Bastidores da censura no cinema estão na internet

Documentos sigilosos da ditadura revelam postura do governo militar, patrulha ideológica e vistas grossas para a pornochanchada

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

“O filme é inteiramente contra as instituições, com chamamento à ‘revolução sangrenta’ em nosso país”

“A película contém mensagem esquerdista, contrária aos interesses nacionais"

"Cortar a pergunta ‘Onde a mulher tem os pelos mais encaracolados?’"

Divulgação
Fernanda Montenegro em "A Falecida" (1965): o "pior" trabalho da atriz, segundo censor
As frases acima são trechos de relatórios da censura no cinema brasileiro. Em 1972, o setor começava a se profissionalizar no país. Aprovados mediante concurso, funcionários públicos passavam por um árduo treinamento de seis meses, onde praticavam tiro ao alvo e aprendiam os ideais marxistas. Era a primeira turma do curso de censores.

O endurecimento refletia um processo que se intensificou a partir do AI-5, mas que era norma desde o início da ditadura militar. Para poder vir a público, qualquer produto cultural – do teatro, cinema e música, entre outras áreas – precisava ser submetido à Polícia Federal e, mediante os pareceres (no mínimo três) de um comitê, autorizado ou não.

Todos os documentos relativos a esses processos foram entregues ao Arquivo Nacional no fim da década de 1980, na volta da democracia. Boa parte deles permanece encaixotado em Brasília, mas uma parcela do que se passava nos bastidores da censura dos filmes no país está online, no site do projeto "Memória da Censura no Cinema Brasileiro" .

"Naquela época o cinema possuía uma visibilidade muito maior do que tem hoje, dividido entre televisão e TV a cabo. Existiam só três canais na TV aberta", lembra, em entrevista ao iG , a pesquisadora Leonor Souza Pinto, coordenadora do site. "Era uma força muito grande e é claro que a censura tinha um olhar peculiar em cima dele, por força da extensão que o cinema tinha, muito maior do que o teatro."

Em um primeiro momento, o perfil dos censores era essencialmente moralista, ligado às ideias conservadoras da Tradição, Família e Propriedade (TFP), que apoiaram o golpe militar. "De certa forma, era uma maneira de garantir as bandeiras que os levaram ao poder", afirma Leonor. A mensagem era clara: traição, homossexualismo e palavrões não faziam bem para o país.

Por isso, não espanta o parecer, por exemplo, de "A Falecida" (1965), de Leon Hirszman, baseado na obra de Nelson Rodrigues. Segundo o documento, o filme mostra a "infidelidade da esposa, o cinismo do marido traído e a tentativa de conquista pelo 'papa-defunto'", no "pior" trabalho da carreira de Fernanda Montenegro. Considerando seu "ponto de vista moral", o longa foi vetado para menores de 18 anos.

Reprodução
Censura de "O Justiceiro": "propaganda aos transviados" e "ideias erradas dos cabeludos"
Deus e o Diabo

A referência à atuação de Fernanda era algo comum nos textos dos censores, já que muitos aproveitavam o espaço para escrever impressões pessoais ou exercitar uma veia crítica adormecida. Não só faziam isso como valorizavam seu papel. No parecer de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", em 1964, o censor elogia os atores e a "linguagem fílmica" de Glauber Rocha, mas reclama de um artigo publicado pelo diretor, no qual ele chama censores de "policiais ignorantes". "Vê-se que pouca atenção ou nenhuma tem o sr. Glauber Rocha para o serviço único e oficial de censura do país", conclui o protesto.

Às vezes, contudo, a indignação de um censor podia ter consequências muito mais drásticas do que uma censura 18 anos. Em 1967, "O Justiceiro", de Nelson Pereira dos Santos , havia sido liberado pela PF e estava em cartaz em Brasília. O filme contava a história de um adolescente rebelde, filho de um general rico e aposentado, que garantia: "onde há marmelada, meu pai está". A menção ao exército incomodou os militares e pronto, o longa foi retirado dos cinemas. Pior do que isso: em vez de apreenderem apenas as cópias, como de praxe, oficiais confiscaram os rolos originais do filme, desaparecidos até hoje.

Pereira dos Santos ficou décadas sem saber o que havia acontecido. Mesmo Leonor demorou a localizar o processo no Arquivo Nacional, escondido numa caixa de documentos sigilosos. Em meio a diversos pareceres que solicitavam apenas o corte de palavrões e restringiam a idade para ver "O Justiceiro", um deles, mais virulento, solicitava sua apreensão imediata. Num português periclitante, o documento fala que o longa é uma "propaganda aos transviados" e "mostra bem os cabeludos, com suas ideias erradas".

"O Justiceiro" é um dos únicos casos conhecidos em que os negativos foram confiscados e destruídos pelo governo. A versão disponível hoje foi feita a partir de uma cópia enviada a uma cinemateca da Itália, procedimento repetido por muitos cineastas para garantir que suas obras não desaparecessem nos porões da ditadura.

