Belas Artes é símbolo do cinema de arte em São Paulo

Cineastas lembram influência dos filmes assistidos na esquina da Paulista e Consolação, no adeus de mais um cinema de rua

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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O Belas Artes em 1961, quando ainda se chamava Ritz: audições de música clássica nos domingos de manhã
Os cinéfilos de São Paulo acordaram no final desta semana de luto. Passado o período de festas e o Ano Novo, veio a público a notícia de que o Belas Artes fechará suas portas no próximo dia 27 . O tradicional espaço da cidade, nos arredores da avenida Paulista, foi fundado em 1943, se transformou em reduto do cinema de arte no final da década de 1960 e manteve esse espírito ao longo dos anos, inclusive quando foi reaberto em 1983, com seis salas – era o primeiro multiplex brasileiro. A geração atual enxergava o cinema como uma opção aos shoppings e aos filmes do circuito comercial, mas para quem viveu aquela época, representava algo muito maior: liberdade.

No caso do diretor Alain Fresnot ("Desmundo", "Ed Morte" e o inédito "Família Vende Tudo"), a história começa ainda antes. Na adolescência, quando o cinema se chamava Trianon (antes disso, teve ainda outro nome, Ritz), lembra de participar de espetáculos orientados de música clássica, organizados por uma professora para aproximar o público dos compositores eruditos, nos domingos pela manhã. Enquanto os concertos retumbavam pelas paredes da sala gigantesca, com mais de mil assentos, imagens abstratas, quase psicodélicas, eram projetadas na tela, acompanhadas por um jogo de luzes. "Eu ficava no mezanino e jogava papel alumínio picado nos momentos-chave, para ajudar no reflexo", conta.

Mais tarde, em 1967, a sala foi reinaugurada como Belas Artes, com curadoria de Dante Ancona Lopez, e dividida em duas. A proposta de investir numa programação diferenciada partiu de "seu Dante", lenda no mercado de exibição nacional, e aqueles 1200 lugares – o mais amplo complexo de filmes de arte da América do Sul – se tornaram o lugar para assistir a filmes russos, japoneses, tchecos, poloneses e dos mestres da Nouvelle Vague francesa (Louis Malle, Claude Chabrol, Jean-Luc Godard).

Em pouco tempo, a duas salas virariam três. O subsolo do cinema passou a ser a sede da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), capitaneada por Bernardo Vorobov, e virou casa de toda uma geração de cineastas e artistas. Uma casa com jeito de quitinete, pequena para suas 60 poltronas, mas celeiro de grandes ideias e fonte de referências para o resto da vida. "Aquele porão se transformou num reduto do cinema experimental da época", afirma o diretor Carlos Reichenbach.

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"Liliam M" (74) teve cenas filmadas no Belas Artes
A rotina envolvia os bares Riviera e Ponto 4, que não existem mais – as pessoas assistiam aos filmes, muitos deles raridades no país, e depois sentavam nas mesas do outro lado da rua da Consolação para discutir o que haviam visto. Quem fazia cinema na época frequentava a região: Rogério Sganzerla, João Callegaro, Andrea Tonacci e o próprio Reichenbach, todos identificados com o cinema marginal, ou de invenção, como preferem os envolvidos. O movimento era uma resposta radical, debochada, à opressão da ditadura militar e ao cinema de mercado. O público nem sempre entendia, mas se divertia em filmes como "O Bandido da Luz Vermelha" (1968) e "A Mulher de Todos" (1969), ambos de Sganzerla.

"O cinema marginal nasceu nas mesas daqueles bares", conta Carlos Reichenbach. "O Ponto 4 e o Rivieira foram para nós o que o Bar da Líder, ao lado do laboratório Líder no Rio, foi para o Cinema Novo. Muitos filmes foram gerados ali."

Autor do livro "Salas de Cinema em São Paulo", o jornalista e pesquisador Inimá Simões viveu aquela época quando era estudante. "Circulávamos por ali e íamos ao cinema todo dia. Foi a formação cinematográfica de muita gente. Criamos, então, esse ritual de ver os filmes, atravessar a rua e beber com os amigos. Muitas vezes o [professor e crítico] Paulo Emílio Sales Gomes sentava conosco para discutir, debater. Tinham as sessões surpresa da meia-noite – não sabíamos que filme ia passar, mas com certeza ia ser algo legal. Ali era 'o' lugar."

Alain Fresnot diz ter visto toneladas de filmes na salinha da SAC, mas guarda especialmente uma sessão de "Bang Bang" (1970), dirigido por Andrea Tonacci, que Paulo Emílio organizou para alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo. "A projeção foi inesquecível para mim e para os colegas da minha turma, pela ironia, pela liberdade do filme, que era muito iconoclasta. Por mostrar que aquilo era possível."

