Cartas de Chico Xavier viram filme

Documentário exibido no Festival de Paulínia registra dor de se perder um filho

Marco Tomazzoni |

O centenário de Chico Xavier continua rendendo filmes em homenagem. Exibido ontem no Festival de Paulínia, o documentário As Cartas Psicografadas por Chico Xavier vai atrás de famílias que receberam, através do centro do médium em Uberaba, mensagens de filhos mortos prematuramente. No palco, ao apresentar o longa, a diretora Cristiana Grumbach disse que sua motivação era entender essas manifestações de uma pessoa “supostamente do mundo dos mortos”. Mais do que provas do além-túmulo, no entanto, encontrou muita dor e saudade.

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Mãe lê carta do filho, reproduzida em livro
Todos os entrevistados – selecionados com a ajuda de Marcel Souto Maior, autor da biografia que deu origem ao filme de Daniel Filho – são idosos e conviveram com Chico há cerca de 30 ou 40 anos. Inconsoláveis, não são poucas as mães que falam para a câmera que “a vida perdeu o sentido” após a morte do filho. Sem encontrar respostas na igreja, algumas passam a odiar santos – um pai, judeu, chega a garantir que “se Deus descesse na minha frente naqueles dias, eu partia pra cima dele”.

Yolanda, 87 anos, é uma dessas pessoas. Devota de Nossa Senhora Aparecida, sem conseguir lidar com a perda, foi ainda na década de 1960 ao centro espírita no interior mineiro. No primeiro dia, Chico já anunciou que o espírito de seu filho estava lá e reproduziu a assinatura dele. Uma carta só foi aparecer quatro anos depois, mas trazia o que Yolanda mais queria ouvir. “Não se morre”, diz o texto. “A pessoa tira uma roupa usada e usa uma vestimenta melhor. A morte é a vida em outra moldura.”

É o alívio que todos buscavam. O desespero de se despedir para sempre de um filho é, então, substituído por um “até breve”, como afirma outra mensagem: “A morte não é o ponto final. Imaginemos nela um ponto e vírgula, uma pausa”. Essa resposta não impede, porém, que as lágrimas e a emoção dominem os depoimentos. Mesmo depois de décadas, os pais até podem entender, mas nunca, nunca superam a saudade. “Você engole, mas não digere”, atesta alguém. Mais do que o sobrenatural, portanto, o documentário encontra histórias familiares trágicas.

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A diretora (direita) segura carta no filme
O sobrenatural, claro, também está lá. As famosas cartas trazem dados a que Chico nunca teria acesso, de detalhes sobre os acidentes a informações detalhadas sobre a família: apelidos, irmãos, tios e antepassados, não raro com nome e sobrenome. Uma absolve um amigo de culpa num acidente de moto, outra revela que a noiva do morto está grávida e já indica um nome para o bebê.

Como se pode notar, interesse não falta, mas isso não redime o documentário. Pesquisadora e assistente de direção do veterano Eduardo Coutinho em diversos trabalhos ( Santo Forte , Edifício Master , Jogo de Cena ), Cristiana Graumbach tenta reproduzir o estilo de seu mestre e não consegue. Sem o mesmo talento como entrevistadora, acaba sobrando ao querer ser, também ela, personagem – seus diálogos com as famílias aparecem na edição, é ela quem lê as cartas em off e vez que outra até aparece nas conversas. Problema de linguagem, evidente quando Cristiana opta por mostrar em longos segundos a imagem imóvel da sala de todos os entrevistados – aí, o burburinho tomava conta do Theatro Municipal –, nas perguntas repetidas, nas cartas enormes. Não há quem não se canse.

Um filme irregular para um tema com apelo para milhões – não estranhe se o documentário chegar às telas e atingir uma bilheteria considerável para o gênero. É o Brasil espírita consolidando espaço no mercado cultural.

* o repórter viajou a convite do festival

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