em quartéis enquanto paramilitares matavam e sequestravam ativistas políticos, disse à Agência Efe a pesquisadora Marcela Visconti, da ONG Memória Aberta, que coordenou a recopilação com seu colega Esteban Garelli.

Também se destaca um filme sueco que arranhou a imagem do regime em um festival de cinema em 1979, um ano após a Argentina sagrar-se campeã da Copa do Mundo em casa durante um período em que milhares de pessoas tinham desaparecido ou estavam em prisões clandestinas submetidas a torturas, apontou.

Sob a lógica da estreita censura e repressão política, a ditadura militar reduziu a cinematografia argentina a uma generalidade de temas banais, com elogios às forças de segurança e aos valores conservadores, comentou Marcela. Toda a filmografia argentina de "denúncia" dos crimes da ditadura foi rodada no exílio, como é o caso de "Las AAA Son las Tres Armas" (Perú, 1977), dirigida por Jorge Denti e que narra os vínculos do regime com o grupo de extrema-direita Aliança Anticomunista Argentina, a "Triplo A".

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Capa do filme sueco "Murallas de la Libertad", de 1978
Os filmes estão catalogados por cronologia e ordem alfabética, assim como por cerca de 20 temas que vão desde "a favor do regime" até "filmes da transição democrática", passando pelas categorias "busca por verdade e justiça", "artistas, perseguição e censura" e "vitimados". Marcela assinala que entre os filmes a favor do regime há vários cujos diretores se desconhecem por terem usado pseudônimos, enquanto outros tiveram coragem de desafiar a censura mediante referências "ocultas ou nem tanto".

Na pesquisa para criar o catálogo, foi "um grande achado" o filme "Estoy Herido...Ataque!" (1977), só divulgado nos quartéis, obra de "Federico Alegre", "cineasta" que dirigiu um grupo de atores desconhecidos para narrar um "heroico" combate com a guerrilha no norte da Argentina, indicou. Como contrapartida, aparece o filme sueco "Murallas de la Libertad" (Frihetens murar), de 1978, dirigido por Marianne Ahrne, que narra a vida de uma artista argentina no exílio e cuja existência era desconhecida no seu país de origem.

"Este filme foi projetado na abertura do 11º Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 1979, e provocou um grande desgosto à delegação argentina, que o considerou ofensivo para o país e pressionou para que fosse retirado do festival. Nunca pôde ser visto na Argentina e agora faz parte do arquivo da Memória Ativa".

Entre os filmes com temas "tabu" que escaparam à censura, aparecem "Últimos Días de la Víctima", de 1980, sobre associações de um grupo parapolicial, e "Tiempo de Revancha", de 1981, que narra um conflito sindical em uma mineradora multinacional, ambos dirigidos por Adolfo Aristarain e protagonizados por Federico Luppi.

Por meio de alegorias, com o filme "Los Miedos" (1980), sobre uma epidemia que arrasa uma cidade, Alejandro Doria foi outro dos poucos cineastas argentinos que tentaram vencer a censura. Com a restauração da democracia, no fim de 1983, houve o ressurgimento do cinema nacional, um dos mais pujantes da América Latina, e se multiplicaram os filmes sobre os crimes da ditadura e suas sequelas políticas e sociais, como relata "A História Oficial", de Luis Puenzo, vencedora do Oscar de 1985.

O catálogo, que vai desde 1976 até este ano, será apresentado na próxima quinta-feira no Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires pelas Mães da Praça de Maio, a Assembleia pelos Direitos Humanos e o Serviço de Justiça e Paz, organizações ligadas à Memória Ativa.

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