"Capitães da Areia" quer "devolver" Jorge Amado à cena cultural

Em seu primeiro longa-metragem, Cecilia Amado, neta do escritor, pretende apresentar obra do avô às novas gerações

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Gato, Professor, Pirulito e Boa Vida, personagens de "Capitães da Areia"
Por muito tempo leitura obrigatória em escolas Brasil afora, "Capitães da Areia" se transformou num clássico da adolescência. Demorou mais de 70 anos, mas o romance de Jorge Amado finalmente foi adaptado para o cinema nacional.

"Capitães da Areia", o filme, estreia nesta sexta-feira (7) em 120 salas do país , pelas mãos da neta de Jorge, Cecilia Amado. Às vésperas do centenário do escritor, em 2012, o longa serve para concretizar a "missão da família", que é, nas palavras da diretora, "trazer de volta Jorge para a cena cultural e apresentá-lo às novas gerações".

Mas não foi tão fácil assim. Os direitos autorais da obra não pertencem à família, como a princípio se imaginaria. Em entrevista em São Paulo, Cecilia comentou que precisou entrar na briga para conseguir viabilizar o filme, porque outros diretores já estariam interessados. Em 2008, conseguiu comprar os direitos e começou a escrever o roteiro com o pernambucano Hilton Lacerda ("Estamos Juntos", "FilmeFobia"), parceiro de longa data do cineasta Cláudio Assis.

Cecilia explicou que, como a "maior parte dos brasileiros", leu "Capitães da Areia" quanto tinha em torno de 15 anos. Além da vontade de encontrar o protagonista Pedro Bala na rua e "casar com ele"", disse que a experiência a marcou profundamente e ficou latente ao longo do vida. "Aquele sentimento de querer descobrir tudo com liberdade e o contraponto com o abandono é muito forte para os adolescentes", comentou.

A certeza do projeto surgiu quando a diretora, que faz sua estreia em longa-metragem, assistiu a uma peça baseada no livro no Rio de Janeiro, com elenco carioca, distante da realidade do Nordeste. Emocionada mesmo assim, percebeu a potência do romance. "Com a força do cinema e elenco baiano, aquilo podia ser arrebatador", disse. "Meu avô tinha um olhar próprio e muito apaixonado pelo Brasil."

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O codiretor e diretor de fotografia Guy Gonçalves e a diretora Cecilia Amado no set de "Capitães da Areia"
Da década de 1930, a história foi transposta para os anos 1950, embora a estrutura seja a mesma. Os Capitães da Areia continuam sendo a famosa gangue de meninos de rua que cometem furtos no centro de Salvador para sobreviver.

Sozinhos, moram num prédio abandonado, à beira-mar, onde simulam uma família comandada com rigor por Pedro Bala. O triângulo que se forma entre o líder, Professor e Dora aquece a trama rumo ao final, mas até lá personagens como Sem-Pernas, Boa Vida, João Grande e Gato tomam conta daquele universo de aventuras.

O trabalho da equipe do filme, portanto, seria encontrar a multidão para compor o elenco juvenil. Como a diretora acreditava que não existiam bons atores formados nessa idade, procurou ONGs e comunidades de Salvador em busca de jovens em potencial. Não só isso: trabalhou dois anos como assistente de direção da série "Cidade dos Homens", segundo ela, para adquirir experiência com não-atores.

Deu certo. Depois de realizar 1.200 entrevistas, Cecília chegou a 700 nomes, depois reduzidos para 90, que participaram por dois meses de oficinas de atuação e capoeira de Angola. Escolhidos os protagonistas, montou-se o cronograma de filmagens, maior do que o normal para que as câmeras pudessem registrar com fidelidade o rito de passagem da adolescência dos atores e, por tabela, dos personagens.

"Filmamos em três etapas, nove semanas ao longo de nove meses, para acompanhar o desenvolvimento deles, não só físico – Jean [Luis Amorim, o Pedro Bala] cresceu 10 centímetros – como profissional. Eles amadureceram como atores e se entregaram no final."

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