"Brasil Animado" inaugura 3D em produções nacionais

Diretora do longa-metragem conversa com o iG sobre o primeiro filme brasileiro a utilizar o recurso

Guss de Lucca, iG São Paulo |

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"Brasil Animado": Stress e Relax saem em busca do "grande jequitibá rosa", a árvore mais antiga do Brasil
Misturando personagens animados com cenas reais, "Brasil Animado", primeiro filme com imagens do país ao vivo em 3D, estreia nesta sexta-feira em 184 salas do país - marcando presença em todos os complexos de exibição que possuem salas 3D. O longa-metragem acompanha a dupla Stress e Relax, personagens criados por Mariana Caltabiano, em busca do "grande jequitibá rosa", a árvore mais antiga do Brasil.

Sem pistas sobre o seu paradeiro, os sócios antagônicos visitam diversos pontos do país durante sua busca, passando por cidades como Foz do Iguaçú, Salvador, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo - em que compartilham com o espectador traços da cultura e riquezas naturais locais.

A diretora do longa-metragem, Mariana Caltabiano, responsável pelo site iGuinho , conversou com o iG sobre o processo de filmagem com câmeras 3D, um marco na história do cinema nacional, além das participações especiais, que contam com o cineasta Fernando Meirelles e a ginasta Daiane dos Santos.

iG: O que veio primeiro: a ideia de fazer uma animação que retratasse lugares do Brasil ou um filme em 3D?
Mariana Caltabiano: A ideia de mostrar o Brasil veio primeiro. Mas desde o começo eu pensava em misturar imagens reais com animação - eu já tinha feito isso com o "Gui, Estopa e a Natureza", que foi exibido no Cartoon Network, e percebi que o público gostava. Aí pensei que seria muito legal mostrar o país na companhia de personagens tão diferentes quanto o Stress e o Relax.

iG: E quando o 3D entrou no projeto?
Mariana Caltabiano: Estava com o roteiro pronto e mostrei para o Carlos Eduardo Rodrigues, da Globo Filmes, que sugeriu que a história fosse em 3D. A primeira coisa que ele pensou quando apresentei o projeto foi "Conheça o Brasil em 3D". E isso veio de encontro com o que o Marcelo Siqueira, da produtora TeleImage, havia comentado algum tempo antes.

Até aí eu tinha dúvidas sobre como uma animação bidimensional se comportaria no 3D. E tive uma surpresa muito boa quando vi pela primeira vez a cena gravada no bondinho do Pão de Açúcar, que acabou passando uma sensação semelhante a daqueles livros que você abre a e as imagens pulam pra fora. Apesar de não ter a computação gráfica, essa animação tem um charme particular por ser muito colorida.

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A diretora Mariana Caltabiano durante as filmagens de "Brasil Animado": país é foco em animação
iG: O roteiro sofreu mudanças após essa transição do projeto para o 3D?
Mariana Caltabiano: Algumas partes do roteiro eu acabei alterando quando batemos o martelo de que seria em 3D - precisei reescrevê-las para aproveitar melhor os recursos, como o momento em que o Relax aponta para a plateia em busca de uma caneta emprestada.

iG: Qual foi a parte mais trabalhosa do processo?
Mariana Caltabiano: Tudo. Imagine que uma animação utiliza uma média de 12 desenhos feitos à mão por segundo. Já para captar as imagens reais tivemos que trazer equipamentos de fora do Brasil, como o Rig, que é o aparelho que sustenta as câmeras na hora da filmagem em 3D.

Uma das dificuldades foi o peso do equipamento. Imagine gravar na Amazônia, num rio cercado por jacarés, com um equipamento de 60 quilos num barquinho - e o medo de perder a câmera e a equipe? (risos)

iG: Quanto tempo durou a filmagem?
Mariana Caltabiano: Foram 40 dias de viagem pelo Brasil. Já a produção da animação foi algo em torno de um ano e meio.

iG: Se não fosse o 3D, o tempo seria menor?
Mariana Caltabiano: Seria bem menor. A pós-produção de um filme em 3D é dobrada, pois as imagens são feitas em duas câmeras e precisam ser quase idênticas - não posso ter focos diferentes nas filmagens ou sujeira em uma das câmeras. Além disso, temos que contar com a ajuda de um matemático, que faz o cálculo de distância entre o objeto filmado e a câmera.

Agora, algo que me surpreendeu e vale a pena citar foi o fato de poder assistir às cenas exatamente como elas comportariam nas salas de cinema - isso porque as câmeras têm um conversor automático, que permite ver no monitor como a tomada vai ficar. Imagine viajar o Brasil inteiro e, na pós-produção, descobrir que as cenas na Amazônia ficaram ruins - e toca voltar com a equipe para o meio dos jacarés (risos).

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Filmagens cercadas por jacarés em rio do Amazônia: "E o medo de perder a câmera e a equipe?"
iG: "Brasil Animado" conta com participações especiais de Fernando Meirelles, Daiane dos Santos, além da trilha sonora de Ed Motta e Simoninha. Como foi a recepção destes convidados quando você os procurou?
Mariana Caltabiano: O Ed Motta foi maravilhoso! Não o conhecia e nem sabia se ele ia topar. Mostramos pra ele uma versão bruta do filme, sem sonorização e 3D, e ele adorou - a brincadeira com o paulista e o carioca o fez rir muito.

Com o Simoninha foi diferente. Quando ouvi a música tema do filme, que foi composta pelo Alexandre Guerra, pensei que precisava de um cantor alto astral para interpretá-la - queria alguém com essa ginga brasileira, e achei que ele seria ideal para a trilha.

O Fernando Meirelles eu conhecia desde a época em que trabalhei como redatora de publicidade, quando ele chegou a dirigir comerciais meus. Nos reencontramos quando ele comprou os direitos do livro "VIPs" para fazer o filme. Nessa ocasião, fiz o convite e ele topou dublar, dando até palpites sobre as suas falas.

O caso da Daiane dos Santos é curioso. Pouca gente sabe, mas eu pratiquei ginástica olímpica na adolescência e voltei a treinar depois de velha - por um acaso no Clube Pinheiros, onde a Daiane treina também. Dali surgiu a oportunidade de convidá-la, afinal, ela foi a primeira ginasta a fazer um duplo twist carpado, muito antes das russas ou norte-americanas.

Minha ideia era falar de alguns brasileiros que não se deixaram intimidar pelos gigantes do exterior, como a Daiane e o Meirelles, duas pessoas que me inspiram.

iG: Existem planos para levar a animação para outros mercados, festivais?
Mariana Caltabiano: Sim. Estamos indo para o Festival de Berlim e recebemos um convite para participar do festival d'Annecy, na França - o mais importante evento de animações do mundo.

Assista ao trailer de "Brasil Animado":

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