"Billi Pig" recupera chanchada com escracho

Estrelada por Selton Mello e Grazi Massafera, comédia tem seus acertos, mas não decola

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Diretor de filmes densos e desafiadores ( "Se Nada Mais Der Certo" , "A Concepção", "Meu Mundo em Perigo" ), José Eduardo Belmonte surpreendeu ao anunciar "Billi Pig", uma comédia com grande elenco, orçamento largo e humor fácil. Nesta sexta-feira (02), quando o longa entra em cartaz em mais de 200 salas no país, se verá se ele se saiu bem na transição e se Selton Mello vai continuar atraindo público, agora ao lado de Grazi Massafera , em sua estreia nos cinemas.

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Selton Mello e Grazi Massafera em "Billi Pig": malandro fracassado e aspirante a atriz
A trama é publicamente uma homenagem às chanchadas, as comédias que a Atlântida Cinematográfica produzia na década de 1950 com Grande Otelo, Oscarito, José Lewgoy e outros nomões da dramaturgia brasileira. A ideia, no entanto, é subverter um pouco o gênero com o escracho, certa autoconsciência e um ingrediente fantástico, o porco do título, que, bem, fala.

Grazi interpreta Marivalda Montenegro Duarte (atenção para o nome), aspirante a atriz casada com Wanderley (Selton), vendedor de seguros fracassado e impotente em Marechal Hermes, bairro pobre do Rio de Janeiro. Inocente e interiorana, Marivalda sonha com o glamour dos prêmios (ela se vê em Cannes e no Oscar) e da fama, estimulada por Billi, o porco de plástico com quem conversa. Depois de receber uma prensa do bicho (dublado pela própria atriz), Marivalda dá um ultimato no marido: ele tem uma semana para mudar de vida.

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Acuado, Wanderley vê no padre Roberval (Milton Gonçalves), que tem fama de milagreiro, a chance de tirar o pé da lama. O chefe do tráfico local, apropriadamente chamado de Seu Boca (Otávio Müller), está desesperado depois que sua filha, Miss Sandy (Aimée Espinosa), entrou em coma após ser atingida durante um tiroteio no concurso Garota do Milho. De olho no dinheiro do bandido, Wanderley intermedia o "milagre" do padre para curar a menina.

Só que Roberval, claro, de milagreiro e padre não tem muita coisa. Quer dizer, ele tem lá suas ligações com além e aproveita para fazer apostas em jogos de futebol. Além disso, mantém um caso com a filha de dona Generosa (Preta Gil), a proprietária da funerária local. E aí a confusão da chanchada estaria de pé.

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Billi Pig" tem até número musical ao som da canção brega "Menina do Subúrbio
"Billi Pig" tem seus acertos. Num papel que reflete seu próprio passado, Grazi é a melhor coisa do filme – sua presença cativa e enche a tela de frescor. Aos 78 anos, Milton Gonçalves surpreende com uma hilária imitação de um negro norte-americano e os números musicais têm lá sua graça. Sim, o filme reproduz com toda indigência brasileira as performances hollywoodianas, com coreografia e tudo, reprocessadas pelo viés brega de "Menina do Subúrbio" , na voz de Fernando Mendes, e no samba debochado "Batuque na Cozinha" .

É preciso admitir a coragem de Belmonte em apostar numa comédia diferente do cenário atual e na ousadia de inserir o personagem do porco, mas nem tudo funciona. O próprio Billi, inclusive. Se o personagem era tão importante a ponto de estar no título do filme, então por que ele praticamente desaparece da história? Sem contar a precariedade do boneco – bem que ele merecia um investimento maior em pós-produção.

Atirando para todos os lados, as piadas em geral se perdem no fogo cruzado e com elas, se vai a graça. Mas o ponto fraco mesmo, por incrível que pareça, é Selton Mello. Sem querer questionar o talento do ator, ele foi um claro equívoco de escalação no papel de um malandro que não é malandro. Com samba no final e erros de gravação no rolar dos créditos, "Billi Pig" bem que tenta, mas não decola.

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