Antonio Banderas encarna xeque em "O Príncipe do Deserto"

Sem força, filme de Jean-Jacques Annaud quer ser épico sobre modernização do mundo árabe

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

O espanhol Antonio Banderas e o britânico Mark Strong de lápis no olho, interpretando xeques árabes? Difícil de acreditar, mas esse filme existe: coproduzido pelo Doha Film Institute, do Catar, em parceria com França, Itália e Tunísia, "O Príncipe do Deserto" tem a pretensão de ser um épico sobre a modernização do mundo árabe, dirigido pelo francês Jean-Jacques Annaud ("O Nome da Rosa", "A Guerra do Fogo").

Embora barato para os padrões hollywoodianos (US$ 55 milhões), o projeto é bastante ostentoso ao recriar as primeiras décadas do século 20: cenários enormes, figurinos elaborados, milhares de figurantes, centenas de camelos e cavalos.

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Antonio Banderas em "O Príncipe do Deserto"

Didático, o filme tenta reproduzir a ética e o dia-a-dia das tribos que habitavam a Península Arábica, território inóspito e sem qualquer tecnologia no início do século passado. Para encerrar uma briga por terras, o sultão Ammar (Strong) entrega seus dois filhos ao emir Nesib (Banderas, caricato como nos últimos anos) como garantia de que o conflito não irá recomeçar.

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Tahar Rahim em "O Príncipe do Deserto"
O tempo passa e os garotos ficam adultos. Saleeh (Akin Gazi, de "O Dublê do Diabo") é combativo e bem treinado, enquanto Auda (Tahar Rahim, protagonista de "O Profeta") é apaixonado por livros e pela princesa Leyla (Freida Pinto), filha de Nesib, confinada com as outras mulheres no harém.

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Inconformado com a má sorte e a falta de recursos no meio do deserto – "ser árabe é ser garçom no banquete do mundo", ele lamenta –, Nesib vê a chance das coisas mudarem quando um americano afirma ter encontrado uma grande reserva de petróleo. O problema é que ela fica justamente no local da antiga briga.

Pronto, eis o pretexto para a guerra. Nesib enriquece, compra tanques e armas, enquanto Ammar permanece fiel a seus princípios antimodernidade ("fé e coragem deviam guiar um homem, mas agora dinheiro e petróleo dominam tudo"). Os conselhos de anciãos de cada tribo se reúnem e os debates sobre a interpretação do Alcorão servem de metáfora clara para um mundo contemporâneo assombrado por extremistas islâmicos.

O título, príncipe do deserto, se refere à ascensão do jovem Auda, que tem uma transformação similar à que Rahim sofre em "O Profeta". O então intelectual se vê à frente do exército do pai em batalhas campais na areia. Em meio ao exotismo da Árabia, é isso que mais chama a atenção: a guerra no deserto, mas com a brutalidade dos conflitos da Segunda Guerra Mundial, com tiros para todos os lados, sangue farto e até cabeças cortadas.

O que não salva "O Príncipe do Deserto" dos equívocos. A história evolui desconjuntada, confusa, e Annaud se mostra anos-luz do talento de seus melhores filmes, lá na década de 1980. Ora ele perde a chance de comover com uma cena chave, para na próxima pesar a mão num melodrama sem o menor prepósito. A trilha sonora exagerada de James Horner ("Titanic", "Avatar") também não ajuda.

Nem mesmo tempestades no deserto e a falta de água conseguem ter maior impacto, e isso num épico é fatal. Sobra, então, a chance de descobrir uma realidade distante dos olhos do Ocidente.

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