Angelina Jolie: dona do coração... das mulheres

A transformação da garota-problema na mãe de família que todos querem assistir

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Um filme de ação com público majoritariamente feminino? Culpa de Angelina Jolie. Quando Salt entrou em cartaz nos Estados Unidos no último final de semana, 53% dos espectadores que correram às salas eram mulheres, e maiores de 25 anos, de acordo com informações da Sony. Que magia a senhora Brad Pitt exerce sobre universitárias, jovens profissionais e donas-de-casa para que elas se interessem em ver pancadaria, tiros e explosões? Só acompanhar o namorado não é motivo suficiente: Angelina serve como exemplo de beleza, redenção, sucesso e família.

Nem sempre foi assim. Adolescente rebelde, cresceu longe do pai, o ator John Voigt, com quem até hoje mantém uma relação conturbada. Fez tatuagens desde cedo e drogas nunca lhe faltaram – "cocaína, heroína, ecstasy, LSD, experimentei de tudo", já disse. De beleza sobrenatural – grandes olhos verdes, magra, lábios siliconados sem silicone –, começou a trabalhar como modelo aos 14 anos, teve aulas de teatro e aos 18 fez seu primeiro filme como atriz profissional, Cyborg 2 , ficção científica de baixo orçamento. A estreia em Hollywood aconteceu com Hackers (1995), onde ela conheceu seu primeiro marido, o ator inglês Jonny Lee Miller ( Trainspotting ). A cerimônia do casamento demonstrou a excentricidade do casal: ele de couro, ela com calças pretas de borracha e uma camiseta branca, na qual escreveu o nome do noivo com seu próprio sangue (Angelina gostava de se cortar, veja só).

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Jolie aos 18 anos, em ensaio fotográfico
Quatro anos e um divórcio depois, interpretou a mulher de Billy Bob Thorton no filme Alto Controle (1999) e os dois levaram a história para fora dos sets. História, aliás, estranhíssima: tatuaram seus nomes como prova de amor, além de andarem por aí com um frasco do sangue do outro pendurado no pescoço. Nessa época, a carreira de Jolie estava em disparada. Ganhou três Globos de Ouro consecutivos, pelos telefilmes George Wallace - O Homem que Vendeu sua Alma (1997), Gia - Fama & Destruição (1998) e, finalmente, pelo longa Garota, Interrompida (1999), que lhe valeu também o Oscar de atriz coadjuvante. Ao subir ao palco para pegar o prêmio, sem embarcar na guerra dos estilistas, mostrou um visual a la Morticia Adams, com vestido e longos cabelos negros, e fez um discurso ambíguo com relação ao irmão, com quem depois trocou beijos na boca.

A atriz dramática, então, começou a apostar também nos filmes de ação e se converteu na maior estrela do gênero atualmente. Até hoje, são oito produções, de 60 Segundos , passando pela Lara Croft dos filmes Tom Raider , até, enfim, Sr. & Sra. Smith (2005), quando conheceu Brad Pitt. Ali, ela conseguiu a façanha de roubar o marido da namoradinha da América, Jennifer Anniston, da série Friends . Um currículo desses não é, nem de longe, uma garantia de sucesso com o público, apesar de manter espaço cativo na imprensa de celebridades (com a qual a atriz sabe lidar muito bem). Nesse quesito, a tal fascinação com sangue e suas supostas relações homossexuais só ajudavam. A questão é que, desde que conheceu Pitt, Jolie sofreu uma transformação. Ao lado do homem mais bonito de Hollywood, passou a dar maior visibilidade para seu trabalho humanitário e aos filhos adotados em países subdesenvolvidos. Virou uma mulher de família, uma inversão de expectativas que fez sua popularidade subir ainda mais.

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Com o Oscar nas mãos, em 2000: visual dark
Embaixadora da boa vontade das Nações Unidas, Jolie volta e meia está voando para nações em risco. Haiti, Líbano, Bósnia, Iraque, Afeganistão... A lista de carimbos no passaporte da estrela é extensa. Foi nessas viagens que ela adotou três de seus filhos: Maddox, do Camboja, Zahara, da Etiópia, e Pax, do Vietnã. Completam a prole a menina Shiloh e os gêmeos Knox e Vivienne, da relação com Pitt. Tantas crianças fizeram com que ela ficasse mais tempo em casa e escolhesse melhor seus projetos – nos últimos dois anos, foram apenas três filmes, uma animação ( Kung Fu Panda ), um drama aclamado pela crítica ( A Troca ) e dois filmes de ação, Procurado e, agora, Salt .

A ligação com o projeto começou com o telefonema de uma executiva da Sony Pictures, interessada em saber se Angelina queria ser uma Bond Girl, os famosos pares femininos do espião 007. A atriz disse não, mas que gostaria de interpretar Bond. Uma ano e meio depois, a oportunidade apareceu com Salt , escrito anteriormente para Tom Cruise. O personagem mudou de nome, de Edwin para Edwina, e de repente ganhou conotação feminista, uma espiã que bate, atira e mata como um homem. "O engraçado de ter crianças é que agora me sinto ainda mais motivada a fazer cenas de ação porque sei que elas adoram", declarou Jolie à Entertainment Weekly.

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Brad Pitt e Jolie na pre-estreia de Salt: um dos casais mais poderosos de Hollywood
A família, portanto, move sua carreira, mas, ao mesmo tempo, será responsável por abreviá-la. Angelina não quer mais continuar apostando na roleta de Hollywood. Uma aposentadoria está nos planos para que ela possa construir um lar grande e feliz, coisa que não teve na infância. "Não amo tanto atuar a ponto de ficar com o coração partido se não pudesse mais fazer isso amanhã", afirmou a atriz à revista Vanity Fair. "[Brad e eu] faremos isso por mais alguns poucos anos e depois vamos fazer outra coisa. Isso não significa que nunca mais tentaremos fazer outro filme, mas será uma coisa diferente."

No tempo livre, estão previstas viagens a lugares distantes, inclusive aos países dos filhos, para aprender e mergulhar na cultura local. "Em qualquer momento que me sinto perdida, pego um mapa e olho, olho até me lembrar que a vida é uma aventura gigantesca, com muito a fazer, a ver", diz ela. Em Veneza, onde a família mora atualmente para Jolie filmar The Tourist ao lado de Johnny Depp, com direção do alemão Florian Henckel von Donnersmarck ( A Vida dos Outros ), a rotina, apesar dos paparazzi, é pacata. As crianças têm aulas com professores particulares, que viajam com o casal, e Pitt fica à vontade para construir móveis, esculpir e desenhar (ele é um entusiasta da arquitetura). Aos 35 anos, a maluca tatuada, ícone dos filmes de ação, está perto de concluir sua metamorfose. A simpatia do público, e das mulheres, isso ela já conquistou.

Assista ao trailer de Salt :

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