Quarto longa-metragem do gênero no cinema nacional contemporâneo pretende passar aos espectadores uma "mensagem do bem"

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Vanessa Gerberlli em "As Mães de Chico Xavier": saudade pela perda do filho
O cinema espírita, não há dúvida, conquistou seu lugar na cadeia produtiva do cinema brasileiro . O sucesso de "Bezerra de Menezes", "Chico Xavier" e "Nosso Lar" provou o gosto do público e abriu caminho para uma série de novas produções do gênero. "As Mães de Chico Xavier", que estreia nesta sexta-feira (1º), na véspera dos 101 anos do médium, é o exemplar mais recente dessa safra. Assim como os demais, o filme demonstra uma tendência, ao que tudo indica, irreversível: todos são acríticos.

De certa forma, a transposição para o cinema dessas obras segue a linha dos romances de Zíbia Gasparetto ou das obras psicografadas pelo próprio Chico Xavier, há anos best-sellers no campo de autoajuda e esoterismo. A questão, para eles, não é de estilo ou artística, mas filosófica, talvez até doutrinária, narrando parábolas e receitando pílulas para uma vida melhor. Não faria o menor sentido criticá-los por um viés teórico, digamos, nem os autores pretendem ser encarados como artistas. Até hoje, os filmes "transcendentais" parecem compartilhar essa mesma ambição e se limitam a transmitir uma mensagem – pelo menos isso é o máximo que se pode dizer.

O diretor Daniel Filho foi quem mais perto chegou de um longa-metragem tradicional, justamente por fazer uma cinebiografia de Chico Xavier, e não filmar uma obra escrita por ele. Não conseguiu, assim como "Nosso Lar" – este sim a adaptação de um clássico da literatura espírita, com orçamento inflado e efeitos especiais produzidos no exterior – e "Bezerra de Menezes", o precursor de todo o movimento, feito sem muita pretensão, mas acolhido pelo público.

Caio Blat, um jornalista em busca da verdade
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Caio Blat, um jornalista em busca da verdade
"As Mães de Chico Xavier" vai pelo mesmo caminho. O roteiro partiu do livro "Por Trás do Véu de Ísis", escrito por Marcel Souto Maior (também autor da biografia que inspirou o filme de Daniel Filho), só que, em vez de focar as investigações jornalísticas sobre o fenômeno da mediunidade, olha especificamente para as mulheres que buscam a ajuda de Chico, mais uma vez interpretado com semelhança assombrosa por Nelson Xavier (o ator protagonizou também “Chico Xavier).

Não quer dizer que o jornalismo tenha sido varrido para fora da trama. Caio Blat interpreta o repórter de TV Karl, que vai a Uberaba acompanhar de perto o trabalho do "correspondente da sucursal do céu", aquele cara que escreve "cartas do além", formas como se referem a Chico. Há, inclusive, uma crítica nada sutil ao trabalho da imprensa, já que o editor de Karl na emissora (Herson Capri) dá carta branca para que ele não manipule as informações e faça uma reportagem fiel aos fatos. "É uma oportunidade rara de explorar a verdade no jornalismo, aproveite", diz, entre risos.

A história demora um pouco a engrenar para poder apresentar os personagens, todos encadeados, com relações entre si, mesmo que distantes – uma sofisticação (ou afetação, alguns diriam) desnecessária. Capri e a mulher, interpretada por Via Negromonte, sofrem com o vício do filho em drogas e depois com seu suicídio.  entra em desespero após a morte do filho único, ainda criança. Tainá Muller fica grávida do namorado, que vai viajar para a Europa sem levá-la, e pensa em aborto.

Os dramas dessas três mulheres vão conduzindo o filme e a figura de Chico adentra aos poucos, a princípio pela postura inquisidora do jornalista, que entrevista mães na Casa da Prece – há até um flerte com o documentário, com a inclusão de um depoimento real, conduzido de forma espontânea por Caio Blat, e que exatamente por isso destoa dos demais.

Realidade não é o forte de "As Mães de Chico Xavier", dirigido por Halder Gomes e Glauber Filho, o mesmo de "Bezerra". A estrutura dramática é frágil, em contraponto ao exagero das situações e de uma tendência para o brega – fundir as imagens de um pincel na água com o céu azul não é um sinal de muito bom gosto, da mesma forma que a trilha sonora de Flávio Venturini, equivocada, por vezes irritante. Mas daí Chico Xavier entra em cena e prega que "a saudade é uma dor que fere nos dois mundos". A discussão muda de prisma, os argumentos caem por terra.

O objetivo do filme, assumidamente, é levar, nas palavras do produtor Luís Eduardo Girão , uma "mensagem do bem" à população, demover ideias de uso de drogas, suicídio e aborto (o longa é dedicado às crianças vítimas de aborto provocado). Disso, não há o que dizer e "As Mães de Chico Xavier" provavelmente atinge seu objetivo. Mas qual é a diferença entre um trabalho assim e uma dramatização qualquer de um programa religioso na televisão?

É uma comparação exagerada, é verdade – na abordagem, orçamento e pregação –, mas serve para traçar um paralelo entre o trivial (televisão) e a magia que se espera da sala escura do cinema. O cinema espírita tem cumprido sua função social – vamos colocar dessa forma –, mas tem potencial para levar sua mensagem mais longe, unindo seus ideais com a linguagem cinematográfica de forma mais ousada ou, ao menos, melhor acabada.

Pelos resultados das bilheterias até agora, as plateias não parecem muito preocupadas com isso – a identificação, no final das contas, se concretiza. Mas a fila de projetos é grande e a janela no circuito exibidor, escancarada. Não há por que não experimentar. Quando isso acontecer, aí sim o debate vai poder ser feito em duas frentes. Do jeito que as coisas estão, o cinema espírita e "As Mães de Chico Xavier" permanecem assim, acríticos.

Assista ao trailer de "As Mães de Chico Xavier":

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