"Capitães da Areia" adapta Jorge Amado com autencidade

Cecilia Amado aposta em elenco não-profissional para dar vida à turma de Pedro Bala

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Pode não ser referência para a garotada hoje, mas "Capitães da Areia" povoa o imaginário de muita gente. O romance de Jorge Amado foi publicado lá na década de 1930 e, por mérito próprio, permaneceu atual através das décadas. Não há nada de ingênuo nas aventuras de Pedro Bala e sua turma, meninos de rua que sobrevivem aplicando pequenos golpes no centro de Salvador. A realidade social convive com a discussão da liberdade, códigos morais e a sexualidade borbulhante de crianças nem tão mais crianças. Esse universo chega finalmente os cinemas nesta sexta-feira (07), quando o filme de Cecilia Amado , neta do escritor, ganha estreia nacional.

Divulgação
Jean Luis Amorim como Pedro Bala em "Capitães da Areia"
Não é a primeira vez que se faz uma adaptação do livro – Walter Lima Jr. comandou uma minissérie na Bandeirantes no final da década de 1980, e o americano Hall Bartlett, em 1971, transformou sua versão, "The Sandpit Generals", num curioso fenômeno de público na União Soviética (experimente pesquisar pelo filme no YouTube). Cecilia, no entanto, é quem mais se aproxima do mundo criado por seu avô.

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O principal motivo é realmente o elenco juvenil. A equipe penou para encontrar os protagonistas, a maioria não-atores, e criou oficinas específicas em Salvador para prepará-los para o filme. O resultado não é muito homogêneo – uns se saem melhores do que os outros –, mas transpira autenticidade.

Do trio de protagonistas, não há o que censurar. Jean Luis Amorim convence como Pedro Bala, o esperto líder dos Capitães da Areia, personagem interessante que se desdobra entre pai, amigo, chefe, herói e pré-adolescente perdido.

Robério Lima, o Professor, seu braço-direito, se sai ainda melhor, principalmente ao internalizar o conflito que se instaura com a chegada de Dora (Ana Graciela Conceição), uma órfã linda, ao esconderijo da gangue. Se o triângulo amoroso não chega a soltar fagulhas, ao menos é simpático.

A falta de fagulhas, justamente, é o grande senão de "Capitães de Areia". A fotografia de Guy Gonçalves (codiretor e marido de Cecilia) cria quadros belíssimos; as subtramas com Gato, Sem-Pernas e Boa Vida funcionam; a produção de época não deixa a desejar... Mas falta intensidade aos dramas da história. As ações se sucedem, algumas delas trágicas, sem aparecerem solavancos.

Assista ao trailer de "Capitães da Areia"

Emoções, alegrias, decepções passam quase em branco e tornam a tarefa de se identificar com aquilo tudo mais complicada do que deveria. O desfecho é uma boa prova disso, bem menos contundente do que podia se esperar. Se a trilha sonora de Carlinhos Brown – funcional nas músicas instrumentais, exagerada nas canções – foi pensada querendo preencher essas lacunas, não funcionou.

Apesar disso, "Capitães de Areia" se sustenta como fábula social e rito de passagem, mantendo o tempero sexual de Jorge Amado, tênue a exemplo do livro, e tirando o contexto político, uma opção bastante acertada. Pode não ser uma obra-prima juvenil, mas materializa com simpatia personagens clássicos, sejam eles velhos conhecidos ou recém-apresentados.

Abaixo, a equipe do filme fala sobre o triângulo amoroso da história.

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