Antes da Lua Cheia trata arte como meio de resistência

Filme do diretor iraniano Bahman Ghobadi conta história de músico na região curda do Iraque

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Ismail Ghaffari (centro) faz um músico que viaja do Irã para a região curda do Iraque em Antes da Lua Cheia
O colorido de Antes da Lua Cheia , quarto filme do iraniano de origem curda Bahman Ghobadi, contrasta com a desolação da paisagem e das pessoas que passam pela tela ao longo desse road movie. O protagonista é um músico veterano que viaja do Irã para a região curda do Iraque, onde pretende dar um show.

O longa, que estreia apenas em São Paulo, é protagonizado por Mamo (Ismail Ghaffari), uma pequena celebridade em seu país, um músico curdo veterano que junta sua dezena de filhos num ônibus escolar e viaja de uma região a outra. Ele acredita que os rapazes, de várias idades, poderão ser os membros da banda. Mas também tem certeza de que necessita de um vocal feminino para completar a apresentação, mas isso é proibido no Iraque.

A jornada de Mamo, no ônibus guiado por um sujeito, dono de um galo que participa de brigas, tem momentos quase surreais. Mas a realidade, sempre cruel, sempre retorna para lembrar que o mundo não é belo, ao menos, não o tempo todo. Ainda assim, o protagonista encontra forças e muita energia para seguir firmemente em seus objetivos.

Encontra-se uma cantora, mas é preciso escondê-la, quando o ônibus é barrado por policiais. Na fronteira, é necessário mostrar os passaportes - e nem todos os membros da viagem têm o documento. Chegam a uma vila, que parece perdida no tempo e talvez tenha sido completamente abandonada pelos habitantes.

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O diretor Bahman Ghobadi em set do filme
Uma única moradora, uma senhora bem idosa, explica o que aconteceu. Já outra mulher, chamada Niwemang (o título original do filme, que significa algo como Lua Crescente ), tem uma voz que parece ter o poder de despertar os mortos. Ela é interpretada por Golshifteh Farahani, de Procurando Elly .

Momentos como esses compõem o painel que Ghobadi traça da fronteira entre o Irã e Iraque atual. Embora o filme seja de 2006, pouco depois da queda de Saddam Hussein, em 2003, Antes da Lua Cheia não poderia ser mais atual.

Ao falar da arte, no caso a música, e do artista como elemento de resistência, o diretor faz lembrar de seu colega Jafar Panahi ( O Círculo) que ficou preso por mais de dois meses, acusado de fazer filmes contra o regime iraniano. Ele foi libertado no mês passado, depois de iniciar uma greve de fome e mobilizar protestos de artistas em todo o mundo.

Aqui, a resistência dos personagens acontece de forma sutil, ao resistir à lei ou encontrar formas de contorná-las.

Em alguns momentos, especialmente quando pessoas vivas se deitam em covas, Antes da Lua Cheia remete a O Gosto da Cereja , de Abbas Kiarostami. Mas o cinema de Ghobadi dialoga com muitos de seus colegas, ao falar de vidas cuja liberdade de expressão, entre outras coisas, foi usurpada.

Em alguns filmes anteriores de Ghobadi, Tempo de Embebedar Cavalos (2000) e Tartarugas Podem Voar (2004), a presença de animais no título era real, mas ao mesmo tempo metafórica, retratando seres humanos vivendo em condições impróprias. Aqui, pouco mudou, mas o cinema do diretor encontra outra nuance, certo humor negro, que vem mais do absurdo das situações do que da vontade de fazer rir.

Antes da Lua Cheia é inspirado no "Réquiem", de Mozart, e encomendado pelo New Crowned Hope Festival, que em 2006, celebrou os 250 anos de nascimento do compositor. Ghobadi faz uma bela homenagem a um dos maiores artistas da história, que, apesar do talento, morreu jovem, cheio de dívidas e foi enterrado numa vala comum. Aqui, o diretor retoma todos esses elementos, situando-os em outro lugar e em outro tempo, encontrando a atemporalidade do poder da arte.

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