Barretos: a família reinante do cinema brasileiro

Em 50 anos o clã ajudou a realizar mais de 80 filmes; leia entrevista

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Às vezes eles se limitam a apenas produzir filmes, embora em muitas outras ocasiões também os tenham escrito, dirigido e filmado. Porém, por qualquer que seja o critério, a família Barreto - Luiz Carlos e Lucy e seus filhos, Bruno, Fábio e Paula - são a primeira-família do cinema no Brasil.

Desde a fundação da produtora da família, LCBarreto, há 50 anos, eles, de uma forma ou de outra, ajudaram a fazer mais de 80 filmes, o mais recente dos quais, "Lula, o Filho do Brasil", estreou nos Estados Unidos em janeiro.

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Paula, Luiz Carlos e Lucy Barreto

Esses filmes - de diversos estilos e gêneros, indo de comédias românticas, como "Bossa Nova", a dramas políticos, como "Memórias do Cárcere" - ganharam prêmios em Cannes, foram indicados ao Oscar, projetaram carreiras de atores e diretores, além de estabelecerem recordes de bilheteria.

Na história do cinema brasileiro, "existe o antes e o depois dos Barreto", afirmou a atriz Sônia Braga, que ganhou destaque internacional em meados da década de 1970 com "Dona Flor e Seus Dois Maridos", dirigido por Bruno Barreto e produzido por seus pais. "Eles são pessoas que vivem, respiram e comem cinema, e o resultado é a construção de um patrimônio que continua vivo."

Nascido no árido Nordeste brasileiro, o patriarca da família, Luiz Carlos Barreto, agora com 83 anos, foi criado em Fortaleza, uma cidade litorânea. Ele lembra-se de, na infância, ter visto Orson Welles filmar o inédito "Four Men on a Raft" numa praia de lá e de ficar "fascinado com todo aquele equipamento". Contudo, quando se mudou para o Rio de Janeiro, aos 17 anos, ele foi jogar futebol de forma semiprofissional e trabalhar como jornalista.

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Mauro Mendonça, Sônia Braga e José Wilker em "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (76)
No final da década de 1940, ele trabalhou na revista "Cruzeiro", similar à "Life" ou "Look", primeiro como repórter e depois como fotógrafo. Ele conheceu Lucy, então estudante de música, durante uma cobertura e os dois se casaram em 1954.

De forma crucial, Luiz Carlos Barreto cobria cinema e conheceu diretores como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha e Cacá Diegues, ligados ao que, no começo dos anos 1960, se transformaria no movimento do Cinema Novo. Isso levou ao convite para escrever o roteiro de "O Assalto ao Trem Pagador", sucesso comercial de 1962 e um dos primeiros filmes do corajoso e socialmente engajado Cinema Novo a chamar atenção e ganhar prêmios nos festivais internacionais.

"Desde o começo, o Cinema Novo foi um movimento que era tanto político e ideológico quanto cinematográfico", disse Luiz Carlos Barreto, com as grossas sobrancelhas subindo e descendo, durante entrevista em janeiro no apartamento nova-iorquino da família no Upper West Side.

"Quando 'O Assalto ao Trem Pagador', que tinha todos esses elementos, explodiu nas bilheterias, isso nos deu credibilidade."

Depois, ele foi o diretor de fotografia de "Vidas Secas", de Nelson Pereira dos Santos, e diretor de fotografia e produtor de "Terra em Transe", de Glauber Rocha, ambos vencedores de prêmios no Festival de Cinema de Cannes.

Fiel ao lema do Cinema Novo segundo o qual todo o necessário para fazer um filme era "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão", essas duas obras influentes, bem como muitas outras que fizeram grande sucesso no Brasil e no exterior, foram montadas na pequena casa de hóspedes nos fundos da residência da família no Rio.

"Luiz Carlos era 10 ou 12 anos mais velho do que o resto de nós, ou seja, ele era um dos poucos a ter casa e esposa, a vida normal de um homem casado", conta Diegues. "Assim, sua casa virou um segundo endereço para muitos de nós, um lugar onde não apenas trabalhávamos, mas tramávamos e planejávamos em prol do cinema brasileiro."

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Cena de 'Vidas Secas'
Os filhos do casal observavam tudo isso com atenção. Bruno, o mais velho, nascido em 1955, tem lembranças vivas de tardes como uma quando tinha dez anos e estava sentado no quintal ouvindo a conversa entre o diretor neorrealista italiano Roberto Rossellini, presente no Rio para um festival de cinema, Glauber Rocha e outras grandes figuras do Cinema Novo.