Divulgação
Jardel Filho em "Terra em Transe", de Glauber Rocha: filme faria "propaganda subliminar"
Censura política

A promulgação do Ato Institucional Número 5, o AI-5, no final de 1968, só oficializa uma movimentação que vinha ocorrendo nos bastidores da Polícia Federal. Se no início o moralismo norteava as avaliações, a política passou a ser o alvo dos censores com a evolução do regime. Os cargos mais altos da censura foram entregues a militares e o medo de se emitir um parecer favorável virou uma constante.

"Terra em Transe" (1967), produção seguinte de Glauber Rocha, foi vítima dessa mudança. Apesar da clara conotação política do filme, que se passa na fictícia Eldorado, alegoria do Brasil, um censor – ingênuo ou conivente, difícil saber – afirma que a obra tem, isso sim, "forte sentido filosófico". Outro, um pouco mais realista, reconhece a mensagem ideológica do filme, mas defende que ela só será percebida "por um público esclarecido e que por isso mesmo não se deixará impressionar". Sua ressalva foi limitar a produção a maiores de 18 anos.

A maioria dos censores viu o filme de outra forma. "Propaganda subliminar", "luta de classes" e "mensagens contrárias à segurança nacional" são expressões encontradas nos relatórios. Um deles alerta para a "identificação marxista" do roteiro e sua defesa da violência como “solução de problemas sociais". Outro, receoso pela irreverência com que a igreja era retratada, solicita que o filme seja visto por um membro do clero – eventualmente "consultores" podiam ser convocados. "Terra em Transe" acabou proibido.

Apesar de alguns resquícios da patrulha moral – "Macunaíma" (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, foi retalhado para não mostrar nádegas, seios e diálogos "chulos" –, o governo passou gradativamente a relevar cenas picantes. No início dos anos 1970, pouco depois, já era claro para os realizadores que se podia falar de sexo, mas de jeito nenhum de política. "A questão não se tratava mais de nudez, mas do que de alguma forma pudesse concretamente ameaçar a ditadura", aponta Leonor.

Boca do Lix o e pornochanchada

O cinema produzido na chamada Boca do Lixo, em São Paulo, foi o primeiro a deslanchar, até o auge da pornochanchada, na segunda metade da década. "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de 1976, maior sucesso do cinema nacional até a estreia de "Tropa de Elite 2", não se encaixa exatamente no gênero, embora ilustre bem a boa vontade dos censores.

Divulgação
José Wilker e Sonia Braga em "Dona Flor e seus Dois Maridos": sexo aceito por incluir "fantasma"
Os palavrões, desta vez, são encarados como um linguajar descontraído, "inerente ao espírito irreverente do povo baiano e de todo o povo brasileiro". Os pareceres elogiam a fidelidade ao romance de Jorge Amado e permitem as tórridas cenas de sexo entre Sonia Braga e José Wilker porque o personagem dele é um fantasma, o que não concretizaria uma traição. Só não passam certos "movimentos eróticos no traseiro de uma jovem" e uma alusão à sodomia.

Mais para frente, evidências dessa fase pudica somem completamente. Os censores se referem sem rodeios à palavra pornochanchada e liberam os filmes tranquilamente. "Histórias que as Nossas Babás Não Contavam", por exemplo, de 1979, faz uma paródia apimentada de Branca de Neve.

Um parecer de outubro do mesmo ano reconhece que o longa "apresenta de maneira deturpada um conto que deveria povoar os devaneios da criança" e se trata de uma "película de fundo pornográfico". Vai ainda mais longe ao dizer que "nada se constata no sentido de extrair qualquer mensagem positiva". O resultado? "Nada impede a sua exibição para maiores de 18 anos", conclui o texto.

Filmes eróticos e pornochanchadas dominaram o circuito comercial na época e transformaram a forma com que os espectadores viam o cinema brasileiro. "Virou um movimento grande que afastou o público do cinema, isso é claro. Passou-se a ter a ideia de que o cinema nacional era ruim, que só mostrava palhaçada, idiotice, preconceito que existe até hoje", afirma Leonor.

Atualmente, o site "Memória da Censura no Cinema Brasileiro" disponibiliza 14 mil documentos, digitalizados a partir de uma parceria com a Petrobras. Esse número representa cerca de 12% do que projeto pretende colocar no ar, se conseguir mais recursos. "Em termos de conhecimento da nossa própria história, é muito pouco", defende a pesquisadora.

"O material está todo lá, um acervo imenso. Não concordo com essa filosofia de que tudo é responsabilidade do governo. A gente deixa de fazer as coisas pensando que existe alguém acima que pode se encarregar disso. As pessoas têm que se comprometer. Onde estão as universidades nessa história?", indaga.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG