Bruna Lombardi ataca de comediante em "Onde Está a Felicidade?"

Dirigida pelo marido Carlos Alberto Riccelli, atriz protagoniza chanchada mística no Caminho de Santigo de Compostela

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

Escrita e estrelada por Bruna Lombardi , com direção de seu marido, o ator Carlos Alberto Riccelli, a comédia romântica mística "Onde Está a Felicidade?" tem potencial forte para o mercado. Uma coprodução espanhola, com distribuição da Fox Film, o filme foi exibido em julho no Paulínia Festival de Cinema, ávido justamente por projetos que possam dialogar com o público. Se começa bem, o longa-metragem que estreia nesta sexta-feira (19) termina no outro extremo.

"O humor é a minha salvação pessoal", afirma Bruna Lombardi em entrevista ao iG

Divulgação
Bruna Lombardi e a espanhola Marta Larralde em "Onde Está a Felicidade?": ecos de Almodóvar
Não parecia que ia ser assim. Terceira dobradinha entre Lombardi e Riccelli, sempre no roteiro e direção, "Onde Está a Felicidade?" segue a linha esotérica do longa anterior do casal, "O Signo da Cidade" (2007), mas de forma bem mais descompromissada. Bruna é Teodora, ou Teo, apresentadora de um programa de culinária afrodisíaca na televisão, chamado "A Receita do Amor". Casada com Nando (Bruno Garcia), um comentarista esportivo com todos os clichês masculinos, ela não se sente valorizada.

Assista a um vídeo teaser exclusivo de "Onde Está a Felicidade?"

A crise se completa quando Teo perde o emprego e flagra um namoro virtual do marido. Perdida, segue o conselho da amiga maquiadora (María Pujalte) e "vai se espiritualizar, ficar zen" no Caminho de Santiago de Compostela, 790km de peregrinação religiosa que corta a Espanha de leste a oeste. A seu lado, vão a atrapalhada Milena (Marta Larralde), sobrinha da maquiadora, e o dândi Zeca (Marcello Airoldi), ex-chefe de Teo, que enxerga na viagem a oportunidade para um novo projeto na TV. Ao fim do prólogo, o filme entra no módulo "essa galera se mete em muitas confusões".

A mensagem subliminar é, de certa forma, filosófica, algo como não buscar o caminho da felicidade, mas ver que a felicidade é o caminho, jogo de palavras que não é estranho à tentativa de Lombardi de se lançar como poeta. A comédia, no entanto, dita as regras do jogo, no fundo um road movie em ritmo de chanchada.

Tudo é muito exagerado, colorido, kitsch, do figurino à direção de arte, feitos, aliás, pela mesma equipe do excelente infantil "Eu e Meu Guarda-Chuva" (2010). A familiaridade com o cinema inicial de Pedro Almodóvar fica ainda mais evidente com a presença do elenco espanhol, a começar por Marta Larralde, um decalque dos personagens do cineasta.

As piadas se sucedem e funcionam com a plateia, em especial no núcleo de amigos de Nando, os homens-estereótipo, e nas participações especiais de Marcelo Adnet e Dani Calabresa (onipresentes nas comédias nacionais). O elenco de coadjuvantes se dá muito bem, com destaque para Airoldi, que dribla a caricatura com uma personalidade ácida e verborrágica.

Bruno Garcia, mesmo que seguindo a improvável redenção de Nando, tem carisma de sobra para convencer o espectador. Bruna, por sua vez, surpreende como comediante – pelo timing, caras e bocas – e mostra uma forma assombrosa para seus quase 60 anos.

Quando "Onde Está a Felicidade?" caminha para se tornar uma comédia agradável, um inofensivo cartão-postal espanhol com pitadas de "Comer, Rezar, Amar" , a coisa desanda de maneira vergonhosa nos últimos 30 minutos das quase duas horas. O roteiro se equivoca entre o pastelão, nonsense e o mau gosto, botando toda a boa vontade a perder. Não bastasse o desfecho absolutamente chichê das comédias românticas, ainda resta tempo para fazer uma incursão absurda pelo Parque Nacional da Serra da Capivara, no estado do Piauí – fica-se sem entender o que o filme foi fazer ali.

A fatídica cereja do bolo é representada pela música final. Tudo bem que a produção conseguiu reunir na trilha sonora Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhotto e Gilberto Gil cantando composições originais de Riccelli, um feito e tanto, mas colocar a letra da música na tela, tipo karaokê, com uma bolinha ditando o ritmo para o público cantar junto, foi demais. Se a ideia era ser engraçado, ninguém riu.

Autosabotagem que trai as boas intenções do filme. Uma pena, já que as gargalhadas da plateia ao longo da projeção no Theatro Municipal de Paulínia foram genuínas – tanto que o filme ganhou o prêmio de público . A comédia brasileira, infelizmente, ainda patina para acertar.null

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