Reichenbach lembra com carinho de uma pré-estreia de "Lilian M: Relatório Confidencial", que dirigiu em 1974. Além de ter cenas gravadas naquela salinha do Belas Artes, o filme foi visto pela nata da cultura e da crítica da época, como o próprio Paulo Emílio, Luis Sérgio Person ("São Paulo S/A") e Anatol Rosenfeld. Notório entusiasta de obras raras, o diretor destaca como um momento mitológico do cinema a exibição de "Imagens do Silêncio" (1973), de Luiz Rosemberg Filho – com apenas duas sessões públicas, o filme mudo acabou perdido numa enchente no Rio. "Só uma meia dúzia de gatos pingados sortudos assistiram àquele clássico."

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A fachada atual do cinema, em São Paulo, que encerra suas atividades no final de janeiro
O ínicio do fim

A administração atual do Belas Artes, liderada por André Sturm, assumiu o local em 2003, em parceria com a O2 Filmes, de Fernando Meirelles. O patrocínio do banco HSBC, vigente desde esse período, chegou ao fim em março do ano passado. As salas continuaram funcionando apenas com o dinheiro da bilheteria, mas em maio a situação ficou insustentável e o alerta vermelho foi acionado, dando início a uma campanha para salvar o cinema. “Frequento o Belas Artes desde a minha adolescência, na década de 1980. Não é apenas um negócio, ele faz parte da minha vida”, assegura Sturm, também coordenador da Unidade de Fomento e Difusão da Produção Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.

O contrato de locação do imóvel chegava ao fim em setembro. Sturm afirma que ainda em julho procurou o proprietário, Flávio Maluf, para afastar os temores de crise espalhados pela imprensa. Negociou um novo valor para o aluguel e acertou que assim que encontrasse um mantenedor, renovaria o contrato. Em novembro, prestes, finalmente, a assinar um acordo de patrocínio, Sturm procurou novamente o proprietário e veio a surpresa: mesmo recebendo as contas em dia, Maluf já havia alugado o local para outra pessoa e queria a desocupação do imóvel. No dia 30 de dezembro, foi entregue uma notificação de despejo. Os mais de 30 funcionários já receberam o aviso prévio.

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Carlos Reichenbach: "É como se fechassem uma biblioteca, uma praça da cidade"
O Belas Artes dará lugar a uma loja não-especificada – próximo à recém-inaugurada estação da Linha Amarela do metrô, o terreno deve ter chamado a atenção de alguma rede comercial. A notícia foi recebida com tristeza e nostalgia. “Aquele entorno da Consolação era uma delícia, animado, efervescente. Agora morreu tudo. O cinema não se dissocia da cidade, da questão urbana. Hoje você já desce de táxi dentro do shopping”, afirma Inima Simões.

O cineasta Fernando Meirelles, sócio do cinema, mostra rancor com o futuro do empreendimento. "Infelizmente não há nada parecido com o Belas Artes na cidade. O pior de tudo foi saber que o cinema vai sair dali para dar lugar a mais uma lojinha. Caramba, São Paulo já tem tanta lojinha. Não entendo esta compulsão por compras. Acho que nasci na época errada", lamentou, em entrevista à Agência Estado, o diretor de “Cidade de Deus”.

“Acho trágica a notícia de qualquer cinema de rua que feche”, complementa Reichenbach. “É como se fechassem uma biblioteca, uma praça, bloqueando o sangue da cidade. Como safenado, tenho propriedade para falar disso: estão deixando de drenar a veia urbana da cidade, onde as pessoas trafegavam. Esse confinamento nos shoppings fez com que o cinema deixasse de ser uma diversão popular para virar de elite.”

O fechamento mobilizou multidões na internet. Depois de ser um dos assuntos mais comentados no Twitter, o adeus do Belas Artes deu origem a um abaixo-assinado virtual , até agora com quase 5 mil assinaturas. Nada que possa, a princípio, reverter a situação. As poltronas e equipamento do cinema, inclusive, têm até comprador em vista.

Nem tudo, porém, está perdido. Apesar de Sturm afirmar ser somente uma ideia embrionária, Léo Mendes, braço-direito do empresário no cinema e na distribuidora Pandora Filmes, já dá como certa a abertura de uma nova sala na cidade. Segundo ele, ainda não se sabe se a marca será mantida, mas a equipe está em busca de imóveis para sediar o futuro cinema.

“Faremos questão de manter o perfil da programação, mesmo que com outro nome e endereço. Vamos continuar, inclusive, com o Noitão”, afirma Mendes, em referência à maratona que o Belas Artes promovia mensalmente, com a exibição de três filmes, começando à meia-noite e entrando madrugada adentro, como se fazia nos anos 1960. Os tempos são outros, mas o espírito cinéfilo, aos trancos e barrancos, esse se mantém.

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