Brecht inspirou "Trabalhar Cansa", explicam diretores em Paulínia

Juliana Rojas e Marco Dutra falaram da concepção do roteiro e criticaram necessidade de classificação do cinema

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

Os diretores Marco Dutra e Juliana Rojas, que apresentaram na noite de ontem "Trabalhar Cansa" na competição do Paulínia Festival de cinema 2011, conversaram com a imprensa na tarde desta quarta-feira (13) sobre as motivações do filme, que utiliza elementos do terror, mas tece um comentário social sobre as relações trabalhistas. Nesse sentido, segundo eles, o dramaturgo alemão Bertold Brecht se mostrou uma influência decisiva.

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Cena de "Trabalhar Cansa": mistura de gêneros
Amigos desde a época da faculdade e parceiros inseparáveis na direção, Dutra e Rojas tomaram contato com a obra de Brecht através da Companhia do Latão, grupo teatral de São Paulo que montou em 2000 a peça "A Comédia do Trabalho". "Brecht é um autor que tem muito apreço pelas relações humanas, mas também tem distanciamento para analisar o que as rege", disse Juliana.

"Ele nos ensinou a explorar dramaturgicamente essas condições sociais, sem ser chato", complementou Dutra. "Não sou especialista em Brecht, mas descobrimos por meio dele que não é necessário estar na pele do personagem para criar uma relação intensa com o que está no palco ou na tela."

"Trabalhar Cansa" dividiu opiniões em Cannes , onde participou da mostra paralela "Um Certo Olhar", e não foi unanimidade em Paulínia, mas permanece rondando a cabeça do espectador. Na opinião de Juliana, a permanência do filme compensa por abordar questões importantes, pouco tratadas no cinema nacional. "Acho valoroso, o espectador não assiste e descarta logo depois de ver."

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O ator Marat Descartes e o diretores Juliana Rojas e Marco Dutra no Theatro Municipal de Paulínia
O longa-metragem também busca força nos absurdos do mundo comporativo para conseguir um humor discreto, mas eficaz. Livros de auto-ajuda curiosos do setor, como "O Samurai Executivo" e "Jesus, o maior empreendedor de todos os tempos", serviram de inspiração para algumas cenas. "A plateia brasileira [foi a primeira vez que o filme foi exibido no país], talvez por uma identificação cultural, riu muito ao perceber algumas ironias finas do roteiro", comentou Rojas.

De fato, a recepção do público em Paulínia foi intensa, embora muitas vezes o riso fosse fruto do nervismo. Isso porque a tensão domina toda a projeção, até porque o terror contamina boa parte da trama. Fãs do gênero, os diretores conscientemente casaram o social com o suspense. "Encaixamos isso onde a história nos levaria naturalmente para o mórbido", defendeu Dutra.

Essa mistura é justamente o que tem provocado controvérsia, na mesma medida que admiração. Para Juliana, é natural que um espectador se frustre ao esperar o mergulho num gênero específico – drama social ou terror, no caso – que nunca se concretiza. Mesmo assim, a cinesta garantiu que foi essa a intenção desde o início e criticou a necessidade de se colocar rótulos estanques. "As pessoas têm necessidade de classificar as coisas, vivem dessa maneira. E se surge algo diferente, corrente para criar uma classificação nova", analisou.

* O repórter viajou a convite do festival

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