"Era um grande barato, como um seminário de cinema, ouvi-los discutindo filmes de Eisenstein e tudo mais", Bruno Barreto contou sobre aquela época durante entrevista telefônica do Rio. "Eles sempre me estimularam e davam dicas. Glauber em particular sempre parava para me explicar as coisas, como a dialética da edição, talvez porque fosse uma forma de explicar as coisas para si mesmo."

Em meados da década de 1960, Lucy Barreto, 78 anos, também começou a se envolver com a produtora, que terminou criando uma distribuidora. Diretores e atores que trabalharam com a família afirmam que é a mais pragmática de todos, descrição que ela aceita.

"Para mim, é tudo uma questão de custo e benefício", ela disse enfaticamente, balançando a cabeça e seu flamejante cabelo ruivo. "Sou detalhista. Se você achar que um filme vai arrecadar xis, então o custo não pode exceder ípsilon. Este é um negócio de risco e não dá para ficar dando palpite."

Luiz Carlos e Lucy Barreto também já dirigiram, ele, um documentário, "Isto É Pelé", e ela, "Grupo Corpo 30 - Uma Família Brasileira", sobre a companhia de dança homônima. Porém, ambos disseram preferir a produção.

"Não tenho o temperamento para ser diretor", ele disse. "Eu não tenho aquela obsessão, a neurose que é preciso ter. Não quero definir o temperamento de um diretor..." Sua filha, Paula, desanda a rir e diz: "Para não complicar as coisas com seus filhos". Contudo, Barreto continuou, ser diretor "cria uma deformidade na alma das pessoas. Você vira o inventor de vidas, de situações. Vira um alquimista."

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Jardel Filho em cena de 'Terra em Transe'
Sua passagem de diretor de fotografia e roteirista a produtor foi mais o resultado das circunstâncias do que do destino. Durante seus anos como repórter, ele veio a conhecer muitos políticos e banqueiros - as pessoas que mexem os pauzinhos para obter o dinheiro necessário para fazer filmes - e assim foi capaz de "abrir as portas para nós", nas palavras de Diegues.

Quando o período do Cinema Novo chegou ao fim, apressado pela repressão política, alguns dos principais nomes do movimento, como Glauber Rocha, tiveram dificuldade para se adaptar. Mas não os Barreto.

Nas décadas de 1970 e 1980, sua produtora teve sucessos globais como "Dona Flor" e "Bye, Bye Brasil", de Diegues, e nos anos 1990, foram duas vezes indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro com "O Quatrilho", de Fábio Barreto, e "O que É Isso, Companheiro?", de Bruno Barreto (1997).

"Os meninos são diretores muito bons, muito queridos na hora de trabalhar e muito diferentes na abordagem", declarou Braga, que já filmou com os dois irmãos. "Fábio é mais intuitivo, enquanto Bruno é mais cerebral ao abordar o cinema. Ele tem um conhecimento técnico incrível e, mesmo aos 20 anos, quando estávamos filmando 'Dona Flor', ele tinha o porte de uma pessoa mais velha."

Porém, em dezembro de 2009, menos de um mês antes da estreia de "Lula" no Brasil, Fábio Barreto, que é dois anos mais novo do que o irmão, sofreu um grave acidente de carro e entrou em coma. Embora agora responda a alguns estímulos externos, depois da instalação de um marca-passo cerebral, em maio de 2011, ele permanece incapacitado.

"Sou religiosa, então tenho muita esperança e fé", disse sua mãe. "Acho que se ele sobreviveu ao trauma, que foi tão grave, foi para que possa voltar para nós."

Embora Luiz Carlos e Lucy tenham dado mais autoridade a Paula nos últimos anos, ambos permanecem ativos. Ele quer que a empresa faça animações e está procurando parceiros para um filme que aconteceria na Amazônia. Já Lucy e Paula estão trabalhando num filme sobre os 16 anos que a poeta americana Elizabeth Bishop passou no Brasil; a direção será de Bruno Barreto.

Glória Pires já aceitou interpretar a aristocrática paisagista Carlota de Macedo Soares, namorada de Bishop, no filme, que deve começar a ser filmado em maio. Será o quinto filme de Pires com a família, então agora ela sabe o que esperar.

"Eles se falam francamente, sem papas na língua", ela disse. "Sempre existe uma clareza que acaba por melhorar o filme que, afinal, é nosso interesse comum. Quando existem divergências, eles buscam o consenso. Sem nunca deixar de ser uma família, então, às vezes é uma mãe falando com os filhos, o marido falando com a esposa. Sempre existe esse aspecto e, no fim das contas, você é pega por sua paixão."

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